Criei bonecas diabéticas para alertar crianças sobre a doença

Os pequenos aplicam injeções de insulina em princesas, super-heróis e dinossauros!

Reportagem: Caroline Cabral

A versão diabética dos brinquedos foi batizada com nomes docinhos! | <i>Crédito: arquivo pessoal
A versão diabética dos brinquedos foi batizada com nomes docinhos! | Crédito: arquivo pessoal

Eu tinha apenas 15 anos quando entrei em coma subitamente. Meus pais acharam que eu estava nas últimas. Era uma época em que eu vivia com sede, cheguei a beber um galão de 20 litros de água em uma semana! Depois de uma excursão com o colégio, onde ingeri muita água e refrigerante, tive uma das madrugadas mais sofridas da adolescência. Minha mãe atrelou os vômitos ao cansaço do dia somado à má alimentação. Na manhã seguinte, sem nenhum sinal de melhora, fui levada para o Pronto Socorro. Foi só o tempo de chegar: desmaiei na porta! Imediatamente me encaminharam para a UTI, onde passei três dias em coma induzido. Ao todo, foram 20 dias de internação e incontáveis exames até desvendarem meu quadro: diabete. Não fazia a menor ideia do que se tratava. Cheguei a pensar que depois de algumas vacinas eu estaria livre daquilo... mas lá se vão 16 anos convivendo com a diabete diariamente.

Responda rapidamente: quantas princesas com uma bomba de insulina você já viu pelas lojas de brinquedos? Zero, suponho. Há um mês recriei personagens do universo infantil na versão diabética: princesas, super-heróis e dinossauros que precisam de injeções diárias de insulina. A representatividade é importante, as crianças se reconhecem nos brinquedos que tanto amam e sentem o que sinto hoje, depois de muito tempo convivendo com a minha realidade: tudo bem ter diabete, está tudo bem com a gente.

Fui obrigada a abandonar doces e carboidratos do dia para a noite

Aos 15 anos, quando finalmente tive alta, lembro que paramos em uma farmácia especializada em diabete para comprar medicação. Mamãe desceu do carro e voltou com os remédios e uma notícia: “segunda-feira começo a trabalhar aqui!”. Fiquei em choque. Ela queria mergulhar naquela doença desconhecida, então deu adeus ao cargo de gerente de uma joalheria para ser balconista de farmácia e cuidar da filha! O apoio dela foi fundamental para que eu, uma menina de apenas 15 anos, entendesse que diabete é para a vida inteira.

Desde que descobri minha condição, senti falta de informações sobre ela. Precisei parar de comer doces e carboidratos do dia para a noite! Passei a ter que me aplicar insulina com uma seringa pelo menos duas vezes por dia. As cicatrizes que as aplicações deixaram são bem incômodas, balançaram minha autoestima. A seringa foi minha grande aliada por nove anos. Mas há sete anos uso uma bomba de insulina, um dispositivo que dispara doses dela através de um cateter subcutâneo por 24 horas. Graças a essa nova tecnologia, a restrição alimentar de não comer doces diminuiu! Como o que quiser, desde que eu saiba a quantidade de carboidratos que estou ingerindo para configurar a insulina da bomba no valor equivalente. Muito embora seja um avanço para nós, diabéticos, poucas pessoas têm acesso ao método: a bomba mais simples custa cerca de R$ 15 mil.

Customizei uma Elsa Diabética para mim e o Facebook foi à loucura!

Em 2014, nasceu o Diabética Tipo Ruim. Nele, falo sobre como viver com a diabete socialmente: desde sexo até entrevistas de emprego! Tenho uma loja virtual onde vendo produtos fashion para diabéticos, como camisetas, bolsa térmica, porta-comprimidos e pulseiras de identificação.

Há um mês customizei uma Elsa diabética (personagem do filme Frozen) para mim e batizei de Melza. Publiquei uma foto do resultado no Facebook e as pessoas começaram a enlouquecer atrás de uma igual! Meninos queriam super-heróis diabéticos e meninas outras bonecas. Troquei os nomes dos personagens para algo que remetesse a doces, como a Arimel, inspirada na sereia Ariel, a Caramela, uma releitura da Cinderela, a Bala, versão com diabetes da Bela, além da Branca de Açúcar e da Docinho, releituras da Branca de Neve e da Sininho.

Ver um super-herói lidando com a mesma doença que você é uma injeção de autoestima!

Compro as bonecas prontas e faço o tratamento que a cliente pedir: bombinha ou injeção. Costuro nela e pronto! Levo uma média de três horas para confeccionar cada uma, todas são feitas sob encomenda. Cada brinquedo leva uma plaquinha de identificação, explicando a história daquele personagem com a doença. Esses brinquedos ajudam a criança a lutar contra o preconceito que os diabéticos sofrem. Imagine como é para uma menina de 15 anos ir à praia com um cateter na barriga? Se não houver um trabalho psicológico decente, ela se sentirá extremamente mal! Com a ajuda das bonecas, espero que as meninas se sintam confortáveis no corpo que habitam.

Marina de Barros Collaço, 31 anos, fotógrafa, São Paulo, SP

24/10/2016 - 21:26

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