Abri um açougue sem carne: faço tudo com vegetais

Vendo peças que imitam carne para as pessoas que não comem animais

Reportagem: Letícia Gerola

O produto está lá, cru, é uma matéria prima... Como fazer pra não ter o mesmo gosto sempre?! | <i>Crédito: Divulgação/Redação Sou Mais Eu
O produto está lá, cru, é uma matéria prima... Como fazer pra não ter o mesmo gosto sempre?! | Crédito: Divulgação/Redação Sou Mais Eu

Antes de tudo, deixa eu te explicar o veganismo: é uma prática que exclui qualquer tipo de exploração animal na vida; seja na alimentação, vestimenta, cosmético ou produtos de limpeza. No meu caso, comecei com o vegetarianismo, linha que foca na ausência de animais na alimentação. Tirei de vez a carne do meu cardápio depois de conviver com amigas vegetarianas. Como sempre gostei de receber gente em casa com pratos saborosos, fui pegando o jeito da culinária vegetariana para prestigiar minhas amigas e acabei abolindo a carne também. Entrei em contato com a filosofia vegana e me identifiquei: evitar o sofrimento animal e consumir somente produtos da terra era algo que eu queria pra minha vida! Desde então, fui pesquisando cardápios, ingredientes e adorei as possibilidades de criação desse universo. Comecei a ser vegana pela causa animal, mas me apaixonei mesmo foi pela deliciosa cozinha!

 

Inventei as peças do açougue na minha própria casa

Trabalho como arquiteta e sempre tive a culinária como um hobbie. Foi cozinhando para amigas vegetarianas e veganas que percebi o dom que tinha para essa cozinha. Elas pediam pra levar um pouquinho pra casa pra dar pra mãe, pra sogra... Sempre tinham um parente que seguia alguma dessas linhas de alimentação e era carente de pratos diferentes. Quando virei vegana, há oito meses, entendi a dificuldade dessas pessoas: é muito difícil encontrar produtos bons a preços justos! Sem falar na criatividade para fazer as refeições. O produto está lá, cru, é uma matéria prima... Como fazer pra não ter o mesmo gosto sempre?! Comecei a brincar com temperos, grãos, texturas vegetais, tudo na cozinha da minha casa. Foi lá onde criei a maioria das peças que vendo hoje no açougue.

Vendi mais de mil itens em duas horas
Brincando com as receitas, tive a ideia, há um ano, de montar um açougue. Nasceu a No Bones, que significa “sem ossos”. Cozinhar é algo que amo fazer e o mercado está carente de opções, essa foi minha aposta. Não queria um restaurante porque a vida é muito corrida, achei que o produzir alimentos congelados para comer em casa facilitaria a vida das pessoas. Além de ser mais prático, queria um negócio que eu pudesse dar conta sozinha! Restaurante precisa de cozinheiro, garçom, funcionários... Sem falar nos finais de semana, que estão sempre lotados. A ideia era um negócio dinâmico e prático que ao mesmo tempo me possibilitasse soltar a imaginação na cozinha e atender as demandas de vegetarianos e veganos. O que eu não imaginava é que o sucesso ia ser tão grande que a minha equipe ia chegar a cinco pessoas!

O dia da inauguração foi muito empolgante. Imaginei que fosse atender só o público vegano que, na minha cabeça, era uma parcela pequena da população. Além de alguns poucos curiosos... Estava enganada: vendemos mais de mil peças em duas horas! Veio gente do litoral, do interior, de tudo que é canto comprar os produtos. Como tem pouca coisa vegana ou vegetariana no mercado, os clientes vieram fazer a compra do mês no nosso açougue. E nós mantivemos eles por perto. Temos clientes fixos que sempre voltam.

 

Soja? Nada disso, aqui eu solto a imaginação!

Tenho contatos de produtores orgânicos dentro do Ceasa, que é onde eu consigo a minha matéria prima. Tudo aqui é orgânico, desde a cebolinha até o tempero. Fazemos hambúrgueres, espetinhos, salsicha... Todo tipo de carne, só que vegana. Geralmente a imitação de carne dos mercados é a base de soja, por isso eu decidi trabalhar com soja em apenas 5% dos meus produtos. A salsicha, por exemplo, é de tomate seco! Tenho linguiças a base de feijão, nuggets feitos de milho, coxinhas de jaca.

 

Trabalhamos de segunda a sábado, das 11h às 20h da noite, aos sábados, até às 15h. Meu marido Brunno, publicitário, é quem cuida das redes sociais e divulgação da empresa. Fora ele, tenho mais quatro ajudantes entre cozinha e atendimento para auxiliar no preparo e na venda. Ainda faço alguns trabalhos de arquiteta, mas como são projetos mais longos, tenho tempo de sobra pra cuidar da No Bones, que inaugurou há um mês. Por enquanto, reinvestimos tudo que ganhamos na empresa! Nem vi a cor do dinheiro, mas pra mim não faz diferença. Estou trabalhando por amor! 

 

Marcella Izzo, 26 anos, arquiteta e chefe de cozinha, São Paulo, SP

 DA REDAÇÃO

O que é o veganismo?

O veganismo nasceu na Inglaterra em 1944. A criação do movimento e registro do nome foram feitos por Donald Watson, fundador da Vegan Society, principal sociedade vegana do mundo. “O movimento veio para o Brasil em meados da década de 90 e começou a se popularizar nos últimos dez anos”, explica Laura Kim, fundadora da Veganismo Brasil.

O veganismo exclui qualquer tipo de exploração animal, seja no vestuário – roupas de couro e plumas, por exemplo – até os cosméticos do dia a dia, que não podem ter sido testados em animais. “Mais do que não comer produtos de origem animal, e isso inclui leite e derivados, nós evitamos qualquer tipo de prática que infrinja sofrimento aos animais”, explica Laura. Não adianta você ser vegana e assistir a um rodeio, por exemplo, ou comprar um passarinho para colocar na gaiola.

E o vegetarianismo?

O vegetarianismo é menos amplo: consiste em uma dieta onde a pessoa exclui carne, frango e peixe do cardápio.  “O vegetariano não come a carne aparente, aquela que vemos no prato. Já os veganos não consomem o alimento se ele tiver sido frito no mesmo óleo que a carne, por exemplo, ou dividido o prato”, completa. 

31/01/2017 - 14:41

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