Curei o suor no sovaco e dou glória a Deus de braço erguido!

Tive hiperidrose nas axilas dos 13 aos 26 anos. Além do suor, o negócio fedia...

Reportagem: Luiza Furquim (Colaboração: Carol Almeida)

Hoje dou glória a Deus de braços erguidos! | <i>Crédito: arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu
Hoje dou glória a Deus de braços erguidos! | Crédito: arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu

Quando eu ia para a igreja e o pastor falava “Levantem as mãos e deem glória a Deus!”, todos erguiam os braços, menos eu. É que eu tinha hiperidrose, a doença do suor excessivo, nas axilas. Resultado: elas viviam úmidas e fedidas. E eu era limpa, gente, tomava banho até cinco vezes por dia! Mesmo assim, tinha de aguentar as irmãs da congregação cobrindo o nariz com a mão e cochichando sobre mim. Foi assim até o ano de 2012, quando uma cirurgia resolveu o problema de vez. Aleluia, irmãos!

Minha mãe fez até simpatia pra mim

Meu drama começou aos 13 anos. Mamãe brigava comigo, achava que era falta de higiene. Um dia me arrastou para o banheiro, pegou a bucha e esfregou. “É assim que se limpa um sovaco!”, disse. Logo depois, a rodela de suor e o cheiro forte voltaram. Ela fez até simpatia para ver se a sudorese passava. Me levou para Aparecida do Norte, em São Paulo, e me fez pôr a mão na parede da catedral.

Como a gente é evangélica, não entendi direito, só sei que não aconteceu nada. Meus sutiãs encardiam. O branco ficava amarelo, o preto branqueava, o bege escurecia, e o colorido desbotava. E as blusas? Só usava regatas de algodão pretas, azul-marinho e vinho, porque o resto ficava visivelmente manchado. Camiseta branca era descartável: usava uma vez e jogava fora. Por isso, só comprava peças de R$ 6. Eu tentava de tudo para resolver o problema. Leite de magnésia, leite de colônia, esfoliação... Conhecia tudo quanto é desodorante de farmácia, até os importados. Usava só os masculinos, porque os femininos não seguravam a barra. E mesmo aqueles de 48 horas, em mim, duravam 48 minutos. Tive de desenvolver técnicas para me poupar de constrangimentos. Quando alguém vinha me abraçar, dava uma abaixadinha para a pessoa me abraçar pelo pescoço e eu pegar na cintura. E, nos dias em que eu ficava muito tempo fora de casa, apelava para o papel higiênico. Fazia um rolinho, enfiava debaixo do braço e deixava lá até encharcar.

Meu filho, aos 3 aninhos, disse que eu estava “fedô”! 

Você não tem noção... O suor escorria! Aos 18 anos, comecei a sair com o Donisete, meu marido. Durante os nove meses de namoro eu consegui driblar a situação: tomava banho pouco antes dos encontros, maneirava nos amassos e por aí vai. Dizia para o Donisete que “transpirava muito” e só. O problema foi quando a gente se casou. Não dava mais para tapear. Levantei o braço para ele ver a gravidade da situação. No começo, meu amor foi discreto, mas depois que pegou intimidade acabou folgando. Chegava em mim e brincava “Tá cheirando, hein?”. Eu ficava louca. Donisete chegou a perguntar se eu estava lavando a roupa direito, porque abriu a porta do meu guarda-roupa um dia e sentiu o futum. Só fui procurar uma solução definitiva depois que meu filho nasceu, há cinco anos. A gravidez fez a hiperidrose piorar muito e a coisa ficou feia. Só me sentia confortável fazendo sexo no chuveiro, com a água correndo. Lençol branco já não tinha, só encardido, porque acordava com o pano molhado. Mas o pior mesmo foi quando meu bebê, na época com três anos, virou pra mim e disse “Hummm... Mamãe tá fedô”. Senhor, naquele dia eu morri! Mas o choque foi bom: resolvi procurar uma dermatologista no mesmo dia. “Mamãe vai dar um jeito no fedô”, prometi. A médica me indicou três cremes, um deles com ácido, para passar todo dia. Usei durante um ano e melhorou, mas não resolveu. No final, ela resolveu aumentar a concentração do ácido e minhas axilas ficaram em carne viva, cheias de bolhas! Poxa, gente! Quando reclamei, ela me disse que havia duas opções: a injeção de botox e a cirurgia. 

Fiz a cirurgia de graça e agora falo: “Cheira aqui!”

Não foi difícil decidir o que fazer. O botox não estava na cobertura do plano de saúde e cada  aplicação custava R$ 1.500 na época. Dois sovacos, R$ 3.000. Não. Além disso, era doída e não era permanente. Em seis meses, tinha de fazer de novo. Já a cirurgia estava no plano, era rápida, indolor e permanente. Não pensei duas vezes. Marquei para dali um mês e meio com um cirurgião torácico, que me explicou que seriam colocados dois clipes nos meus nervos e as glândulas de suor parariam de trabalhar. No dia da cirurgia, tomei anestesia geral e apaguei. Acordei com dois pequenos cortes em cada lado do corpo, entre os seios e as axilas, e já estava seca! Demais! Tive que ficar 15 dias sem fazer esforço ou atividade física, mas eu suava tanto que nem tinha cabimento treinar um esporte. Nos dias seguintes, senti um alívio enorme. Joguei minhas roupas fedidas no lixo e finalmente comprei peças que custavam mais que R$20. E de todas as cores: branca, amarela, pink... Fui à desforra! Nem acredito em como minha vida melhorou sem eu gastar um centavo. Agora uso desodorante feminino, com cheirinho floral. Meu guarda-roupa cheira a lavanda e minha cama é limpa! Hoje, quando meu marido vem brincar comigo, falo “Cheira aqui, meu nego”. Ele cheira mesmo e diz que está uma delícia! Meu filho também cheira. Seguro na barra do ônibus sem medo de alguém fazer careta para mim e estou mais solta na cama com o meu amor. Agora dá até para ficar por cima! Na Igreja, não tem tempo ruim. Quando o pastor fala para levantar os braços, só me falta fazer a “ola”! Glória a Deus!

Aremilda Conceição dos Santos, 31 anos, dona de casa, Mogi das Cruzes, SP


DA REDAÇÃO

Cirurgia é solução definitiva para hiperidrose!

Hiperidrose é a doença caracterizada pelo suor excessivo na palma das mãos, planta dos pés, nuca e axilas – e mais raramente na virilha, rosto e abdômen. Ela é causada pela hiperatividade do nervo simpático, que leva as mensagens do cérebro para as glândulas de suor, fazendo o corpo transpirar demais (mesmo em repouso e no frio). “É como se o nervo, por defeito genético, ficasse dando choque na glândula e estimulando-a a produzir mais suor”, explica o dermatologista Gilvan Alves. “Em cerca de 40% dos casos há um componente genético, que pode ser hereditário”, explica o cirurgião torácico Marlos Coelho, professor de cirurgia na PUC-PR. Segundo ele, o estresse é um gatilho mais forte para a hiperidrose do que as altas temperaturas. Existem ainda graus de sudorese, que vai do úmido ao encharcado, e “a doença pode piorar ao longo da vida, mas não há explicação do porquê de isso acontecer”, diz Gilvan.

Operação dura apenas meia hora!

Para tratar a hiperidrose, procure um dermatologista, que, segundo Gilvan, indicará três soluções possíveis: Cremes à base de hidróxido de alumínio “Em alta concentração (20%), ele quase desativa a glândula de suor.” O resultado, porém, não é definitivo. Injeções de botox na região afetada Custam caro, “de R$ 1.500 e R$ 2 mil por área, e precisam ser refeitas entre quatro e seis meses depois”, avisa Marlos. Cirurgia há dois tipos. Ambos resolvem a maioria dos casos, mas são contraindicados para obesos, diabéticos e pessoas com insuficiência.

Atenção... “Com o tal fator compensatório”

Ele “transfere” o suor para outra parte do corpo, geralmente entre os seios e na região lombar. Segundo Marlos, a incidência da compensação varia “entre 54% a 70% numa forma discreta ou moderada, suportável, regredindo em seis meses. Porém, em 1% a 4% dos pacientes ela ocorre de maneira severa e considerada insuportável”. Ou seja, a sudorese costuma voltar de forma bem mais fraca que a original.

Os gânglios do nervo simpático são definitivamente cortados. Dura cerca de meia hora e são feitos pequenos cortes entre os  seios e as axilas que cicatrizam em poucos dias. Após a operação, é recomendado ficar em repouso por dois dias e outros 15 sem pegar peso ou fazer atividade física. Clipes são colocados nos gânglios do nervo simpático e freiam a produção do suor. Por ser reversível, é a técnica mais usada. A duração, os cortes e a recuperação são idênticos à da simpatectomia.

26/01/2017 - 18:34

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