"Tive depressão pós-parto e quis matar o meu filho"

Fabiana nunca planejou afogar seu bebê na banheira ou jogá-lo pela janela, mas, quando ele ficou na UTI, se sentiu aliviada. Queria devolvê-lo!

Reportagem: Christiane Oliveira

FABIANA DE OLIVEIRA FARIA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
FABIANA DE OLIVEIRA FARIA | Crédito: Arquivo Pessoal
Sempre fui uma mulher, ou melhor, uma menina muito sonhadora. Desde criança, ficava idealizando minha família perfeita: uma casa aconchegante, meu marido, nossos filhos... Cresci com essa ideia na cabeça. E ela se concretizou cedo. Conheci o Mosca, meu ex-marido, quando eu tinha 22 anos e nos casamos quando fiz 24. Engravidei após três anos de casada. De todas as fantasias que eu tinha, a mais desejada era ser mãe. Ver a barriga crescendo, curtir o amor entre mãe e filho... Parecia mágico! E tudo isso virou realidade quando o João nasceu e pude segurá-lo em meus braços. Fiquei encantada por aquele menino... 

Ficamos três dias no hospital e fomos para casa. Aí o bicho pegou e descobri o que é ser mãe de verdade. Os choros, a amamentação, colocar para dormir, dar banho... Minha vida agora se resumia a ele. Não tinha mais tempo para nada. Não conseguia almoçar sossegada, escrever para o meu blog, ver um filme com meu marido. Isso foi me desesperando tanto que cheguei ao ponto de perguntar a mim mesma: “Meu Deus, como faço para devolver esse moleque? Quero minha vida de volta!” 

Ser mãe se tornou um martírio! 

Minha gravidez foi tranquila em termos de saúde. Emocionalmente, nem tanto. Ficava irritada por qualquer coisa e, no fim da gestação, me isolei bastante. Só queria ficar em casa com o Mosca. Como já tinha sofrido com depressão, decidi contar à médica sobre meu comportamento. Mas ela disse que era normal.

Pensei que essas mudanças de humor mudariam quando o João nascesse, mas só piorou. Logo na primeira noite em que saímos da maternidade, ele chorou por quatro horas sem parar. Tentei de tudo: amamentei, peguei no colo, troquei a fralda e até dei remédio para cólica. Só um banho resolveu. Fiquei acordada quase a madrugada inteira e, no dia seguinte, tive que acordar cedo para amamentá-lo. Comecei a perceber que minha rotina tinha mudado mesmo, para pior. Vi que meu tempo seria dedicado ao meu filho 24 horas por dia. A maternidade tinha virado um martírio! 

Após uma semana, comecei a sentir coisas estranhas, como o pavor de amamentar: tinha crises de choro quando chegava a hora. Era só pôr o João no meu peito que eu suava frio, tremia e sentia que ia desmaiar. 

Para piorar, meu filho começou a engasgar e ficar roxo quando bebia meu leite. No décimo dia de vida, ele engasgou, desmaiou e ficou cerca de um minuto sem respirar. 

Levamos o João para o hospital e ele foi direto para a UTI. Foi minha irmã que passou aquela noite com meu filho. Qualquer mãe no meu lugar estaria desesperada e não arredaria o pé do hospital. Mas comigo foi diferente. Senti um alívio tão grande por não ter o João por perto que falava assim para o Mosca: “Ai, que bom, né? Com o João internado podemos sair para jantar, ver um filme...” Meu marido olhava pra mim sem esboçar nenhuma reação. Provavelmente, estava chocado com o que eu disse. E quem não estaria? 

Queria me livrar do meu bebê 

Enquanto o João estava internado, eu só pensava em como iria me livrar dele. “Será que alguém vai perceber se meu filho desaparecer? Será que, se isso acontecer, o Mosca vai querer continuar comigo?” Esses eram os pensamentos bizarros que rondavam minha mente. Nunca planejei afogar meu filho na banheira ou jogá-lo pela janela, mas se ele não voltasse do hospital seria como tirar um peso das minhas costas! 

Os médicos descobriram que os engasgos aconteciam por causa de um refluxo e depois de três dias o João voltou para casa. E aí as coisas pioraram. Eu me negava a amamentá-lo e já nem queria mais ficar perto dele. Quando o Mosca o trazia para mim, eu falava: “Tira esse moleque daqui!” Nem o nome do meu filho eu conseguia dizer! 

Eu sabia que aquelas atitudes não eram normais. Por isso, fui a uma psiquiatra. Ela perguntou se eu achava a vida melhor antes de engravidar e se eu já tinha considerado a ideia de sumir com o João, matá-lo mesmo. Respondi que sim para todas as perguntas e ela disse que, a partir daquele dia, eu estava proibida de ficar sozinha com o meu filho. Depois de mais algumas sessões, a médica me diagnosticou com depressão pós-parto e bipolaridade. Me receitou antidepressivos e remédios para controlar meu humor. 

Todos os dias eu tinha a companhia da minha irmã e da Márcia, a mulher que trabalhava lá em casa e que foi um anjo na minha vida. Tinha dias que eu nem saía do quarto. Quando ouvia o choro do João, enfiava a cabeça debaixo do travesseiro. 

O João foi criado pela Márcia durante sete meses, que foi quando comecei a cair na real. Eu já estava me aproximando do meu filho aos poucos. Me esforçava para pegá-lo no colo, dar mamadeira e até brincar. Um dia, eu estava com ele nos braços para fazê-lo dormir quando de repente olhei nos seus olhinhos, senti um arrepio e meu coração bateu forte. Naquele momento, o amor de mãe se manifestou em mim e, enfim, consegui dizer: “Eu te amo, meu filho!” Chorei muito e me senti muito mal por tudo o que tinha acontecido. Mas sabia que as atitudes que tomei estavam fora do meu controle. 

Quando o João completou 1 ano e meio, fui demitida e pude passar mais tempo com ele. Criamos uma afinidade incrível e nosso amor não parou mais de crescer. Eu estava bem e todos os medos e pensamentos ruins não me rondavam mais. Já ficava sozinha com o João e assumi definitivamente o meu papel de mãe. Nessa época, eu e o Mosca nos separamos. Mas não foi nada traumático. É que a gente tinha virado apenas amigos. 

Hoje o João tem 7 anos e somos parceiros. Costumo dizer que meu filho me edificou. Por causa dele, sou uma pessoa muito mais madura agora. Também tenho um blog chamado Depois que Eu Descobri, que fala sobre maternidade e depressão pós-parto. Ajudo mulheres que passam pelo mesmo problema que eu. Agora me considero uma boa mãe, e acho que o João também. - FABIANA DE OLIVEIRA FARIA, 34 anos, jornalista, São Paulo, SP

Depressão pós-parto atinge 40% das mulheres brasileiras

Segundo o Ministério da Saúde, a depressão pós-parto atinge 40% das mulheres no Brasil. Além de sofrer uma alteração hormonal significativa após dar à luz, a mãe também depara com uma grande mudança no estilo de vida. “Algumas entendem a gravidez como uma perda de beleza, espaço, convívio social e relações no trabalho”, diz o psiquiatra Ivan Morão, do Hospital e Maternidade São Luiz (SP). 

Os sintomas podem aparecer durante a gravidez ou entre duas e três semanas após o parto. “São os mesmos da depressão, como variação de humor, tristeza, apatia, fraqueza, diminuição do apetite, sono perturbado e baixa autoestima”, aponta o especialista. De acordo com o médico, o risco de a mãe agredir a criança é muito baixo. O mais comum é que ela rejeite o filho, não querendo amamentar, pegar no colo, falar o nome da criança; e entrar em pânico ao ouvir o choro. “Mas é preciso ficar de olho. Se a mãe tiver aversão ao bebê, é preciso buscar tratamento imediato, explica. Além disso, o apoio da família é fundamental. Eles precisam compreender a situação e não julgar a mãe.




26/04/2016 - 09:00

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