"Tenho autismo severo e conto o que se passa na nossa cabeça"

Naoki Higashida espera ajudar os pais a se aproximarem de seus filhos e que todos possam se tornar amigos melhores para os autistas

Texto: Renato Bianchi

Naoki Higashida tem autismo severo | <i>Crédito: Divulgação
Naoki Higashida tem autismo severo | Crédito: Divulgação
Naoki Higashida sofre de autismo severo. Preso em seu mundo individual, muitas vezes exibe comportamentos vistos como estranhos,  “inadequados”. Seja repetindo palavras e frases aparentemente sem sentido ou evitando contato visual com outras pessoas, Naoki tem uma enorme dificuldade de se comunicar e de socializar. Mas, graças à determinação da mãe e de uma professora, ele aprendeu a se expressar apontando as letras em uma espécie de teclado de papelão – e o que Naoki tem a dizer traz uma nova luz para a compreensão da mente autista. Confira alguns trechos de seu livro:

Como descobri que sou diferente?
Quando eu era pequeno, nem sabia que era uma criança com necessidades especiais. Como descobri? Com os outros me dizendo que eu era diferente de todo mundo, e que isso era um problema. Pura verdade. Para mim, era muito difícil agir como uma pessoa normal. Até hoje não consigo “fazer” uma conversa de verdade. Não tenho problemas em ler livros em voz alta e cantar, mas, assim que tento falar com alguém, minha voz simplesmente desaparece. Claro que às vezes consigo articular umas poucas palavras, mas elas podem acabar dizendo o completo oposto do que eu pretendia! Não consigo reagir de forma apropriada quando me dizem para fazer uma coisa e, quando fico nervoso, fujo. Por isso, mesmo uma atividade simples, como fazer compras, pode se tornar um grande desafio para eu realizar sozinho. Então por que não consigo fazer essas coisas? Durante meus dias mais frustrantes, tristes e desesperados, ficava imaginando como seria se todos fossem autistas. Se o autismo fosse considerado apenas um tipo de comportamento, as coisas seriam mais fáceis para nós. É desagradável quando nos tornamos um grande estorvo para as pessoas, mas o que queremos é ter um futuro melhor.

Quer entender o que se passa na mente autista?
Graças aos ensinamentos da srta. Suzuki e da minha mãe, aprendi um método de comunicação por escrito. Agora posso até usar meu próprio computador. O problema é que muitas crianças autistas não têm meios de se expressar. E é comum que mesmo seus pais não façam ideia do que elas possam estar pensando. Então, minha grande esperança é poder ajudar um pouco explicando do meu jeito o que acontece na mente das pessoas nessa condição. Também espero que, através da leitura deste livro, você possa se tornar um amigo melhor para alguém com autismo. Não se pode julgar uma pessoa pela aparência. Mas, a partir do momento em que você entende o que acontece dentro do outro, vocês dois podem se tornar bem mais próximos. Do seu ponto de vista, o mundo do autismo deve parecer um lugar extremamente misterioso. Portanto, por favor, pare um pouco e ouça o que tenho a dizer.

Por que autistas falam tão alto e de forma estranha?
As pessoas sempre dizem que, quando falo comigo mesmo, minha voz é bem alta, ainda que eu não consiga dizer o que preciso, e que em outros momentos ela soe muito baixa. É uma daquelas coisas que não consigo controlar. Isso de fato me deixa mal. Por que eu não consigo consertar isso? Quando uso uma voz estranha, não é algo que faço de propósito. Com certeza, existem momentos em que acho o som da minha voz reconfortante,quando digo palavras familiares ou frases fáceis de falar. Mas a voz que não consigo controlar é diferente. Ela escapa de mim sem querer: é como se fosse um reflexo. Um reflexo em resposta a quê? Em alguns casos, a coisas que acabo de presenciar ou então a lembranças distantes. Quando minha voz estranha é acionada, é quase impossível de segurar, e se eu tento é doloroso, quase como se eu estrangulasse minha própria garganta.

Como aprendi a escrever essas frases?
A prancha de alfabeto é um método de comunicação não verbal. Com ela sou bastante capaz de me expressar de verdade. É uma sensação incrível! Não conseguir falar significa não compartilhar o que a gente sente e pensa. Desde que minha mãe me ajudou, guiando minha mão para escrever, descobri uma nova forma de interagir com as outras pessoas. Mamãe inventou a prancha para garantir um meio mais independente de comunicação. Com ela, posso formar minhas palavras apenas apontando para as letras, em vez de escrevê-las uma a uma. Isso também me ajuda a fixar as palavras, que desapareceriam assim que eu tentasse dizê-las. 

Por que você faz as mesmas perguntas o tempo todo?
É verdade, sempre pergunto as mesmas coisas. “Que dia é hoje?” ou “Amanhã tem aula?” Sobre assuntos corriqueiros como esses, pergunto de novo e de novo. Não faço isso porque não entendo – na verdade, mesmo quando estou perguntando, sei que entendo. A razão disso? É que esqueço muito rápido o que acabo de ouvir. Dentro da minha cabeça não existe grande diferença entre o que me disseram agora e o que ouvi muito tempo atrás. Então, apesar de compreender as coisas, meu modo de me lembrar delas é muito diferente do de qualquer outra pessoa. Imagino que a memória de alguém normal seja ordenada de forma contínua, como uma fila. A minha seria mais como uma piscina de bolinhas. Sempre tento “pegar” essas bolinhas – fazendo perguntas – para chegar até a lembrança que elas representam. Existe também outra razão para esse questionamento repetitivo: ele permite que a gente brinque com as palavras. Não somos bons em conversar. A grande exceção são aquelas palavras e frases que nos são familiares. Repeti-las é muito divertido. É como um jogo de bola. Ao contrário das palavras que nos mandam dizer, repetir perguntas que já conhecemos vira um prazer.

Por que você faz coisas que não deve mesmo que já tenha sido advertido? 
“Quantas vezes eu tenho que dizer isso?!” Nós, autistas, ouvimos isso o tempo todo. Sou constantemente repreendido por fazer as mesmas coisas de sempre. Não é maldade ou pirraça. Quando somos advertidos, nos sentimos mal por termos feito algo que já nos haviam avisado que era errado. Só que, quando aparece a oportunidade, já nos esquecemos do que aconteceu na última vez e somos levados a fazer tudo de novo.  Sabemos que estamos deixando vocês chateados, mas é como se não tivéssemos escolha. Mas, por favor, façam o que fizerem, não desistam de nós. Precisamos de sua ajuda.

 
O Que Me Faz Pular, de Naoki Higashida, Editora Instrínseca, R$ 24,90 www.intrinseca.com.br






17/05/2016 - 10:43

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