Superação: "Com 7 anos ela me ensina a ler e escrever!"

Celanira só aprendeu as palavras com as aulas de Aline, uma garotinha esperta e generosa de quem ela é babá!

Texto: Caroline Cabral

Ceralina e Aline | <i>Crédito: Arquivo pessoal
Ceralina e Aline | Crédito: Arquivo pessoal
Minha infância não foi das mais fáceis. Meus pais pegaram pesado na lavoura a vida inteira e, mesmo assim, não tinham condições de alimentar os nove filhos. Por isso, comecei a trabalhar aos 8 anos para ajudar a família. Quando não precisava passar o dia nas plantações com eles, conseguia ir pra escola. Eu adorava: tinha várias crianças pra brincar e um lanche bem gostoso no intervalo. Mas eu perdia tanta aula que os professores me passavam de ano por pena. Cheguei na 3ª série sem saber ler e escrever. Então, abandonei os estudos e passei a correr atrás de emprego para ter o que comer. 

Trabalhei como diarista em várias casas ao longo dos anos. Por volta do ano 2000, consegui uma vaga de ajudante geral em uma empresa de móveis. Até que, em 2007, uma vizinha, a Tomea, me perguntou se eu toparia cuidar do seu bebê caso ela engravidasse. Como já tinha criado quatro filhos e adoro crianças, aceitei. Ela me contratou antes mesmo de ficar grávida da Aline. A Tomea nem imaginava que sua filha ia mudar não apenas a vida dela, mas a minha também!

Tudo começou quando encontrei um caderno usado no lixo...

Quando a Aline nasceu, eu já trabalhava na casa dela, ajudando a Tomea nos serviços do lar. Passei a ser babá daquele lindo bebê enquanto a mãe e o pai trabalhavam fora. Nossa conexão sempre foi muito forte. Vi essa menina começar a engatinhar, caminhar, falar e, quando me dei conta, já estava penteando seus cabelos loirinhos antes de fazer sua mochila para o colégio. A Aline cresceu tão rápido... Quando percebi, já tinha trocado a chupeta pelos livros! 

Por isso, pensei nela de cara quando encontrei um caderno lindo no lixo aqui perto de casa, há pouco mais de um ano. Estava conservado, era bem grosso, tinha a capa rosa e só algumas páginas escritas – o resto estava em branco. Decidi pegar para a Aline, que vivia empolgada com as aulas e seus desenhos.

 Levei pra ela no dia seguinte e falei: “É pra você escrever bastante nele, tá?” Ela sorriu, me abraçou e agradeceu, doce como sempre. Depois, olhou para o caderno e perguntou: “Tata, você não quer aprender a escrever?” Fiquei tão orgulhosa... Uma menina tão pequenina teve essa iniciativa nobre de me ensinar. A felicidade não cabia em mim. Topei na hora! 

Começamos já no dia seguinte. Eu mal sabia segurar um lápis, mas a Aline teve paciência para me ensinar tudo tim-tim por tim-tim. Logo na primeira aula, comecei a rabiscar formas. Com o tempo, aprendi o desenho de cada letra, do A ao Z, pois nem isso eu sabia, e comecei a fazer os números. 

Desde então, chego à casa dela por volta das 7 h e, assim que a pequena me vê, já dispara: “Tata, vamos pra sala de aula!” O quarto de brinquedos ganhou uma lousa e uma cadeira. Fico sentadinha, atenta a tudo que a professora Aline explica. As aulas duram meia hora: é tempo suficiente pra ela me ensinar o que aprende no colégio. E eu tenho que fazer todos os exercícios bem direitinho pra ela não chamar minha atenção. Eita profi brava! 

Quando eu já sabia todas as letras, a Aline me mostrou como juntar uma na outra para formar as palavras. Todo dia aprendo uma palavrinha nova e fico muito contente de entender o que ela escreve na lousa. E não é só isso: essa menina especial ainda me ensina a fazer continhas de somar! 

Graças à Aline,  hoje consigo ler várias frases por aí, partes dos seus livrinhos e até passagens da Bíblia. Estou mais do que realizada. Hoje me sinto mais incluída no mundo. É um orgulho pra mim aprender coisas novas com a minha idade. Agora minha letra está bem bonita, já assino meu nome completo e fico olhando pra ele toda orgulhosa: “CELANIRA”. 

Até fiz questão de fazer uma identidade nova, desta vez com a minha assinatura, já que a antiga só tinha a digital. Aprendi com a Aline que tudo é questão de tempo e treino. Por isso, mais pra frente sei que vou conseguir escrever uma carta bem bonita de agradecimento pra ela. 

Também vou deixar registrado, com a minha letrinha, as coisas que desejo para a minha professorinha: uma vida cheia de paz, saúde, amor e felicidade. Ah, e claro, que o grande coração dela continue a crescer! - Celanira Da Silva, 54 anos, babá, São Miguel do Oeste, SC.

“Vou ensinar pra ela tudo que aprender na escola”


A Tata me ensina muitas coisas. Já aprendi a fazer suco e salada e agora posso ajudar na hora do almoço. Às vezes, eu perguntava coisas sobre meu dever de casa e ela respondia que não podia me ajudar porque não sabia ler. 

Quando ganhei dela aquele caderno rosa bonito, pensei que seria legal ensinar o que eu aprendo na escola. Minha babá sempre teve muito interesse, todo dia fazia várias perguntas. Eu gosto mais de escrever do que de fazer continhas, mas consigo ensinar um pouco de matemática pra Tata. Aliás, vou ensinar tudo que eu aprender pra ela, é uma pessoa que amo muito. Não sei o que quero ser quando crescer, talvez professora ou veterinária, já que amo os animais. Por enquanto, ver a Tata aprendendo é uma das melhores partes do meu dia! - Aline Vincenzi, 7 anos, estudante, a professorinha da Celanira.

04/05/2016 - 10:29

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