Solidariedade: "Contrato detentas e elas trabalham na prisão!"

Fátima montou uma oficina de costura dentro de um presídio e ajuda essas mulheres a recuperar a dignidade. Paga salário e tudo!

Reportagem: Christiane Oliveira

FÁTIMA BRILHANTE | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
FÁTIMA BRILHANTE | Crédito: Arquivo Pessoal
Todos os dias, no caminho para o trabalho, eu passava em frente a um presídio e ficava pensando: “O que será que essas pessoas fazem aí dentro para passar o tempo?”. Sou uma pessoa muito ativa e jamais conseguiria ficar o dia inteiro trancafiada num lugar sem nada para fazer. Tenho duas marcas de roupas e meu dia a dia é muito corrido. Fico pra lá e pra cá dentro das oficinas de costura, não paro um minuto. Por isso, ficava tão agoniada ao imaginar aquelas pessoas encarceradas lá dentro. Eu queria ajudá-las. Mas como?? 

Acho que todos merecem uma segunda chance 

Ganhei uma máquina de costura do meu marido em 1989. Montei um ateliê singelo em casa e fazia peças por encomenda. Dois anos depois, comecei a produzir roupas em série para algumas fábricas até juntar dinheiro suficiente para abrir minha própria empresa e criar minha marca. 

Me tornei uma empresária de sucesso e queria usar parte do meu dinheiro para ajudar quem precisa. Só que meu objetivo não era sair por aí distribuindo comida, roupa ou ajuda financeira. Minha vontade era criar um projeto que restabelecesse a dignidade e a autoestima das pessoas. Eu já tinha quem ajudar: aquelas presidiárias que ficavam muito tempo no ócio. 

O problema é que eu não sabia como. Até que um dia, em 2006, conversando sobre o assunto com meu cunhado, o Vandré, que tem uma ONG, surgiu uma ideia incrível. “Fátima, por que não abre uma unidade de costura da sua fábrica dentro daquele presídio que você tanto fala?”. Olhei bem para ele e respondi: “Você é um gênio!”. 

Quando contei sobre meu projeto, muita gente achou estranho. Não entendiam por que ajudar pessoas que cometeram crimes. Mas penso diferente: todos merecem uma segunda chance. Ainda mais porque, quando saem de lá, ficam à margem da sociedade, sem conseguir um emprego para viver com decência. 

Meu marido, que sempre me incentivou em tudo, me ajudou com toda a burocracia. Fomos até o Sejus (Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará) e dei entrada no pedido. Em apenas três meses, consegui a autorização para montar uma oficina de costura dentro do presídio feminino. 

A cada 3 dias de trabalho, um dia a menos de pena 

O espaço que nos cederam foi uma antiga lavanderia, que reformei, pintei e equipei para que elas pudessem começar a trabalhar. A Selma, que já trabalhava comigo há anos, foi a instrutora e supervisora lá dentro. As detentas ficaram muito animadas quando souberam da novidade, pois teriam uma ocupação e o tempo passaria mais rápido lá dentro. Eu não interferi na escolha de nenhuma delas. Quem fez isso foi a direção do presídio – o requisito era ter bom “Não queria dar comida e roupas. Queria que elas se sentisem orgulhosas” comportamento. Começamos com dez mulheres. Nenhuma tinha experiência no ramo, mas a Selma fez o treinamento durante três meses e elas já botaram a mão na massa. 

Hoje já temos um grupo de 22 mulheres. Logo depois do café da manhã, elas vestem um uniforme e vão para o batente. Manuseiam peças básicas, como camisetas, que não exigem muito talento para usar a máquina, já que a maioria não sabe quase nada de costura. Sem contar que elas não podem trabalhar com materiais grandes e pontiagudos, que podem servir como armas. Para arrematar as linhas que ficam nas peças, elas usam um alicate pequeno. 

Nenhuma das minhas “funcionárias” do presídio tem vínculo trabalhista com minha empresa, mas recebem um salário de R$ 660 por mês – valor determinado pela Lei de Execução Penal – e a cada três dias trabalhados têm um dia de pena reduzido. O dinheiro não vai diretamente para a mão delas. Há duas opções: pedir para depositar na conta de um familiar ou deixar guardado no presídio e pegar quando ganhar a liberdade. Além do dinheiro, elas recebem uma carta atestando que passaram pelo projeto e que estão aptas a exercer o ofício de costureira. 

Quando visito o presídio, elas me recebem com muito respeito e me agradecem. Dizem que vestir um uniforme e trabalhar num ambiente diferente da cela faz com que se sintam livres, que nem parece que estão dentro da cadeia. Algumas dizem até que vão procurar um emprego na área quando saírem de lá. Uma delas guardou todo o dinheiro e quer abrir a própria oficina. Outras que já cumpriram pena também conseguiram emprego na área. Minha vontade é de contratar muitas delas, mas a maioria mora em outros estados e, quando conseguem a liberdade, voltam para casa. 

Também ajudo a diminuir a violência no país 

Esse projeto fez tanto sucesso que, em 2014, o secretário de Justiça e Cidadania do Ceará, Hélio Leitão, me propôs criar algo semelhante dentro do presídio masculino também. Topei na hora! Os homens fazem peças de macramê – técnica de tecer fios sem utilizar máquinas, arte local que está entrando em extinção. São 7 detentos, incluindo o instrutor, trabalhando e recebendo salário! 

É gratificante saber que estou ajudando pessoas marginalizadas pela sociedade. De certa forma, contribuo para diminuir a violência no país também, pois os ex-presidiários conseguem se recolocar no mercado de trabalho e não precisam recorrer ao crime para sobreviver! - FÁTIMA BRILHANTE, 48 anos, empresária, Fortaleza, CE


27/04/2016 - 09:05

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