Por grana fácil, me prostitui, trafiquei e vivi o inferno na cadeia

Precisei ficar cinco anos presa por tráfico para entender que nada vem fácil. Depois da cadeia, passei a dar valor ao que realmente importa e me tornei uma pessoa melhor

Reportagem: Luiza Furquim (colaboração: Gabriella Gouveia)

Comprava tudo o que as crianças queriam e não passava aperto. Parecia um sonho, mas era um castelo de cartas prestes a ruir. | <i>Crédito: Arquivo pessoal/redação Sou Mais Eu!
Comprava tudo o que as crianças queriam e não passava aperto. Parecia um sonho, mas era um castelo de cartas prestes a ruir. | Crédito: Arquivo pessoal/redação Sou Mais Eu!

Bateram na porta do quarto do hotel. Eu ia saindo do banho, enrolada numa toalha. “Polícia!” Gelei. Tinha acabado de entregar 2 kg de haxixe para um traficante em Belo Horizonte, Minas Gerais. Ele já estava algemado no camburão. “A senhora vem de boa ou prefere algema?”, perguntou um policial. “Vou de boa.” Foi minha primeira prisão. Estávamos em 2003 e passei dois anos e quatro meses na cadeia por causa de R$ 2 mil. Eu recebia esses R$ 2 mil para ser mula (transportar drogas de um lugar para o outro). Saía de Foz do Iguaçu, no Paraná, e ia para Minas Gerais ou São Paulo. Cada quilo de maconha rendia R$ 100. Drogas mais pesadas rendiam R$ 1.000 por quilo. Era só pôr na mala e pedir carona para um dos mil caminhoneiros que passam por Foz. Fácil. Perigosamente fácil.

Comecei por causa do filho doente

Entrei nesse esquema em 1999, quando meu filho do meio, então com 11 anos, adoeceu e precisou de medicação cara. Com o pulmão enegrecido por uma bronquite, ele teria que passar três dias internado tomando remédios que custavam, ao todo, R$ 1.800. Eu não tinha um tostão! Minha irmã passou um cheque sem fundos. Precisava conseguir a grana em três dias e recorri a um antigo conhecido. Minha vida tinha descambado bem antes disso. Descobri uma traição do meu ex-marido quando nossos filhos eram pequenos, em 1993. Camila estava com 7 anos, Alex com 5 e Rafa, 3. Nessa época, eu só cuidava das crianças e não tinha profissão. Aí, virei cozinheira num bar de beira de estrada. Achei que ia só fritar salgado para caminhoneiro, mas estava enganada. Aquele bar era um dos muitos conhecidos em Foz do Iguaçu como “barracas”. Era parada de caminhoneiro, sim, mas para comer outra coisa. Por um ano, trabalhei ali só na cozinha. A dona, que é minha amiga e vizinha até hoje, dizia que eu podia beber com cliente se quisesse. Mas eu respondia que não era garota de programa. Trabalhava o mês todo para ganhar salário mínimo e as meninas tiravam até R$ 300 numa noite. Deixei a barraca por um namorado paraguaio. Fiquei três anos fora, com ele me sustentando. Aí, ele foi transferido para a Argentina e nos separamos. Voltei para a barraca. Mas dessa vez queria fazer dinheiro de verdade. Já que estava desiludida do amor, por que não? Fui morar na barraca e me joguei na farra sem pudor. Acordava ao meio-dia, me banhava, comia e ficava no salão esperando os clientes chegarem. Tinha brasileiro, chileno, argentino e paraguaio. Cobrava uma média de R$ 50 por meia hora e, acredite, para mim isso era dinheiro. Só não atendíamos argentinos (rixa mesmo) e cobrávamos mais caro de brasileiros, que são brutos.

Ganhei R$ 2 mil numa tacada só

Não escondi nada da minha família. Meu pai deixou de falar comigo e minha mãe fazia sermões diários. Mesmo assim, cuidaram dos meus filhos enquanto eu vivia na barraca. Por mês, tirava uns R$ 2 mil – bem melhor que os R$ 800 como cozinheira – e dava R$ 1.200 para mamãe. Vira e mexe tinha um homem no salão que perguntava se queríamos “dinheiro fácil”. A gente sabia que era droga e recusava. Mas minha colega tinha o telefone dele e, quando precisei comprar o remédio do Alex, fui atrás. Ele fez uma proposta irrecusável: R$ 2 mil numa tacada só para levar 20 kg de maconha para São Paulo. Bastava passar conversa num caminhoneiro e pedir carona. Com meu filho no hospital, fiquei na barraca até achar um homem rumo a Sampa. “Estou fugindo de Foz. Me dá carona? Minha família está toda em São Paulo!”. Ele topou, mas precisei compensá-lo com uma transa no caminho. No dia seguinte, a droga estava entregue e eu tinha R$ 2 mil na mão. Voltei, paguei minha irmã e ainda sobrou dinheiro. Podia ter parado por aí, mas não quis. Fiz outras viagens para ter grana guardada caso o Alex voltasse a adoecer. Ele ficou bom e continuei viajando com droga. Para minha família, eu transportava eletrônicos até São Paulo. Fiz isso por um ano e nunca tive tanto dinheiro na vida. Eram R$ 8 mil, R$ 10 mil por mês. Comprava tudo o que as crianças queriam e não passava aperto. Parecia um sonho, mas era um castelo de cartas prestes a ruir. Sempre convencia algum caminhoneiro a me levar – muitas vezes sem sexo envolvido. Em uma viagem, levei 120 kg de maconha em quatro caixas. Ganhei R$ 12 mil! Depois de um tempo, os motoristas sacaram o esquema e passaram a negar caronas. Comecei a ir de ônibus e uma denúncia anônima levou a polícia até mim naquele dia no hotel.

Fiquei presa numa penitenciária-modelo em Minas Gerais com apenas 400 presas. Era limpa, tinha unidade de saúde, psicóloga. Eu trabalhava na oficina de costura o dia todo para aliviar a saudade da família e poder mandar um dinheirinho. Minha condenação tinha sido de seis anos, mas, com a apelação e bom comportamento, saí em dois anos e quatro meses. Voltei para Foz do Iguaçu querendo recuperar o tempo perdido e, em um mês, já estava viajando de novo. Acho que a primeira prisão não me impactou o suficiente. Já a segunda...

Três chuveiros para 1.280 presas

Em novembro de 2005, estava levando haxixe para São Paulo. Costumava pôr a droga no compartimento de papel higiênico que ficava trancado no banheiro do busão. Assim, não teria problemas se rolasse blitz na estrada. Mas não tranquei direito, a caixa abriu e deixou o haxixe à mostra! Alguém viu e quando desci no terminal a polícia me esperava. Passeis os dois anos e dois meses seguintes entre o Dacar 4 e a penitenciária feminina do bairro de Santana, em São Paulo. Olha, quem fica preso ali e reincide não tem amor à vida. É o inferno!

No Dacar, havia quatro galerias com 16 celas cada e um banheiro coletivo com três chuveiros de água fria. Éramos em 20 ou 30 por cela e cada cela tinha quatro beliches. Dormia na cama quem tinha mais tempo de casa. O resto ficava no chão. Mal cheguei e uma detenta foi “julgada” por ter caguetado outras à polícia. A sentença foi: quebra tudo do pescoço para baixo. Levaram a mulher para o banheirão e bateram tanto que ela saiu carregada. Enquanto isso rolava um pagodão no pátio para os guardas não ouvirem os gritos dela. Passaram com ela por todas as celas para servir de exemplo e jogaram na guarita, dizendo que tinha caído da escada. Também passei por uma rebelião grande. Me lembro das presas afiando cabo de vassoura na parede para fazer estiletes improvisados...

No dia do motim, fiquei escondida embaixo do beliche da minha cela. Bateram muito nos guardas até a tropa de choque entrar e arrebentar todo mundo. Uma vez, na penitenciária, a mulher de um cara e a amante dele foram presas no mesmo lugar, veja só que azar! A mulher chamou as amigas para se vingar da amante. Bateram, rasgaram o rosto e até enfiaram pimenta na vagina dela. Acho que morreu. Também vi presa ser queimada com panelas de água quente e ser toda furada com alicate de unha por ter cara de sonsa. E ainda tinha que aguentar as cantadas das sapatonas...Tudo sem direito a visitas, podendo falar com minha família apenas por carta ou telefone (20 minutos por mês).

Funcionou para mim, mas tem gente que se afunda ainda mais

Na cadeia, fiquei hipertensa e diabética. Mas sobrevivi e saí em 20 de abril de 2008. Voltei para casa e fui procurada de novo pelo traficante. Dessa vez, porém, não quis nem saber. A liberdade e o contato com a família não têm preço. Tive muita ajuda da minha irmã depois que fiquei livre. Trabalho na confecção dela como costureira. Também tomei um baita sermão do meu filho mais novo, o Rafa: “A senhora não pensou na gente. Dizia que pensava, mas não era verdade. A senhora deixou a gente jogado. Toda vez que a vó olhava pra gente, ela falava: ‘Vocês estão aqui porque sua mãe não presta. Sua mãe está presa’”. Tudo verdade! Na real, tive muito tempo para pensar na cadeia e ver como eu estava desperdiçando minha vida. Óbvio que não estou defendendo que é certo as cadeias serem assim, desumanas... Funcionou para mim, mas tem gente que lá dentro se afunda ainda mais no crime. Pelas cartas que recebia da família, via o quanto eles sofriam por causa do que fiz. Quando você está presa, a família é sempre quem sofre mais. Entendi que, por ter tido filhos muito nova, achei que não tinha aproveitado a vida e o tráfico era uma chance de ter aventuras. Que idiota eu fui! Achava que dinheiro era que nem capim. Hoje, que ele é fruto do meu suor, sei dar valor. Moro com o Rafa (os outros filhos já estão casados, morando com as famílias em outros estados), que se tornou um grande amigo. Tenho orgulho dos meus meninos. Tinham tudo para ser marginais, mas viraram gente boa.  Uma sorte! 


Rossana Inácio Barbosa, 46 anos, costureira, Foz do Iguaçu, PR

12/01/2017 - 16:50

Conecte-se

Revista Sou mais Eu