"Enfrentei três transplantes e renasci depois de cada um deles"

Claudia Eberle é portadora de uma doença sem cura que compromete o funcionamento dos rins. Sobreviveu a todas as sentenças de morte que recebeu e hoje incentiva a doação de órgãos

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Claudia Eberle | <i>Crédito: Divulgação
Claudia Eberle | Crédito: Divulgação
A publicitária Claudia Eberle esbanja sorrisos por onde passa. Quem a vê assim não imagina as adversidades e as batalhas que já enfrentou. Portadora de uma doença irreversível que compromete o funcionamento dos rins, ela passou por tratamentos intensos e se submeteu a três transplantes. Mesmo com uma enfermidade que podia ser sua sentença de morte, nunca desistiu de lutar por seus sonhos. Hoje Claudia é conhecida por incentivar a doação de órgãos e motivar as pessoas a enxergarem a vida por uma perspectiva positiva. 

Pai foi o primeiro doador 

“Você corre risco de vida” foi a frase que marcou para sempre o destino da adolescente de 14 anos ao receber a notícia de ser portadora de Berger. “Criei certa resistência à situação. Não queria ser vítima nem refém da doença”, relembra Claudia em seu livro Três Vidas: Uma História de Superação e Pílulas de Positividade. Depois de ser submetida ao tratamento de hemodiálise com urgência, precisou recorrer ao transplante de rim. O primeiro “anjo” e doador foi seu próprio pai. 

Claudia encarou o transplante como uma forma de renascimento, o que a motivou a alcançar cada vez mais suas metas. Dez anos depois, ela conseguiu se formar em propaganda e marketing e, aos 25 anos, já possuía uma carreira respeitada como executiva. No entanto, logo sua vida ganharia novos rumos graças ao comprometimento do rim transplantado. Ali, começava sua segunda batalha pela vida. 

O sonho ousado de ser mãe 

Encontrar outro doador estava se tornando impossível, até que uma tia se mostrou compatível. Com o segundo transplante, Claudia retomou as rédeas da sua vida, se casando em 2003. Ao lado do marido, ela ousou sonhar com o que, para os médicos, era muito difícil: ser mãe. Sua primeira gestação durou só cinco meses, interrompida por um aborto. Após o luto, arriscou uma nova tentativa. Aos 31 anos, quando engravidou de Diego, sabia que a gravidez exigiria muitos cuidados. Seu filho nasceu prematuro de 7 meses, ficando quase um mês na incubadora. 

Pouco tempo depois, Claudia descobriu que precisaria de um terceiro transplante. Sentiu seu mundo desabar mais uma vez e, agora como mãe, tinha que reunir ainda mais forças para encontrar o terceiro doador, que surgiu na última hora. Ela recebeu sua terceira chance de viver. Confira alguns trechos do livro a seguir: 

"Foi num dia raro. E, por mais que céticos dissessem que seria apenas mais um procedimento a ser seguido, eu sabia que estávamos prestes a contagiar milhares de pessoas com a história que se desenrolaria a seguir. Talvez fosse pressentimento, intuição ou coisa do tipo o que vinha e voltava quando eu dava voz às palavras que ecoavam dentro de mim. Eu aprendera a ser protagonista da minha própria história. Assumir as responsabilidades e acreditar que aquilo daria certo parecia a fórmula mágica. (...) Tinha recebido uma formação cristã, mas para mim o que valia era acreditar, na hora H, quando as coisas aconteciam de supetão na vida, sem dar espaço para o pensamento negativo ganhar força."

"Eu me recusava a acreditar que ia morrer. A sala de cirurgia poderia ser o último lugar que eu veria na minha vida, mas escolhi acreditar que sairia dali vitoriosa. Havia uma certa probabilidade que meu coração não podia ignorar: o transplante poderia dar errado. Tudo poderia acontecer a partir de então. Só que eu não podia acreditar naquilo. Não eu. E me ver na maca à espera do transplante do rim de meu pai era, no mínimo, um exercício de paciência, gratidão e resiliência, mesmo que naquela idade eu mal soubesse o que significavam tais palavras. Renascer em vida era necessário. Afinal, eu precisava do órgão e tinha sido agraciada com a generosidade do doador."

"Uma série de acontecimentos me favoreceram e, se todos estavam tão empenhados para que aquilo desse certo, eu não podia duvidar de nada. Viver era uma urgência preciosa e única."

"Com a porta entreaberta, eu notava o vaivém pelos corredores. Médicos, paramédicos, enfermeiros. (...) E, em uma das ocasiões em que a porta se abriu, pude observar de longe os olhos aflitos de minha mãe ao lado de fora do centro cirúrgico. Desta vez, era ela quem esperava que meu pai me desse a vida, e eu fiquei refletindo sobre como era bonito vivenciar isso."

"A equipe médica já se preparava para dar início a todos os delicados procedimentos, quando alguém segurou minha mão. Era uma enfermeira com cara de anjo. Tinha a pele macia e um cheiro suave. Seria uma visão ou apenas alucinação? Não. Ela estava de fato ali, e não somente ela. Diante de mim, enxergava várias outras pessoas, além de muitos raios de luz. Havia uma paz infinita neste ambiente que se assemelhava a um jardim, onde pessoas vestidas de branco sorriam e se comunicavam entre si, orientando os que chegavam ao local. Eu me sentia perdida nesse jardim lindo e muito florido, que tinha um céu azul do qual jamais vou esquecer, e cada detalhe se registrava permanentemente em minha memória."

"De repente, envolveram-nos algumas faixas luminosas muito fortes e um silêncio do tipo que não se sabe se é de verdade ou se estamos tão desconectados da realidade que só ouvimos o vagar de nossos pensamentos. Naquele instante, senti minha alma se irradiar por essa preciosa claridade, brilho transmitindo-me muita paz e amor incondicional."

"A alegria, o amor e a vivacidade que me inundavam também me fortaleciam para que continuasse lutando pela vida, sem nunca desistir dos meus sonhos. Acredito que algumas pessoas chamam essa luz de Deus, outros de Buda, outros de Universo e por assim em diante. Não importa qual religião você siga ou a qual doutrina pertença, o importante é acreditar que existe nesse mundo uma força superior que nos governa e nos protege."

29/03/2016 - 10:26

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