"De doméstica a empresária graças a um curso de costura"

Marli nasceu em uma família simples e desde os 8 anos começou a trabalhar para ajudar seus pais

Texto: Caroline Cabral

Marli com o esposo Gilmar | <i>Crédito: Arquivo pessoal
Marli com o esposo Gilmar | Crédito: Arquivo pessoal
Nasci e cresci em Paranaíba, na roça do Mato Grosso do Sul, em uma casinha de pau a pique bem humilde. Mas nunca passei fome. Meu pai plantava frutas e legumes para nosso consumo. Mesmo com a fartura da geladeira, eu e minha irmãzinha tivemos que começar a trabalhar bem cedo. 

Eu tinha 8 anos e ela 7 quando atuei como doméstica pela primeira vez, na casa da dona Tunica, uma costureira vizinha da família. Nessa época, eu saía da escola, passava em casa para almoçar e partia para o batente. Minhas obrigações eram varrer a casa e o quintal e lavar a louça. Quando o serviço estava pronto, eu podia ficar vendo a dona Tunica manusear sua máquina de costura – minha parte preferida do dia! Ela fazia lindas camisas, calças e vestidos. Foi aí que nasceu minha paixão por costurar. Transformar pedaços de panos em roupas bonitas me deixava encantada! 

Trabalhei lá por um ano. Todo dia, terminava o serviço bem rapidinho para poder espiar a costureira em ação. Às vezes, ela me ensinava a mexer com uns retalhos. Aprendi a fazer roupinhas para minhas bonecas com linha e agulha mesmo, graças aos ensinamentos da minha patroa. 

Trabalhar em casas de família era bem comum entre as crianças da minha cidade. A rotatividade era alta: depois da dona Tunica, passei por tantas famílias que perdi a conta. Mas eu queria sair daquela cidade e ver o mundo. Por isso, com 14 anos, topei o convite de uma tia que morava no interior de São Paulo e precisava de ajuda em casa. 

Larguei o colégio na 6ª série do ensino fundamental e fui ser empregada dela e babá da sua filhinha. A cidade era bem maior que a minha, foi uma mudança gigante. Eu tinha medo até de andar na rua. Foi lá que descobri que meu grande sonho mesmo era ser vendedora de loja. Eu passava pelas vitrines da rua central e via todas as meninas arrumadas, bem maquiadas, simpáticas e com um salário maior que o meu... Queria ser como elas!

Casei, parei de trabalhar e mudei de cidade 
Eu já estava com 17 anos quandominha tia deu uma festa de aniversário para o marido e convidou os funcionários da loja em que ele trabalhava. Foi assim que conheci o Gilmar e logo me apaixonei! Namoramos por cinco meses e fomos morar juntos em outra cidade de São Paulo, onde ele já tinha trabalhado. Meu namorido ficou só um dia desempregado: na manhã seguinte já estava vendendo móveis em uma loja.

Morávamos em uma casinha de fundo com mais três famílias. O dinheiro do trabalho do Gilmar só pagava o aluguel. A comida quem mandava era o meu pai, direto da roça!Como a grana era curta, meu marido teve a ideia de vender cachorro- quente em uma avenida bem movimentada durante a noite. Eu preparava os ingredientes em casa. Com essa ajuda na renda de casa, conseguimos crescer juntos! 

Eu não queria mais trabalhar como doméstica, muito menos o Gilmar desejava isso pra mim. Aí, cinco anos depois, enquanto folheava o jornal, vi um classificado de aulas de corte e costura. Eu estava havia anos sem trabalhar e senti que seria uma oportunidade de voltar ao mercado e finalmente contribuir para a renda da família. 

O anúncio mandava levar lycra e elástico para o primeiro encontro. Passei duas horas em aula e voltei com uma calcinha branca que eu mesma fiz! Ela está g u a r d a d a até hoje, foi minha primeira peça. Cheguei em casa e ninguém acreditava que eu tinha feito. Na época, paguei R$ 120 por mês e fiquei seis meses em curso para aprender tudo que podia. Esse foi o começo da Margil Lingerie, minha marca de peças íntimas.

Hoje tenho carro, casa, pago minhas contas... 
Eu estava determinada a ganhar meu dinheiro, mas muitas vezes quebrei a cara perdendo material que tinha custado caro. Cortava errado, fazia uma peça feia... Mas não desistia! No início, vendi com a ajuda de sacoleiras. Confeccionava as lingeries e passava para elas, que ficavam com uma comissão sobre cada venda. Cheguei a ter 50 revendedoras! 

Em 2006, consegui abrir minha primeira lojinha, em uma sala bem pequena. Era só eu e uma máquina de costura atrás de uma porta de vidro que dava direto pra rua. As pessoas entravam e pediam as peças de acordo com os tecidos que eu tinha. Foram cinco anos nesse esquema – ainda contratei uma costureira e uma ajudante. 

Com o aumento nas vendas, pude dar um novo passo e alugar uma loja maior e mais profissional. Estou lá desde 2011, com a mesma equipe e muito mais clientes! Vendo minhas próprias peças e também faço modelitos lindos sob encomenda! É minha maior conquista! 

Amo o que faço e sei que tenho muita sorte por trabalhar com algo que me realiza. Além disso, ganho muito mais do que quando era doméstica: tenho carro, casa, pago todas as minhas contas... Superei o meu sonho de ser vendedora e hoje tenho minha própria loja! - MARLI BORGES, 43 anos, empresária, São José do Rio Preto, SP

02/06/2016 - 10:48

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