Da cadeira de rodas para o pódio: "Cheguei a ficar sem andar, mas a corrida me salvou"

Uma doença rara dava dores paralisantes no corpo de Myla. Mas ela preferiu enfrentá-las e correr a ter problemas mais sérios

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Mila Vitacchi | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Mila Vitacchi | Crédito: Arquivo Pessoal
Eu tinha 36 anos quando fui diagnosticada com uma doença que parou minha vida. Na época, estava sofrendo de tristeza profunda por conta da morte de uma amiga querida da qual fui avisada apenas um mês depois, e já dava muito trabalho à minha família. Com a depressão, vieram dores insuportáveis nas costas. Elas eram tão intensas que parei de andar e passei a depender de uma cadeira de rodas para me locomover. Preocupada, não fazia ideia do que vinha pela frente. Sofri muito e quase perdi as esperanças, mas, no final, minha vida sofreu uma reviravolta que fez de mim atleta das ruas. Não só voltei a andar e já cheguei a correr mais de 40 km! 

As dores eram tão fortes que não conseguia andar 

Quando as dores apareceram, fui a sete médicos diferentes em busca de um diagnóstico preciso. Ao final, descobri que tinha uma doença rara, que apenas mais quatro brasileiros também tinham. Eram 85 de nós no mundo inteiro! O nome dela é Cisto de Tarlov. Trata-se de um cisto localizado no final da coluna que pode comprimir os nervos da região e causa dores nas costas e, no meu caso, nas pernas e até por dentro do corpo, como se meus órgãos estivessem se contraindo. Eu também sentia as pernas formigarem e, apesar de os médicos dizerem que isso não me impedia de andar, cada passo era muito sofrido. 

Minha vida parou. Interrompi o curso técnico de informática e meu trabalho como cake designer. Para driblar as dificuldades financeiras e pagar os remédios caros, meu marido vendeu os dois carros que a gente tinha e uma casa. Mesmo assim, ficou devendo e meu filho teve que trabalhar para ajudar nas despesas. Nos dias em que a dor era mais intensa, chegava a ser internada no hospital para tomar morfina, o remédio mais forte que existe pra isso. Tomava outras medicações potentes e uma delas me dava até alucinações. Via gente morta, a casa pegando fogo... Um horror!

Antes

Fui obrigada a caminhar para baixar a pressão 

Como se não bastasse, as medicações desregularam minha pressão, que ficou alta demais, me deixando vulnerável a problemas cardíacos sérios. Fui a um neurocirurgião e a um cardiologista e ambos disseram que eu precisava fazer caminhada. Mas era quase absurdo pensar em caminhar quando a dor me deixava numa cadeira... Como não havia a possibilidade de operar meu cisto por risco de complicações, o neuro insistiu que eu fizesse fisioterapia para dar os primeiros passos. Foi assim que tudo começou. 

Já estava naquele pesadelo havia uns dez meses quando consegui suportar a dor a ponto de caminhar. A princípio, eram só 30 minutos. Mas eles pareciam uma eternidade. Não gostava, ficava cansada e passava mal, além de me doer toda. Queria acabar com aquilo o quanto antes! Impaciente, comecei a acelerar o passo. Sempre tentava ir um pouco mais rápido, até que comecei a correr! Era pouco nessa fase e o médico precisou me dar seu aval, mas já era uma mudança impressionante. Quem diria que correr seria prazeroso, a ponto de me fazer deixar a dor em segundo plano? 

Participei de 76 provas. Corro mais de 40 km! 

A partir daí, com ajuda da medicação e do bom Deus, as dores diminuíram e voltei a ter uma vida normal. Só que nunca mais fui a mesma. Fiquei viciada em corrida e descobri as provas. A primeira para a qual me inscrevi, em 2008, era de 10 km. Criei um grupo de corredores no Orkut no mesmo ano e um site, chamados Loucos por Corridas, para saber mais sobre esse esporte. Ao mesmo tempo, via que quanto mais medicação pessoas com o  cisto tomavam, pior ficavam. Decidi que meu principal remédio seria correr e comecei a criar metas: correr muitos quilômetros, subir em um pódio e participar de maratonas. 

Ao longo dos últimos sete anos, venci todas essas metas e muitas outras. Participei de 76 provas, a maior delas uma maratona de 42 km no Rio de Janeiro em 2013. Tenho um baú cheio de medalhas e 15 troféus em casa! São meus orgulhos. Voltei a trabalhar, tenho uma pizzaria e não tomo mais remédios para a dor. A corrida me devolveu a saúde, a alegria de viver e me ajudou a descobrir a paz de espírito! - MYLA VITACCHI, 46 anos, cake designer, Paulínia, SP

Depois
 

Correr resgata a autoestima

A história da Myla mostra que correr é muito mais que ginástica. Quando ela começou a correr, percebeu que não só as dores diminuíram, mas também a tristeza. Segundo o médico do esporte Luiz Augusto Riani, a atividade física realmente faz bem para o corpo e a mente por conta da serotonina, o hormônio do prazer e bem estar. “Quando uma pessoa começa a praticar atividade física, ela se relaciona com mais gente, ultrapassa limites e envia estímulos para o sistema nervoso central produzir a serotonina, aumentando o bem estar e a autoestima”, diz. E tem mais. O médico explica que as dores da Myla não eram apenas causadas pela doença. O tempo que ela passava sentada pode ter feito com que os músculos das pernas dela perdessem força, fi cando frágeis e suscetíveis à dor. “Quando ela passou a correr, começou a soltar os músculos e fez com que eles criassem resistência, o que fez com que a dor diminuísse”, explica Riani. 

02/06/2015 - 09:00

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