"Corrigi o lábio leporino das minhas filhas pelo SUS!"

O tratamento é gratuito e inclui até cirurgias plásticas

Reportagem: Christiane Oliveira

Lábio leporino | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Lábio leporino | Crédito: Arquivo Pessoal
Sempre desejei ser mãe e, graças a Deus, realizei esse sonho cedo. Aos 22 anos, eu já estava casada esperando minha primeira filha. Ficava imaginando como seria o rostinho do meu bebê ... Fiquei ainda mais feliz quando descobri que estava esperando uma menina. O nome já estava escolhido: Bianca. Fiz o pré-natal direitinho durante a gestação e o médico disse que minha filha estava saudável e perfeita. No dia do parto, tudo correu bem, mas, quando a enfermeira colocou a Bianca na minha frente e olhei para o rosto dela, fiquei desesperada. Minha garotinha estava com uma abertura enorme na parte superior do lábio e um buraco no céu da boca! Comecei a chorar. Meu Deus, qual era o problema da minha filha?! 

Ao mamar, o leite podia ir para o ouvido ou pulmão 

Logo o médico que fez meu parto no hospital particular do convênio me explicou que o nome da doença da Bianca era lábio leporino e que podia ser corrigida. Nunca entendi por que isso não apareceu nos exames. Mas o doutor disse para eu ficar calma. Que aquilo aconteceu por causa de uma má-formação durante a gestação e que não era raro. 

Ele também explicou que minha filha teria que passar por duas cirurgias : a primeira, após três meses, para corrigir os lábios, e a segunda para fechar o céu da boca. E que provavelmente eu não conseguiria amamentara Bianca, pois quem nasce com esse problema não consegue sugar. 

Antes de receber alta, me ensinaram a tirar o leite do meu seio e o jeito certo de dar mamadeira. Como a Bianca tinha uma abertura nocéu da boca, o leite podia ir para o ouvido ou o pulmão, podendo levar à morte. 

Quando minha menina completou 2 meses, já foi fazer a cirurgia no lábio. Fiquei muito aflita, mas deu tudo certo. Ufa! Antes dessa operação, eu tinha que andar com uma fralda no rostinho da Bianca, pois algumas pessoas olhavam assustadas ou perguntavam se eu tinha tentado abortar. Ficava doida com isso! Mas depois que o médico consertou o lábio, o preconceito diminuiu. 

Aí, após seis meses, ela fez a cirurgia de junção do céu da boca. Só que não deu certo, pois abriu de novo após alguns dias. O médico disse que isso era normal. A Bianca continuou se tratando nesse hospital, que nosso convênio cobria.

A Bianca passou por sete cirurgias até os 16 anos

Quando ela completou 2 anos, ainda com o céu da boca aberto porque os médicos não recomendaram outra cirurgia, conheci um pai que tinha um filho com lábio leporino. Ele comentou que achava estranho o médico não ter refeito a cirurgia do palato, pois isso poderia atrapalhar a fala dela. Peguei o endereço do lugar onde ele tratava seu filho. Era o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, mais conhecido como Centrinho, uma referência no tratamento de lábio leporino, na cidade de Bauru (SP). O tratamento era oferecido de graça pelo SUS. Decidi levar minha menina para uma avaliação. 

O atendimento que a Bianca recebeu lá foi totalmente diferente. Os médicos ficaram abismados de ela ainda estar com o céu da boca aberto. No primeiro mês, já fizeram a cirurgia para juntá-lo. Dessa vez deu certo. Minha filha também faria acompanhamento com psicóloga, nutricionista e dentista. Fui informada de que, além das cirurgias para correção, ela faria algumas plásticas, para não ficar com o rosto deformado. 

Quando a Bianca completou 12 anos e já tinha feito seis cirurgias, engravidei outra vez, no meu segundo casamento. Como meu marido teve lábio leporino na infância, não deu outra: a Yasmim nasceu com a má- -formação. Mas eu já sabia o que tinha que fazer e, desde bebê, ela faz o tratamento no Centrinho. 

A Bianca teve alta aos 16 anos e fez sete cirurgias. Como o procedimento era no lábio e no céu da boca, ela não podia mastigar. Mas valeu a pena: hoje minha filha está com 18 anos e ninguém diz que ela teve lábio leporino porque não tem nenhuma cicatriz ou deformidade no rosto. 

A Yasmim está com 7 anos e já fez cinco cirurgias. Ainda está em tratamento. Vou para Bauru a cada seis meses para consultas e avaliações. Toda vez que a Yasmim vai passar por um procedimento, a Bianca dá várias dicas e a maior força. 

No SUS, minhas filhas são muito bem atendidas e o tratamento é de primeiro mundo. Elas sempre tiveram convênio, mas, nesse caso, o atendimento público foi muito melhor! - ANDRÉIA DE OLIVEIRA AMÂNCIO, 41 anos, recepcionista, São Paulo, SP


“As pessoas nem me reconhecem” 

“A correção do meu lábio foi uma transformação mesmo. As pessoas que me conhecem hoje não dizem que já tive esse problema. E as que ficaram muito tempo sem me ver nem me reconhecem. Os apelidinhos maldosos também pararam. Agora me acho linda!” - BIANCA DOA ANJOS, 18 anos, estudante, a filha da Andréia

Ultrassom identifica doença

O lábio leporino é consequência de uma má-formação do feto durante a gestação, que pode estar ligada a fatores genéticos ou a infecções como rubéola, toxoplasmose, herpes etc. Fumar, ingerir bebida alcoólica ou usar drogas durante a gestação também pode causar a doença. Segundo Hilton Coimbra Borgo, chefe técnico do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP (spp@usp.br), “O lábio leporino surge nas 12 primeiras semanas de gestação, que é o período de formação da face do bebê. Qualquer um desses motivos pode impedir que o lábio e o céu da boca terminem de se juntar, gerando as fissuras. É possível identificar essa anomalia através do ultrassom morfológico”. 

O especialista diz que as aberturas podem ser corrigidas com cirurgias em qualquer idade, “mas, no início da vida, evitam problemas na fala e até na audição”. Para saber sobre outros hospitais que oferecem tratamento para lábio leporino pelo SUS no seu estado, ligue para 136.





15/04/2016 - 09:00

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