"Casamos de novo após o Leo salvar minha vida"

Juliana recebeu o rim do marido através de um transplante

Texto: Caroline Cabral

Família unida pela campanha de doação | <i>Crédito: Arquivo pessoal
Família unida pela campanha de doação | Crédito: Arquivo pessoal
Conheci o amor da minha vida quando ainda era bem nova – tinha só 14 anos. Meu relacionamento com o Leo começou como um namorico inocente de escola e foi amadurecendo. Já estávamos juntos há quatro anos quando, sem planejar, fiquei grávida... A família do Leo nos apoiou, mas a minha, bem conservadora, teve dificuldade em aceitar. Aí aquele bebê lindo veio ao mundo e conquistou o coração de todos! 

Por alguns meses, nossa pequena família viveu na casa dos meus pais, onde o Lucca tinha um quartinho lindo. Nos casamos depois de um ano apenas no civil e alugamos um apartamento. Na verdade, éramos duas crianças cuidando de um bebê. Passamos por altos e baixos comuns de um casal, até com algumas separações, mas o mais importante é que nosso sentimento prevaleceu mesmo depois de tantos obstáculos. Só que o maior teste para o nosso amor ainda estava por vir...

Fiquei com medo de não encontrar um doador compatível
Vim de uma família acostumada com doenças renais. Minha mãe e minha irmã precisaram de transplantes e passaram por todo o processo da cirurgia. Em 2009, depois de um ano cheio de complicações e internações causadas por rins policísticos, tinha chegado a minha vez... Me submeti a uma série de exames e consultas e o doutor detectou que meus rins estavam muito grandes por causa dos cistos provocados pela doença. Para você ter ideia, eu estava com uma barriga proporcional à de uma grávida de gêmeos! Fora a dor, que era enorme... Então, o médico foi categórico: eu precisava de um transplante ou poderia morrer. 

O Leo sempre soube do quadro clínico da minha família. Um dia, há muito tempo, ele me garantiu que seria o primeiro a fazer o teste de compatibilidade se eu viesse a precisar de um transplante. Quando recebi o diagnóstico, relutei a aceitar meu marido como um doador. Pensei muito no futuro do Lucca: e se ele precisasse de um rim mais pra frente? 

Por outro lado, ponderei que a fila para um transplante de rim aqui no Brasil é infinita, por falta de informação e porque a população não é estimulada a refletir sobre a doação de órgãos. Era muito arriscado esperar demais. Enquanto eu pensava sobre tudo isso, o Leo já estava decidido: fez todos os exames!

‘Amor, isso não vai dar em nada: aqui é corpo fechado!’ 
Quando os exames de compatibilidade voltaram, os resultados foram todos negativos, o que significava que o Leo era um doador 100% compatível comigo! Juntos, decidimos que a melhor opção seria operar o mais rápido possível. Contamos com o avanço da medicina para que o Lucca nunca precise passar por isso. 

A primeira etapa foi a retirada dos meus dois rins. Depois, fiquei internada para fazer algumas sessões de hemodiálise. Após dez dias, nós dois fizemos a operação, na mesma hora!

Durante todo o processo de transplante, fiquei em um quarto e o Leo no do lado. E, mesmo recém-operado, em recuperação, ele cuidou de mim como um anjo, me apoiando o tempo todo. Eu precisava mesmo daquele carinho, pois não estava muito bem: a cirurgia aconteceu dia 31 de julho de 2009 e já no dia 3 de agosto tive uma rejeição fortíssima! 

Vivemos momentos superdelicados. Tive de encarar uma quimioterapia para combater a rejeição. Eu estava quase morrendo. Mesmo nesse cenário assustador, lembro do Leo dizer: “Amor, não vai dar em nada, aqui é corpo fechado!”

É o melhor companheiro do mundo! Aos poucos, fui recuperando minhas funções renais e, um mês depois, enfim recebi alta. Eu estava salva! 

Ele é mais que meu amor: é o herói do meu mundo! 
Depois de tudo o que aconteceu, é uma tarefa bem difícil explicar meu sentimento pelo Leo. Ele foi mais que amigo, namorado, amor, pai do meu filho e doador: foi e é o herói do meu mundo! Minha paixão e minha gratidão pelo meu esposo aumentaram a cada dia de vida que ganhei por causa do seu gesto! Por isso, resolvi que merecíamos um segundo casamento. Afinal, estávamos em um novo momento de marido e mulher. 

A gente tinha se casado em abril de 1998 e renovamos os votos em abril de 201 5! Foi o dia mais feliz da minha vida. Reuni meus familiares, meus amigos e entrei na cerimônia com meu filho – foi ele quem me entregou ao Leo! 

Tenho muito orgulho da nossa família! Sou apaixonada pelo meu marido desde os 14 anos e pelo meu filho desde a notícia de que estava grávida! E só agora, aos 37 anos, me sinto plenamente feliz porque uma parte do Leo vive em mim. - JULIANA LACERDA, 37 anos, assistente executiva, São Paulo, SP


09/06/2016 - 09:26

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