"Sou uma professora travesti"

Alguns pais duvidam, mas Herbe de Souza se considera uma educadora excelente: "Comigo, as crianças aprendem e viram pessoas melhores e tolerantes no futuro!"

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O recreio termina e as crianças começam a voltar pra sala de aula. Todas as turmas fazem duas filas diferentes, uma de meninos e outra de meninas. Menos a minha. Meus alunos fazem filas mistas, com todo mundo misturado, porque sabem que homens e mulheres são iguais. É através de pequenos detalhes como esse que eles param de enxergar o mundo dividido entre cuecas e calcinhas e se tornam pessoas melhores no futuro. Mas também, tendo uma professora como eu, não poderia ser diferente. Sou travesti e já sofri muito por causa de preconceito e ignorância. Hoje, educadora, quero acabar com isso. 

Aprendi a me defender e a ter resposta pra tudo bem cedo... 

Travesti é uma pessoa que nasce homem e que gosta da aparência e do comportamento da mulher. A gente veste roupas femininas, usa maquiagem, cabelão e até pensamos feito mulher, mas não queremos cortar nada fora. Até saber que era isso que eu era levou tempo. E pense você que, ao mesmo tempo em que eu vivia a angústia de não me entender, tinha que aguentar os mesmos meninos que brincavam comigo à noite me chamando de mariquinha de dia. 

Isso era muito comum na minha adolescência. Como só tinha moleque na rua, os meninos aprendiam desde cedo que era gostoso a gente se tocar. Não que rolasse sexo. Era um prazer. Todos queriam vir comigo, mas depois me chamavam de bichinha. Tanto que, aos 13 anos, quando entendi que gostava só de meninos, senti que aquilo era errado e escondi. Só que eu era meiga, aí fica difícil. Um dia, minha mãe ficou desconfiada e disse: “Você é gay? Porque se for eu me mato!” Não gostei daquela chantagem emocional e dei uma boa resposta: “Então, tá. Se você vai se matar eu não sou”.

Fiquei desbocada assim porque tive que aprender a me defender cedo. Também não estava pronta para me definir. Fui pesquisar o que era ser gay e vi que aquilo não era eu. Foi aí que topei com a definição de travesti. Era isso. Além de gostar de me vestir e me comportar como mulher, sempre tive muito hormônio feminino no corpo. Na rua, as pessoas se perguntavam se eu era menino ou menina, porque não dava para sacar. 

Comecei a me interessar por educação aos 16 anos, quando entrei num colégio técnico com curso de magistério. No primeiro dia nessa escola, o diretor fez um discurso: “A discriminação e o preconceito são terminantemente proibidos dentro desta escola. Quem praticar algum deles será expulso imediatamente!” Uau! Fui chamada para um estágio lá e me apaixonei pela profissão de professor. Adorava dar aulas para crianças e entendi que os pequenos não vêm com preconceitos de fábrica. Quem coloca ideias preconcebidas na cabeça deles são os pais, muitas vezes ignorantes. 

Educo não só os alunos, mas os pais deles e outros professores 

Trabalho como professora desde 2002 e também fiz faculdade de pedagogia. Nunca me faltou emprego, mas sempre tem um que me olha torto nas escolas. Às vezes, são vários. Por causa disso, adoto uma postura impositiva e não me escondo mais. Quero que os outros me vejam do jeito que sou e aprendam a lidar com as diferenças. 

Geralmente trabalho de maquiagem, salto e cabelo arrumado. Demora, mas conquisto o respeito das pessoas. Uma vez, uma mãe disse que o filho não gostava de mim e queria mudar de sala. A coordenadora descobriu que era ela que tinha problema comigo e disse que o filho ficaria onde estava. Toma! A verdade é que isso me magoou e chorei quando cheguei em casa, mas fiquei firme. Pensei: “Bem feito! Teve que me engolir!” 

Quando faço reuniões de pais e professores, sou bombardeada. “Você vai dar aula com essa roupa?”, as mães perguntam. “Ué, você quer que eu fique pelada?”, respondo. “E essas unhas pintadas?”, elas dizem. “Estão mais benfeitas que as suas!”, retruco. Deixo claro que ninguém me intimida e que minha função é ensinar os alunos, coisa que faço muito bem. Na sala de aula eu me garanto. As mães percebem, com o passar do semestre, que podem confiar em mim. 

Mas também existem pais bacanas e esclarecidos. Ano passado, um aluno novo perguntou se eu era menino ou menina. “Depende do dia. Às vezes sou menina, às vezes menino”, brinquei. Ele ficou confuso. A mãe, roxa de vergonha, olhou para ele e disse: “Lembra que eu te disse que anjos não têm sexo? Então, ele é como um anjo!” Adorei! Sou um anjo. Lindo! Momentos como esse me fazem amar ainda mais meu trabalho e ter convicção de que as pessoas aprendem e deixam preconceitos para trás. A educação pode mesmo mudar muita coisa. - HERBE DE SOUZA, 35 anos, professora, Franco da Rocha, SP

“Sem Herbe, meu filho teria ficado analfabeto”

“Meu filho Leo tem dificuldade para aprender. Ano passado, quis mudálo de turma porque o professor não estava nem aí. A única vaga era na classe da Herbe. Já tinha ouvido falar na professora travesti e sabia que outras mães cochichavam sobre ela. ‘Jamais deixaria meu filho ter aula com aquele professor. Vai que ele fica igual!”, umas diziam. Mas eu não pensava assim. Queria era que me filho aprendesse, independente da aparência do professor. E foi o que ele fez. Hoje, Leo é outra criança. Aprendeu a ler e a escrever e já consegue até fazer as provas. Tudo graças a Herbe, que trata meu filho com muito amor e carinho!” - LIVIA CAROLINA SILVA LEITE, 29 anos, autônoma, Caieiras, SP

Esta história faz parte do acervo do Museu da Pessoa, que tem como missão registrar, preservar e disseminar a história de vida de toda e qualquer pessoa da sociedade. Fundado há 23 anos, o Museu da Pessoa já registrou mais de 16 mil histórias de vida. Conte sua história em nosso portal e conheça nosso acervo: www.museudapessoa.net

07/10/2015 - 12:00

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