Sou gay, casado e adotei um adolescente que esperava há seis anos por um lar

Perguntaram se ele aceitaria dois pais. Sua resposta? “Obrigado, Deus, eu pedi uma família”. Tive certeza de que ele fora feito pra nós

Reportagem: Letícia Gerola

Ele me chama de pai e o meu companheiro de papai, somos uma família completa! | <i>Crédito: arquivo pessoal/redação Sou Mais Eu!
Ele me chama de pai e o meu companheiro de papai, somos uma família completa! | Crédito: arquivo pessoal/redação Sou Mais Eu!

Adotar uma criança sempre esteve nos nossos planos, meu e do meu marido Christian. Era um sonho em comum antes mesmo de nos conhecermos. Depois de quase três anos juntos, nos casamos em setembro desse ano e passamos a buscar nossa maior vontade: adotar uma criança de até cinco anos de idade. Felizmente as as coisas não saíram como o planejado – o universo tinha nos reservado uma joia ainda maior!

Queria uma criança pequena e percebi que era puro egoísmo

Foi por um grupo de WhatsApp focado em adoção que ouvi falar do Jonathan pela primeira vez. Uma moça do Tocantins estava fazendo uma dissertação para a faculdade sobre adoção tardia e postou no grupo a história do menino: um adolescente de 13 anos que estava há seis esperando um lar. Claro que ele já não tinha mais esperança de conseguir uma família pra chamar de sua. Sua idade já era “avançada” para os perfis de adoção, ele estava fadado a viver sem ninguém. Fiquei emocionado com o que li. Não tinha passado pela minha cabeça a realidade difícil das crianças mais velhas que viviam em abrigos. Elas também precisam de amor, carinho e cuidado. Na hora, pensei “como assim ninguém quer? Como as pessoas são egoístas!”. Foi quando percebei que eu também era egoísta, afinal, tínhamos estabelecido um perfil de até 5 anos para nosso futuro filho. Pois eu estava tendo uma atitude bastante parecida com aquela que critiquei. Foi nesse momento que decidi: vou adotar esse menino!

O Fórum parou para ver a formação dessa nova família

Conversei com meu companheiro, o Christian, e ele topou na hora! Confesso que bateu uma insegurança: será que ele iria nos aceitar? Nós desenhamos um perfil de filho na nossa cabeça, natural. Mas será que o Jonathan também não havia desenhado a família ideal pra ele? Os papéis se inverteram: quem tinha que nos escolher era ele. Entrei em contato com a coordenadora do abrigo e falei que adotaríamos o Jonathan. Pedi pra ela perguntar a ele se queria ser adotado por um casal de homens, e ele respondeu, emocionado “Obrigado Deus, eu pedi uma família”. Quando ouvi a resposta me arrepiei inteiro. Queria buscá-lo naquele instante, não tinha mais dúvidas. O Jonathan era o nosso tão esperado filho.

Entrei em contato com o Fórum para tentar a adoção pela Justiça de Maringá, aqui no Paraná, mas não tive sucesso. Procurei então a Defensoria Pública do Tocantins, que entrou com uma ação de adoção. No dia da audiência, vários funcionários do fórum pediram pra assistir, era a primeira adoção tardia do Estado! Quebramos dois tabus ao mesmo tempo: a nossa união homoafetiva e uma adoção tardia. Difícil explicar a emoção que invadiu minha alma quando conseguimos a guarda provisória do Jonathan. Foi como se todo o burburinho do Fórum pausasse por um longo instante para que só existisse eu, Christian e ele. Nossa pequena família estava se formando e junto com ela veio uma grande paz. Era a certeza de que tudo havia dado certo, estava tudo de acordo com a vontade superior. Meu coração não cabia no peito – também pudera, ele passou a dividir o espaço com mais gente: agora são três pessoas que moram nele. Tem amor pra todo mundo!

Ele mal se reconhece, finalmente aprendeu a sorrir!

A coordenadora pediu para gravarmos ele sorrindo e enviar pra ela, afinal, ninguém o via sorrir! Não sabiam como era o sorriso dele. Hoje, ele dá gargalhadas com a gente e estranha as fotos de um mês atrás, mal se reconhece. Eu e o Christian éramos felizes, mas hoje... Tudo mudou! Rimos muito mais, brincamos mais, temos mais vontade de trabalhar e realizamos o sonho de ter um filho. Ele me chama de pai e o meu companheiro de papai, somos uma família completa! Pensávamos que estávamos dando uma chance pra ele, mas hoje vemos que fomos nós que ganhamos a maior chance da nossa vida ao tê-lo em casa.

Precisamos falar sobre a adoção tardia

No início do ano que vem vou fazer uma campanha de apoio à adoção tardia. A ideia surgiu depois da repercussão do nosso processo. Graças a isso conseguimos incentivar mais cinco adoções tardias! Pessoas me ligavam dizendo que eu tinha coragem... Coragem tem que ter pra acordar cedo, pra adotar só precisa de amor.

Natalino Ferreira, tosador de cães, 34 anos, Maringá, PR


DA REDAÇÃO


Estatísticas do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) mostram que mais de 57% das famílias que pretendem adotar um filho exigem crianças de até 3 anos. A partir daí, o percentual só diminui a medida que a idade aumenta: para as crianças acima de 8 anos, por exemplo, o interesse é de apenas 5% dos pretendentes.

 

Para adotar no Brasil

O primeiro passo é se habilitar no Cadastro Nacional de Adoção, com a assistência de um advogado. Alguns dos documentos necessários são “RG, comprovante de residência e de rendimentos, certidões cível e criminal”, explica Iane Ruggiero, advogada especializada em Direito da Família. Depois, os interessados devem fazer o curso de preparação para adoção e passar por uma avaliação psicossocial, com entrevistas e visita domiciliar feitas por psicólogos e assistentes sociais. “Nestas entrevistas, os adotantes vão dizer o perfil das crianças que desejam adotar: sexo, idade, condições de saúde, se querem adotar irmãos ou não”, explica a advogada. O Ministério Público vai olhar todo esse processo e o juiz vai decidir se o nome dos adotantes entra no cadastro.

Contato com a criança
Estando cadastrados os adotantes entram na fila de adoção, que segue a ordem de inscrição. “Quando houver uma criança com o perfil que os pais colocaram, os adotantes serão chamados, receberão um histórico da criança e, se quiserem, vão conhecê-la!”, esclarece a especialista. A criança decide se quer continuar a conhecer estes adotantes. Se a resposta for positiva, começa a convivência: monitorada pelos psicólogos e assistentes sociais, é a fase em que a futura família se conhece melhor. “Os pretensos pais visitam a criança, fazem passeios... Passada essa fase, os pais pedem, com o auxílio de um advogado, a guarda provisória do filho”, completa. Depois de um período morando com a família, os relatórios são enviados ao Ministério Público e o juiz decide sobre a adoção: a criança se torna, enfim, filha daqueles pais e altera-se a sua certidão de nascimento.

O que o juiz avalia em casais gays

O processo de adoção para casais gays é o mesmo: o juiz avalia se ambos são maiores de idade, se a diferença entre os adotantes e a criança é de pelo menos 16 anos e, para a adoção conjunta, se os dois são casados ou vivem em união estável. Além desses itens, serão avaliados os critérios subjetivos, ou seja, requisitos morais, sociais e financeiros que demonstrem que o casal está preparado para receber a criança. “Apesar de não ter diferença no processo, é possível que um casal homoafetivo se depare com um juiz que entenda que não é possível a união homoafetiva, barrando a adoção pelo casal. Esse casal precisaria recorrer dessa decisão! Atrasa o processo, mas é importante combater tais comportamentos preconceituosos”, orienta Iane.  

29/12/2016 - 18:00

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