Sobrevivi a quatro sentenças de morte!

Achei que era o fim da linha, cheguei a autorizar a guarda do meu filho para sua madrinha. Que nada: ainda me livrei de um tornado e estou vivinha da Silva!

Reportagem: Helena Bertho (Colaboração: Caique Silva)

Meu santo é forte, vou até o fim! | <i>Crédito: arquivo pessoal
Meu santo é forte, vou até o fim! | Crédito: arquivo pessoal

Eu não conseguia acreditar nas palavras do médico. Câncer? Aquilo não podia estar acontecendo comigo. E o pior: na opinião do doutor, eu tinha no máximo mais seis meses de vida! As chances de o tratamento ter resultado eram mínimas, pois meu tumor maligno era de um tipo raro muito perigoso. Mesmo assim, ele insistiu para que eu lutasse. Mas aquilo me soou vazio: depois de me dar uma sentença de morte, o médico queria que eu me cuidasse? 

Entrei em depressão e quase me entreguei

Desolação era a palavra que definia o que eu sentia. Mesmo que eu conseguisse sobreviver, o tratamento me deixaria estéril. Essa era a minha realidade: morrer ou, na melhor das hipóteses, não poder realizar meu maior sonho, que era ser mãe. Sinceramente, achei que não valia a pena lutar. Meu mundo estava desabando e eu só tinha meus pais para me apoiar. Não sabia se aguentaria. E acabei entrando em depressão. Meu tumor era na virilha e eu teria de fazer quimioterapia e radioterapia. Mas, como as chances de o tratamento dar certo eram mínimas, não me sentia forte para enfrentá- lo. Para não desabar de vez, me apeguei ao meu trabalho de organização de eventos e de lançamentos imobiliários. Trabalhava de segunda a segunda para me manter ocupada. Quando comecei a fazer a quimio, em 2002, minha mãe e o médico praticamente tinham que me arrastar para as sessões. Eu não queria ir. O procedimento me deixou careca e me fez engordar: fui dos 60 kg para os 94 kg. Mas valeu muito a pena, pois mostrou que minha sentença de morte estava errada! Não só passei dos seis meses como me recuperei completamente do câncer. Depois de dois anos, o tratamento terminou e não havia mais vestígio da doença em mim!

Contra todas as expectativas, consegui engravidar

Mesmo após essa vitória, minha depressão continuou. Eu estava viva, mas não seria mãe. Não conseguia me conformar! A verdade é que eu não tinha vontade de viver, mesmo tendo vencido a morte. Por isso, no final de 2003 fui a um psiquiatra que me recomendou um antidepressivo. Ao tomar a primeira pílula, passei muito mal, tive enjoo e tonturas. Desisti do tratamento na hora. Mas o outro efeito colateral foi bem maior: o antidepressivo cortou a ação do anticoncepcional que eu tomava havia anos, por hábito mesmo. De repente, comecei a enjoar, engordar e minha menstruação atrasou. Mas, como teoricamente eu tinha ficado estéril após a quimioterapia, nem considerei uma gravidez. Até que um dia desmaiei durante um evento. Fui levada para o hospital e lá recebi a notícia de que estava grávida de dois meses!

Os médicos entraram em desespero com a notícia. Primeiro porque, tecnicamente não tinha como eu ter engravidado. Segundo, porque meu organismo estava muito fragilizado pela quimioterapia e a gravidez seria de risco. Mesmo assim, fiquei feliz como nunca. Aquilo permitiu que eu me sentisse uma mulher realizada!

O câncer voltou. E com mais força.

Apesar do risco, a gravidez correu bem e meu bebê, o Victor, nasceu lindo e saudável! Me senti realizada e completa. Parecia que minha vida finalmente era o que sempre quis. No entanto, essa felicidade durou só seis meses. Um inchaço no meu pescoço me pareceu suspeito e, quando procurei o médico, recebi o novo diagnóstico: câncer outra vez. Eu tinha parado com o acompanhamento médico nos dois anos anteriores e o tumor já estava num estágio bem avançado. Fiquei muito abatida e inconformada, mas eu não podia perder tempo lamentando: era preciso começar a quimio o quanto antes! Só que o convênio médico negou minha solicitação para o tratamento. Alegaram que eu estava gerando muitos gastos. Nisso, meu tumor cresceu tanto que eu não conseguia mais respirar! Até que um dia, completamente sem ar, procurei meu médico e ele foi taxativo: ou eu me tratava naquele momento ou morreria no dia seguinte. O problema é que uma sessão de quimioterapia custava R$ 9 mil e eu não tinha como pagar. Eu havia acabado de receber minha segunda sentença de morte! Entrei em desespero! Só que agora eu tinha um motivo para viver: meu filho. Naquela noite, me ajoelhei ao lado da cama do Victor e rezei. Pedi a Deus que me desse a oportunidade de ver meu menino crescer.

Fiz um autotransplante com 1% de chance de dar certo

Minhas preces foram ouvidas e os céus enviaram um anjo para cuidar de mim. Meu médico se compadeceu da minha situação e salvou minha vida. Ele fez algumas sessões de quimio sem cobrar nada, com a garantia de que eu ganharia o processo contra o convênio e ele receberia tudo no futuro – ganhei o processo depois de dois anos e ele foi pago por tudo. Já no dia seguinte, fiz a primeira sessão de quimioterapia para controlar o câncer. Segui o tratamento por dois anos. O tumor regrediu e eu já conseguia respirar, mas a quimio estava destruindo minha resistência. E, como o tumor estava localizado muito perto de uma artéria, não dava para operar. Foi então que o doutor propôs que eu fizesse um autotransplante de medula. O negócio era complexo. Primeiro, um exame mostraria se as células da minha medula ainda não tinham câncer. Se não tivessem, seriam retiradas e guardadas. Aí, eu faria uma quimioterapia muito forte, que destruiria o tumor, mas também acabaria com todas as defesas do meu corpo. Em seguida, a medula seria retransplantada em mim e eu recuperaria minhas defesas. Era uma opção muito perigosa e arriscada, mas não havia outra saída. Se não fizesse, o câncer ia me consumir. Topei fazer o transplante, mas o médico deixou claro que eu podia não sobreviver. Tinha só 1% de chance de dar certo! Era quase outra sentença de morte! Tanto que, antes do procedimento, fiz questão de ir a um cartório e registrar uma carta em que deixava a guarda do meu filho para sua madrinha, pois não confiava no pai dele, de quem já estava separada.

Uma semana antes de ser internada para o procedimento, resolvi fazer algo especial com o Victor, que tinha 1 ano na época. Levei meu menino para conhecer o mar e vivemos momentos incríveis juntos. Aproveitei cada segundo daquela semana na praia como se fosse uma despedida. Como meu coração estava apertado! Fiz uma quimioterapia intensa nos 15 dias que antecederam o procedimento. Isso me deixou completamente sem defesas. Ficava isolada, sem poder ver ninguém. Toda noite, eu ligava para fazer o Victor dormir e chorava com medo do que podia acontecer. Então, no dia 21 de janeiro de 2009 o doutor e sua equipe injetaram o líquido da minha medula novamente em mim. Depois do procedimento, perdi todos os meus movimentos, só mexia os olhos. Isso já era esperado. O médico explicou que, se em 45 dias eu voltasse a me mexer, meu corpo teria aceitado o transplante e eu me recuperaria. Do contrário, eu morreria... Eu passava o tempo todo olhando para o meu pé, tentando mexer o dedão. Depois de dois dias, consegui que ele se mexesse um pouquinho! Que alegria! No dia seguinte, mexi os dedos da mão e, aos poucos, meu corpo todo foi se recuperando! Mas não pense que foi um processo fácil. Passei mais 45 dias internada, sem contato com ninguém, nem com meu filho! Ficava o tempo todo sonhando em reencontrar o Victor. Queria tanto ver meu menino que consegui que o médico me desse alta antes do previsto! Cheguei em casa e o abracei bem apertado. Chorei de alegria.

Tive uma trombose e fiquei um ano sem poder andar

O problema é que minha perna começou a inchar sem parar. No dia seguinte, eu não conseguia mais andar e sentia dores insuportáveis na perna. Voltei para o hospital e dessa vez fui diagnosticada com trombose profunda, um entupimento da circulação do sangue. Passei nove dias internada e depois fui liberada para voltar para casa e continuar de lá o tratamento. Mas eu não estava bem: foram três meses sem sair da cama, quase um ano praticamente sem andar e mais um ano com bengala. Somente em 2012, consegui voltar a caminhar normalmente! Por causa de todos esses problemas, acabei largando meu trabalho com eventos e passei a trabalhar como assistente administrativa de uma empresa, de casa mesmo!

Escapei da morte pela quarta vez

Em busca de um salto profissionalmente, abri uma ótica em Embu-Guaçu, em São Paulo - SP, mas essa realização durou apenas dois meses. Vi minha loja ser destruída por um tornado que acabou com a cidade, motivo pelo qual estou parada hoje. No momento do tornado, estava de carro, em cima de uma ponte da cidade. O veículo balançou muito e quase capotou! Por sorte consegui escapar de mais um pesadelo. Quando tive condições de ver minha loja, o teto havia caído sobre a cadeira onde eu ficava durante o dia. Naquele momento tive a certeza de que ainda não chegou minha hora de ir para o céu, tenho uma missão para cumprir por aqui.  

Estou curada e vou conseguir realizar um sonho do meu filho

Hoje, com 11 anos, Victor finalmente irá conhecer a praia! É contagiante a ansiedade dele! Meu médico finalmente me liberou para fazer esse passeio, que esperávamos há tanto tempo, afinal, posso dizer: estou curada. Parece que estou sonhando acordada... Apesar de tudo que já sofri, hoje me sinto ótima. Sou uma sobrevivente; uma guerreira. Por três vezes, os médicos disseram que eu não viveria e a vida ainda me colocou no meio de uma tragédia. Mas aqui estou eu, vivinha da Silva!

DioneiaVitta, 47 anos, dona de casa, São Paulo, SP

23/12/2016 - 17:23

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