Recebi R$ 10 mil da empresa que me humilhava

Processei a firma que me castigava sempre que eu deixava de fechar uma venda e ganhei uma indenização por danos morais

Reportagem: Thaís Helena Amaral

Processei a empresa por danos morais e ganhei! | <i>Crédito: arquivo pessoal
Processei a empresa por danos morais e ganhei! | Crédito: arquivo pessoal

Quando voltei de férias para meu emprego de vendedora de telemarketing, em dezembro de 2007, me senti em outra firma. O ambiente havia sido reformado e um novo diretor gerenciava a empresa fornecedora de canais pagos, internet e telefone em que eu trabalhava havia três anos. Logo percebi que a forma como os funcionários eram tratados também havia mudado. Estava na minha mesa, atendendo a uma ligação, quando o novo supervisor parou ao lado de um colega que não conseguiu vender um pacote de canais a um cliente e disse: “Para o chão! Vai pagar flexões por ter perdido essa oportunidade!” Oi?!

Um colega se machucou no castigo e foi demitido

Confesso: no início, ri e tentei levar na brincadeira. Mas logo parei de achar graça. O supervisor passava o dia nos rodeando e mandando quem perdia venda pagar flexões. Mulheres de salto ou saia tinham de fazer polichinelos. Não havia escapatória!

No segundo dia do meu retorno, sofri minha primeira humilhação. Quando desliguei de um cliente que disse que ia pensar se queria o plano de canais pagos, o supervisor buzinou com uma corneta na minha orelha. Levei um baita susto! Depois, ele disse que eu deveria pagar flexões por causa da minha falha.

Constrangida, me abaixei e tentei completar o movimento, mas me faltava força nos braços. Um colega colocou o dedo no passante de cinto da minha calça e ficou me puxando para cima, para me ajudar. Os demais riram, junto com o supervisor. Que situação!

Tentei rir, meio sem graça, mas fiquei me sentindo muito mal. Não dava para levar a coisa na brincadeira. A situação só piorou quando, no mesmo dia, um colega foi obrigado a fazer as flexões, mesmo dizendo que estava com dores nos braços.

O supervisor insistiu e ele acabou distendendo o músculo do braço enquanto tentava fazer as flexões. Acredita que a pobre criatura acabou sendo demitida por isso? Disseram que ele não servia nem para fazer flexão e o mandaram para o olho da rua. Fiquei revoltadíssima!

Meu salário baixou para menos da metade

Depois da demissão do meu colega, percebi que não podia bobear com aquele supervisor ou também seria dispensada. Conversei com meus colegas e tentamos pensar em alguma estratégia para por fim àquela situação, mas ninguém sabia muito bem como agir. Cogitamos falar com o novo diretor, mas depois pensamos que ele era quem poderia estar mandando o supervisor agir assim. Então, não falamos nada.

O clima no trabalho era péssimo. Nós éramos proibidos de deixar o celular ligado durante o expediente, mesmo que fosse só para olhar a hora. Se o supervisor visse um aparelho ligado, já gritava: “Desliga essa coisa que eu estou mandando e quem manda aqui sou eu!” Era muito grosso e mal educado.  Parecia que sua diversão era nos aborrecer e desestruturar. Se alguém ia vestindo alguma roupa um pouco mais colorida ou diferente, ele não perdia tempo em chamar de cafona ou coisas piores. Era péssimo!

Isso sem falar na carga de trabalho absurda. Como estava havendo um revezamento de horário, metade das baias ficava vazia no meu turno de trabalho. E nós éramos obrigados a atender o telefone da mesa ao lado além do nosso próprio. Se perdêssemos uma ligação, era buzinada na orelha e polichinelo ou flexão. Fazendo referência ao filme Tropa de Elite, que passava nos canais pagos da empresa, o supervisor nos dizia todos os dias: “Se não aguenta, pede pra sair”.

Confesso que fiquei tentada a pedir demissão depois de três meses aguentando a situação. Eu não conseguia nem olhar mais para a cara daquele tirano e cumpria meus exercícios de cabeça baixa. Para piorar, eles mudaram o sistema de comissionamento e meu salário caiu para menos da metade, porque eles insistiam que eu não tinha batido minha meta. Mas era mentira! Não importava quantos pacotes de televisão por assinatura eu vendesse, eles sempre diziam que eu não tinha atingido minha meta.

Comecei a me endividar. Um dia, enquanto estava no horário do almoço, percebi que havia um escritório de advocacia trabalhista no mesmo quarteirão que minha empresa. Corri até lá e conversei com o advogado.

Ele me disse que, se eu quisesse, poderíamos mover uma ação na justiça contra a empresa e que o nome do que estava acontecendo comigo era assédio moral. Me animei com a possibilidade de fazer justiça, mas pedi para ele esperar que eu fosse demitida primeiro, porque precisava do dinheiro dos meus direitos. Achava que não ia demorar muito pra que isso acontecesse.

Depois de 6 meses de humilhação, fui demitida

Quando completei seis meses de humilhação, finalmente recebi minha carta de demissão das mãos de uma gerente que não trabalhava diretamente comigo. Foi um alívio! Aí, meu advogado deu entrada no meu processo. A essa altura, já havia mais quatro ex-colegas processando a empresa também.

O moço que teve o braço distendido pagando castigo enviou um e-mail para o diretor geral da empresa e o supervisor foi mandado embora no mês seguinte. Vibrei porque gostava muito da empresa e não queria que uma pessoa de má índole como a dele a levasse para o buraco.

O processo correu na Justiça por cinco anos. A empresa recorria alegando que tudo não passava de uma brincadeira e que ninguém era obrigado a fazer nada. Mas meu advogado levou o processo até o fim e, em fevereiro de 2013, finalmente ganhei a causa e mais R$ 10 mil por danos morais.

Usei o dinheiro para pagar minhas dívidas. Foi um alívio sentir que a justiça tinha sido feita! É claro que a humilhação eu nunca vou esquecer, mas pelo menos fui recompensada. Torço para que as pessoas que passam por situações parecidas não se calem e busquem por justiça. Ninguém merece (ou precisa) passar por esse tipo absurdo de humilhação!

Susi Vieira, 42 anos, dona de casa, Cordeirópolis, SP

DA REDAÇÃO

Saiba como agir se sofrer assédio moral

Assédio moral consiste em provocar o outro com a intenção de causar lesão psíquica, através de perseguição ou desprezo. “No ambiente de trabalho, ele pode ser praticado do chefe para o subordinado, do subordinado para o chefe ou entre colegas do mesmo nível hierárquico”, explica a advogada trabalhista Sônia Mascaro Nascimento.

Não pode aceitar!

Exposição pública de avaliações de desempenho, humilhação, agressividade, ridicularização, estímulo excessivo à competição e fofocas configuram assédio moral. “Não deixe passar. Você deve agir, falar ou denunciar”, enfatiza Sônia. O primeiro passo é conversar com a pessoa que está lhe assediando e deixar claro quais comportamentos incomodam. Se não funcionar, converse com o superior imediato dela. Se for seu chefe, converse com o chefe dele. Não funcionou? Procure a seção de Recursos Humanos da empresa para saber se há um mecanismo interno para tratar do assunto, tipo comitê. Caso não haja, denuncie no Ministério Público do Trabalho ou procure um advogado e entre com uma ação judicial.

Faça a rescisão indireta

“Sugiro que o funcionário faça um rescisão indireta, em que ele se afasta da empresa e entra com reclamação sem chegar a pedir demissão” explica a advogada. Se a rescisão for reconhecida pela Justiça, você ganha todos os seus direitos como se tivesse sido demitida pela empresa. É importante reunir o máximo de provas do assédio, como depoimento de testemunhas, documentos e trocas de mensagens internas, por exemplo. Quem não tem condições financeiras de contratar um advogado deve contatar a defensoria pública do seu estado, onde terá acesso ao serviço de assistência jurídica gratuitamente. 

04/08/2016 - 20:08

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