Porque passei no X-Factor Brasil e decidi não participar

Encarar 16 horas de frio, calor e fome não pode ser a única forma de realizar o sonho de cantar

Reportagem: Caroline Cabral

Cantar está na minha essência, não vou desistir disso | <i>Crédito: arquivo pessoal
Cantar está na minha essência, não vou desistir disso | Crédito: arquivo pessoal

Duas das minhas bandas favoritas nasceram no X-Factor, um reality show musical estrangeiro em que cantores iniciantes se apresentam para conquistar grandes produtores. Por isso, meu coração parou por um instante quando li no Facebook que a Band estava prestes a fazer a convocatória de participantes para o X-Factor Brasil. A primeira versão gravada aqui era uma grande chance de conquistar meu lugar no cenário musical. Me inscrevi no mesmo instante e cruzei os dedos! A boa notícia é que fui escolhida. A má? Me recusei a participar.


A audição mais parecia uma prova de resistência

O site de inscrição pediu diversas informações minhas. Forneci todas e ainda precisei enviar um vídeo mostrando meu talento. Gravei um especial para o programa, com duas músicas de estilos diferentes. Escolhi Wave, do Tom Jobim, e Hello, da Adele. Duas semanas depois recebi um e-mail que convocava para a audição, que rolaria dali dez dias, num sábado.

Quando o grande dia chegou, acordei às 7h e percebi que fazia bastante frio, mas não me preocupei. É que o e-mail da convocação dizia "vista-se para impressionar". Então, ignorei o termômetro e apostei em um look que contasse um pouco sobre quem eu sou: vestido, meia-calça e botas, algo entre o clássico e o pop. Entrei no carro com meu pai e partimos para a Arena Corinthias, na zona leste de São Paulo.

Os portões abriram às 8h, chegamos lá pouco depois das 8h30 e já havia gente a perder de vista. Milhares de pessoas do Brasil inteiro estavam ali, enfrentando quilômetros de fila para alcançar um sonho em comum: reconhecimento profissional. Fiz amizade com um pessoal e descobri que muitos haviam acampado ali no dia anterior. Um cenário aceitável para os grandes shows que rolam em estádios, mas nada coerente com uma audição! Ficar horas sem comer, exposto a frio e sem ter onde sentar  limita o potencial de qualquer artista.

Esperava um pouco de estrutura da produção, mas nem o banheiro químico dava para usar de tão nojento. O cúmulo do desrespeito com os candidatos foi quando uma produtora irritada berrou no megafone: "PRE-CI-SO que vocês estejam animados para gravar!". Ela estava fazendo imagens aéreas da gente e queria empolgação a qualquer custo, mesmo que claramente forjada. Passei as próximas 12 horas na fila, sem contato direto com a produção do programa. O clima oscilou entre o sereno gelado da manhã e o sol escaldante do meio-dia. Eu estava lá, não iria desistir por adversidades como o tempo. Mas aos poucos a ficha foi caindo: tinha me inscrito para uma audição e não uma prova de resistência.


Frio, calor e horas de pé: a audição parecia uma prova de resistência!


Para poder ser ouvida tive que cantar ao ar livre

    Quando finalmente alcancei a área de espera, onde as audições estavam rolando, o relógio já marcava 21h. Foi aí que recebi minha primeira senha! Mas o papel oficial havia acabado, então ela veio escrita à mão: eu era o número 5034. De tempos em tempos um dos organizadores gritava no megafone que uma nova leva de números seria ouvido. Com o passar das horas eles nos informaram que os produtores iriam ouvir os cantores na área externa, não mais nas cabines de audição – caso contrário não daria tempo de ouvir todo mundo antes do sol nascer. Já passava da meia-noite quando fui encaminhada para o teste...

    Eu estava esgotada. Minhas pernas doíam pelas horas de pé, minha maquiagem já tinha vencido há tempos e o sono estava me entorpecendo. Ainda assim fui tomada por um gás incomum que abastece os artistas: estava prestes cantar! Recuperei alguma energia, dei um beijo no meu pai e fui até a produtora. Ela me tratou muito bem e imagino que também estivesse cansada, havia sido um dia longo pra nós duas.

    Eu já sabia que meu vídeo não tinha sido visto por ninguém dali, então escolhi a mesma música para mostrar minha voz. Sem nenhum isolamento acústico, rodeada por pessoas fazendo o teste com outros produtores, cantei mais alto que o normal para ser ouvida. Para a minha sorte isso não me prejudicou: depois de 30 segundos cantando ela me interrompeu para saber se eu cantaria músicas da Katy Perry. Amo a cantora, então entoei Firework na hora. Na sequência ela perguntou se eu poderia voltar no dia seguinte: eu tinha passado! Em um papel ela escreveu 6287 e me entregou. Corri para abraçar meu pai: estava um passo mais próxima do meu sonho.


 

Passar foi uma conquista, mas não pude compactuar com tanta falta de respeito


Cheguei à segunda fase e decidi ir embora

    Fiz as contas e vi que só teria três horas para dormir, mas tudo bem. Providenciei as cópias dos documentos que foram pedidos para o domingo, jantei e tomei um banho relaxante antes de descansar. No dia seguinte o despertador tocou às 5h30 e eu pulei da cama empolgada. Tinha confiança de que seria um dia bem melhor. Depois de uma eliminatória tão extensa, claro que haveria menos gente lá, certo? Errado.

    Desci do carro às 7h15 e pro meu desgosto vi quase tantas pessoas quanto no sábado. Quando o relógio marcou meio-dia ainda estavam chamando a leva de senhas de 500 a 600. A minha era a 4111. Estava exausta! Minha mãe me ligou e disse: "filha, você tem certeza que quer ficar aí? Não me parece um processo justo. Você pode seguir outros caminhos para alcançar seu sonho, esta não é a única maneira". Refleti sobre tudo aquilo e concordei com ela. Fui embora na hora.

    ​Eu não poderia participar de um programa que trata as pessoas de maneira tão desumana e não profissional. Não desisti do meu sonho. Refleti muito sobre o que vivenciei. Como podem tratar com tanto desdém um sonho? É por ele que levanto da cama todos os dias. Eles levaram os sonhadores ao limite físico e emocional, e não é assim que se testa o talento e a capacidade de um artista. É dando espaço para que ele crie. Estou inconformada, sim, mas este é meu combustível para seguir em frente. Se você não passou para as próximas fases, fique tranquila! Siga em frente e mantenha os olhos no seu objetivo. A vida de um artista é repleta de nãos, e são eles que tornam o sim tão especial.

    Quanto a mim, vou continuar com os estudos e as aulas. Sigo me inspirando nas músicas que amo, elas me movem. Esse percalço não me fará parar. Foi só um dia infeliz do qual eu escolhi não participar mais. Vou perseguir meu sonho de uma maneira mais saudável e respeitosa. Você pode acompanhar os próximos capítulos da minha trajetória pelo meu perfil no Instagram e no YouTube, pois de uma coisa estou certa: seguirei cantando!

Isa Bruder, 17 anos, estudante, São Paulo, SP

13/07/2016 - 21:06

Conecte-se

Revista Sou mais Eu