Nossa cachorra resgatou o meu filhinho!

O Miguel tem 4 anos, mas é danado que só. Um dia, saiu andando pela rua sozinho. Sorte que a Pituxa o seguiu e deu jeito de trazer ele de volta pra casa

Reportagem: Giulia Gazetta

A gente deve nossa felicidade à Pituxa. Onde Miguel estaria se não fosse por ela? | <i>Crédito: arquivo pessoal
A gente deve nossa felicidade à Pituxa. Onde Miguel estaria se não fosse por ela? | Crédito: arquivo pessoal

Olho no Miguel, hein?”. Todo dia cedinho, antes de sair para trabalhar, eu falo isso para minha filha Maíra, de 17 anos. Porque o mais novo dos meus seis filhos é espoleta! Fica louco quando vê os carros passando, quer ir atrás. E foi exatamente o que ele fez em 2014: aproveitou que a irmã estava concentrada em fazer almoço e se mandou pela rua, seguindo os automóveis. Sorte que a Pituxa, nossa vira-lata de cinco anos, é apaixonada pelo menino e seguiu todos os passos dele. 

Quando me avisaram, o Miguel já estava desaparecido havia três horas

Assim que o almoço ficou pronto, a Maíra deu falta do irmão. Andou por toda a casa atrás dele, e nada. Foi quando viu o portão aberto e percebeu que Pituxa também havia desaparecido. Desesperada, saiu pelas ruas atrás do pequeno. Depois de três horas sem nem sinal do Miguel, resolveu me ligar. 

Ela sabia que eu ia enlouquecer quando soubesse, e tinha razão: minha pressão caiu e eu precisei me sentar e ser amparada pelos meus patrões. Mas minha fraqueza não durou nem um minuto. No segundo seguinte, fiquei de pé: precisava ir procurar o Miguel. Peguei um ônibus, expliquei a situação para o motorista e ele não parou mais em nenhum ponto. Quanto antes eu chegasse em casa e começasse as buscas, melhor seria. 

Desci do ônibus e já vi um reboliço em frente ao meu portão. Pensei que notícia ruim me aguardava: sequestro, atropelamento, morte... Nessas horas, nada de bom passa pela nossa cabeça, né? Afastei os vizinhos, a parentada e fui me enfiando no círculo até que dei de cara com... o Miguel! 

Numa alegria sem fim, agarrei meu menino e entrei com ele em casa. Que alívio, ele havia voltado pra casa e não tinha nenhum arranhão! Mas como?! Eu precisava entender o que estava acontecendo. Perguntei onde ele estava e ele só repetia: “Carro, carro...”. 

Chamei a Maíra para que ela me explicasse melhor e ela me apresentou ao José Ivan. O mecânico, que mora a uns 2 km da nossa casa, havia encontrado o Miguel deitado no banco de trás do carro dele. A Pituxa estava sentadinha do lado de fora do automóvel. José tentou perguntar ao Miguel onde ele morava, mas não teve nenhuma resposta satisfatória. “O menino só dizia: ‘moro lá!’, e apontava pro meio do nada!”, contou. 

Foi então que esse homem abençoado percebeu a relação entre meu filho e a cachorrinha e teve a brilhante ideia de fazer com que ela o guiasse até a nossa casa. Ele a seguiu de carro e, depois de 20 minutos, a Pituxa parou exatamente em frente ao nosso portão. Ela o guiou feito um GPS e salvou a vida do meu filho. Se não fosse por ela, sabe-se lá onde o Miguel estaria agora! Depois disso, tive uma conversa séria com o meu pequeno e pedi para que ele nunca mais fosse pra longe de mim. Ele parece ter entendido a lição, pois disse: “Nunca mais, mamãe, nunca mais!”. 

Suely Gondim, 47 anos, auxiliar de serviços gerais, Ibirité, MG

 

Pedi para que ele nunca mais fosse pra longe de mim!

DA REDAÇÃO

Miguel foi salvo pelo olfato canino 

O olfato dos cachorros é dez vezes mais apurado que o nosso. “Por isso que a Pituxa conseguiu levar o menino de volta pra casa com tanta facilidade”, diz a veterinária Amanda Martins, do Planet Dog. Segundo ela, a visão canina é mais comprometida – não enxerga certas cores, como o verde. Para compensar, o senso de direção dos cachorros está totalmente ligado à memória olfativa. “Um animal que tem acesso à rua, passeia pelo bairro, demarca território (eles geralmente urinam de 10 em 10 m) e já vive há anos na mesma casa é capaz de seguir os cheiros e saber exatamente como voltar”, explica Amanda. 

 

“Deus me iluminou para eu saber o que fazer” 

“Eu estava trabalhando e ia sair pra almoçar quando uma vizinha gritou: “Onde cê vai, José? Vai deixar a criança dentro do carro?”. Criança? Mas que criança? Eu sabia que meus filhos estavam na escola ou dentro de casa! Respondi: “Não tem criança nenhuma!”. E ela insistiu: “Tem um moleque dentro do seu carro, eu vi quando ele entrou pelo porta-malas”. Até então, eu só havia notado uma vira-lata sentada do lado do automóvel. Resolvi tirar a prova e dei de cara com o Miguel quase pegando no sono, deitadinho no banco de trás. Assustado, comecei a conversar com ele e a única coisa que ele me respondeu com precisão foi o seu nome. Fora isso, só dizia que estava querendo “mimir”. Entrei em pânico. Chamei minha filha mais velha pra me ajudar, quem sabe com um jeitinho especial de mulher ela não conseguia arrancar algo da criança? Nada! Ele não sabia dizer onde morava nem quem eram seus pais. Pedi a Deus que me desse uma luz. Não queria chamar a polícia, porque sabia que ele poderia ser encaminhado para o Juizado de Menores. Queria que ele voltasse pra casa! Foi quando uma frase tomou conta da minha mente: “Toca a cachorra daí e segue ela!”. Achei a ideia meio absurda, mas não custava nada tentar. Na terceira tentativa, deu certo! A Pituxa me levou até a casa do Miguel e eu pude devolvê-lo à sua família. Tenho certeza que foi Deus quem me iluminou!”

José Ivan Fagundes, 55 anos, mecânico, Ibirité, MG

10/08/2016 - 19:00

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