Meu filho foi humilhado na escola por estar de chinelo

O vice-diretor o obrigou a assistir às aulas e a voltar descalço para casa

Reportagem: Caique Silva

Registramos um boletim de ocorrência. É a única coisa a fazer em casos como esse! | <i>Crédito: Arquivo pessoal
Registramos um boletim de ocorrência. É a única coisa a fazer em casos como esse! | Crédito: Arquivo pessoal

Levei um tempo para entender o vídeo que recebi da minha filha Williane, de 15 anos, na noite do dia 5 de dezembro. Nele, meu menino Pedro, 13 anos, aparece aos prantos em plena sala de aula. “O que aconteceu?”, pergunta a professora que, comovida com o sofrimento do garoto, filmou tudo com o próprio celular. “O Pedro está descalço; o vice-diretor tirou os chinelos dele no recreio, dizendo que é para ele aprender a nunca mais vir assim para a escola”, responde um aluno. 

Registramos um boletim de ocorrência

Raiva e indignação tomaram conta de mim. Como assim?! Pedro sempre ia para a escola de chinelo e nunca haviam questionado! Aí, do nada, sem a menor explicação, o vice-diretor o obriga a assistir aulas descalço e a voltar para casa de pé no chão?! Meu filho chegou da escola. E estava absolutamente assustado!

Ele havia sido levado para casa pelo Conselho Tutelar – acionado pela mesma professora que filmou a humilhação toda –, que nos encaminhou para a delegacia da região. Lá, registramos um boletim de ocorrência. É a única coisa a fazer em casos como esse, pois o vice-diretor  só poderá ser afastado após uma análise do Ministério da Educação.

Enquanto isso, o vídeo se espalhou pela internet. Assim que o viu, a diretora veio se desculpar pessoalmente, aqui em casa. “Não sei o porquê de o vice-diretor ter agido assim”, disse ela, quando cobrei uma explicação. Ele, aliás, até hoje não se manifestou. Cogitei ir à escola e confrontá-lo, mas deixei para lá. Nada do que ele dissesse justificaria a sua atitude e nada do que eu dissesse o faria entender o quanto ele foi despreparado, cruel e covarde.

Ainda bem que há Razões para Acreditar!

Deixei Pedro sem ir à aula por quatro dias. Mesmo sabendo que teria de reencontrar diariamente o homem que o humilhou, em momento algum meu filho pediu para sair da escola. Por isso, na semana seguinte ao acontecido, lá estava o Pedro fazendo as provas. Passou de ano sem dificuldades. Baita alívio, ver que não havia ficado traumatizado!

Até porque, numa daquelas ironias da vida, a situação horrível que Pedro viveu colocou uma criatura maravilhosa nas nossas vidas: o Vicente. Fundador do site Razões para Acreditar (veja quadro abaixo), ele se comoveu ao ver o vídeo feito pela tal professora e promoveu uma campanha para meu garoto ter um aniversário – ele completou 13 anos no dia seguinte à confusão – e um fim de ano mais felizes.

Assim sendo, no dia 16 de dezembro, o Razões para Acreditar nos levou pela primeira para São Paulo, onde conhecemos o Autódromo de Interlagos. Que experiência incrível! Não só a do passeio em si, mas a de constatar que, apesar de toda maldade no mundo, existem pessoas muito boas, com as quais podemos contar nos momentos difíceis. E, graças a elas, histórias tristes acabam ganhando finais felizes.


Floracir Ferreira de Lima, 32, dona de casa, Planaltina, DF


Sobre o Razões para Acreditar

O site Razões para Acreditar começou em 2012, com o objetivo de fortalecer o otimismo das pessoas por meio de histórias de superação, relatos de boas ações, textos reflexivos e motivacionais. “Não somos uma ONG de realização de sonhos; o caso do Pedro foi uma exceção”, esclarece Vicente Carvalho, fundador e editor-chefe do site. Para acompanhar o Razões para Acreditar, fique de olho nas redes sociais como o Facebook, Instagram e o site oficial do Razões para Acreditar.


DA REDAÇÃO


Como lidar com esse tipo de abuso?

I - POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS PSICOLÓGICAS

Podem variar de uma ansiedade simples até síndrome do pânico ou fobias sociais – depende dos recursos internos que o garoto desenvolveu ao longo da infância para driblar/suportar essa condição da humilhação. Se o abuso se estende e não há nenhum tipo de acompanhamento psicológico,  as relações profissionais podem ficar comprometidas no futuro. E de forma extrema: ou a pessoa recusa de autoridade, reagindo a ela de forma agressiva ou inflexível, ou se tornar um ser passivo e manipulável, que tudo aceita e não se impõe em situações adversas. 


II - O QUE OS PAIS DEVEM FAZER 

Procurar auxílio psicológico, para saber se e como a criança/adolescente ficou ou não marcada. Trata-se de um importante cuidado preventivo, que evita repercussões no resto da adolescência e/ou na vida adulta.


III - COMO ORIENTAR SEU FILHO A SE POSICIONAR

Ensine-o a sempre relatar qualquer abuso e a pedir ajuda imediata. Não enfrentando o algoz, mas buscando o apoio de quem possa freá-lo. No caso, valeria ter buscado a diretora ou até mesmo a professora (que, por sorte, agiu sem ser acionada). 


Francineia Fabrizzio, 38 anos, psicóloga


O que diz a lei?

I - Quais medidas legais os pais podem tomar? 

Podem registrar um boletim de ocorrência e recorrer à Secretaria da Educação para instauração de um processo administrativo. Ao final desse último, se comprovada a culpa, os pais também podem processar o réu de acordo com os crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Importante: menores de idade não podem ser inqueridos por nenhum órgão que não seja judiciário sem a presença de um responsável legal ou o detentor da sua guarda.


II - Quais consequências o vice-diretor poderia sofrer? 

A abertura de um processo administrativo, podendo ser afastado do cargo no decorrer da investigação (caso o juiz entendesse ser necessário, para preservação de provas e/ou não coação de testemunhas). Ao final do processo, há risco de exoneração, ou seja, demissão.


Marcelo Carvalho, 36 anos, advogado


Veja o vídeo feito pela professora de Pedro no dia do ocorrido:

27/12/2016 - 16:20

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