“Meu diferencial não é o braço a menos... É o meu saque!”

A amputação não determinou quem eu seria

Reportagem: Caroline Cabral

“Meu diferencial não é o braço a menos... É o meu saque!” | <i>Crédito: Marcio Rodrigues
“Meu diferencial não é o braço a menos... É o meu saque!” | Crédito: Marcio Rodrigues

Responda rápido: qual o meu diferencial como jogadora de tênis de mesa? Se respondeu que é a ausência do braço direito, você errou; é o meu saque. Desde a primeira vez em que peguei na raquete, aos 7 anos, percebi que sacar bem seria meu maior desafio. Quando consegui fazê-lo usando o queixo e uma mão, treinei à exaustão, até transformá-lo numa das principais forças do meu jogo; até o braço a menos deixar de ser o diferencial... E virar um detalhe! 

 

A amputação não determinou quem eu seria

Nunca senti falta do braço direito. Eu tinha 3 meses quando uma vacina mal aplicada provocou uma trombose nele. Foi o jeito amputar. O doutor cumpriu pena de quatro anos pelo erro. Meu pai (mecânico aposentado) e minha mãe (ex-caixa de supermercado) sofreram, mas não deixaram isso pautar minha vida. Dentro de casa, nunca tive privilégios por não ter um braço. Precisei me virar tanto quanto meus dois irmãos para alcançar as altas expectativas dos nossos pais. Acabei entendendo que sou uma mulher inteira, forte, capaz de chegar longe.

Para mim, o limite do meu corpo sempre esteve e estará na minha mente. Daí eu amar o esporte desde que me dou por gente. Andar de skate, jogar futsal e fazer trilha de bicicleta era comigo mesma! Tanto fazia a modalidade, o importante era o movimento constante, o sangue disparado na veia. Foi dureza escolher, aos 17 anos, se ia me dedicar integralmente ao tênis de mesa ou ao futsal... Até hoje o esporte de quadra me apaixona. Mas são a mesa de madeira e a raquete que trazem a Bruninha olímpica à tona!          

Eu estava terminando o 1º colegial quando um técnico local me viu jogando no projeto Revelando Talentos, da prefeitura de Criciúma (SC), e me propôs virar atleta profissional. O convite me fez pensar, pela primeira vez, no esporte como ganha-pão. Deixei família, amigos e escola em Santa Catarina e me mudei para São Caetano do Sul (grande São Paulo). No começo, eu me senti só. Era do treino pra casa e de casa para o treino! Mas foquei na concentração e dedicação que o esporte, paralímpico ou não, exige. E segui em frente.

 

Toda superação requer momentos difíceis

Não é fácil. Nem toda competição me levou ao pódio. Algumas me deixaram na lona. Nos Paralímpicos de 2012, em Londres, eu estava prestes a garantir o ouro. Porém, não consegui lidar emocionalmente com a pressão e perdi para a australiana Melissa Tapper. Fiquei arrasada! Decidi, então, focar nas minhas falhas, para não cometer os mesmos erros. Suei seis horas por dia, seis dias por semana para melhorar minha técnica e trabalhar melhor o emocional, ficar sozinha é muito importante, me faz ter foco, concentrando toda minha atenção no jogo. Valeu a pena: há dois meses derrotei Melissa no Aberto Paralímpico da Eslováquia. Me tornei campeã da Classe 10 Feminina!

Superação requer momentos difíceis. Essa é a verdade escancarada pelo esporte paralímpico. Por saber dela, nunca me vi como coitada. Digo inclusive que minha deficiência é quase nada. Convivo diariamente com pessoas em condições tão mais limitantes que não me permito reclamar da falta de um membro. Falta essa que me faz vencedora e ainda me permite ajudar minha família. A casa onde cresci, por exemplo, foi reformada e ampliada com a minha ajuda. Uma maneira de retribuir o apoio incondicional dos meus pais e dos meus irmãos. É uma felicidade, poder presenteá-los toda vez que vou lá. E será uma felicidade maior ainda na próxima visita, quando eu chegar com a medalha de bronze que conquistei no Rio 2016.

 

Bruna Alexandre, 21 anos, mesatenista paralímpica

26/09/2016 - 10:00

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