Meu amor chegou de viatura no nosso casamento!

Ele foi acusado de um crime que não cometeu e levou mais de dois anos para provar sua inocência. Mesmo encarcerado, Elimário quis selar nossa história de amor!

Equipe Sou Mais Eu (colaboração: Caique Silva)

O importante é que o casório saiu! | <i>Crédito: arquivo pessoal/arte Sou Mais Eu!
O importante é que o casório saiu! | Crédito: arquivo pessoal/arte Sou Mais Eu!
Eram 6 h da manhã. Eu e meu namorado, o Elimário, estávamos dormindo quando a polícia invadiu minha casa. Acordei no susto, apavorada. Os policiais disseram que haviam recebido uma denúncia de homicídio. Reviraram toda a casa, até que encontraram um punhal do Elimário na escrivaninha do quarto. Sem saber o que estava acontecendo, ele confirmou que a arma era dele. Algemaram meu amor e o levaram para a cadeia sem dar explicações. Assisti àquela cena horrível chorando, sem poder fazer nada. O que ia ser de mim? Eu tinha apenas 17 anos e um filho de menos de 2 anos para criar, com o pai na cadeia. Entrei em pânico. Eu sabia que meu namorado era inocente.
Engravidei após uma semana de relacionamento 
Meu lance com o Elimário foi algo muito inesperado. A gente se conheceu quando eu tinha 15 anos e ele, 17. Engravidei uma semana depois! Fiquei com medo, mas meu amor mostrou que era uma pessoa incrível: disse que ia viver comigo para criarmos nosso bebê. Apesar da nossa pouca idade e de tudo ter sido muito corrido, nossa história de amor parecia ter tudo para dar certo. Elimário logo arrumou um emprego como pedreiro e alugamos uma casinha com a ajuda das nossas famílias. Tive que largar os estudos, mas estava feliz com a família que ia construir. Ainda mais porque meu namorado era presente e carinhoso. Ele vivia acariciando minha barriga. Nosso pequeno Hiago nasceu em novembro de 2000 e nossa vida se encheu de luz. Apesar das dificuldades financeiras, eu nunca tinha sido tão feliz! 
Meu irmão matou um homem, mas meu marido levou a culpa 
Só que, no ano seguinte, o Elimário perdeu o emprego e fomos viver na casa dos meus pais, onde também morava meu irmão, que seria a causa de todo o nosso sofrimento. No meio de 2002, ele pegou o punhal que o Elimário tinha desde criança e usou para assaltar a casa de um senhor de 81 anos. No meio do roubo, meu irmão acabou matando o homem e fugiu. A polícia recebeu uma denúncia anônima dizendo que o assassino estava na nossa casa e foi investigar. E aí o Elimário foi preso e acusado pelo homicídio. No dia seguinte, meu irmão foi pego, confessou o crime e explicou que seu cunhado não havia feito nada. Mesmo assim, o Elimário não pôde ser libertado. Ele já tinha sido acusado e teria que ficar preso enquanto não fosse julgado, pois o crime era hediondo. Dá para acreditar?! Mesmo inocente, meu amor teria que ficar na cadeia até que o juiz desse uma sentença. E isso não foi nem um pouco rápido! Começou, então, o pior período da minha vida.
Eu não podia nem queria abandonar o meu amor ali na prisão, sozinho. Por isso, ia visitá-lo toda quarta-feira e aos domingos, que eram os dias permitidos. Como o presídio ficava em outra cidade, encarava quase uma hora e meia de viagem para ficar perto do Elimário. Nunca vou me esquecer da primeira vez que estive lá, com nosso filho. Tive de esperar debaixo de um sol de rachar em uma fila enorme de mulheres. Quando finalmente consegui entrar, precisei passar por uma revista rigorosíssima. Olharam tudo, até as fraldas do Hiago! Só depois de ser revistada pude entrar no corredor das celas e encontrar o Elimário. Fiquei chocada com o estado deplorável daquele lugar, aqueles homens de todos os tipos, a sujeira, o espaço apertado... Senti vontade de chorar, mas me segurei. Jamais imaginei que um dia colocaria meus pés numa cadeia, muito menos para visitar o homem da minha vida.
Não tinha dinheiro para o advogado
E aquela foi apenas a primeira de muitas visitas. A sentença não saía nunca e Elimário continuava preso injustamente, por meses e meses. Como não tínhamos dinheiro para pagar um advogado, dependíamos da Defensoria Pública. Para piorar, eu precisava cuidar do Hiago e não tinha como trabalhar. Vivia da pensão que o governo dava para o nosso filho porque o pai estava preso. Minha única opção era rezar para que a justiça fosse feita. Enquanto isso, o Elimário foi mostrando dentro da prisão que era um bom homem. Assim, conquistou a confiança dos policias e passou a trabalhar na portaria da cadeia. Não era grande coisa, mas eu pelo menos podia vê-lo sem precisar ser revistada.
Nossa lua de mel foi na cadeia
Eu chegava em casa e chorava de tristeza, pensando na situação que vivíamos. Mas nada disso abalava o nosso amor. Teve um Natal em que ele conseguiu juntar uns trocados e mandou uma telemensagem romântica para mim. Foi lindo! Fiquei tão emocionada quando ouvi a declaração dele gravada pelo telefone. O Elimário era um homem perfeito: mesmo preso injustamente por culpa do meu irmão, não se rebelou ou perdeu a essência do seu caráter. Continuou sendo a pessoa por quem me apaixonei e que me encantava a cada dia. E foi por isso que aceitei quando ele propôs que nos casássemos. Eu também queria oficializar nosso amor. Para não haver constrangimento, resolvemos fazer algo mais íntimo, no cartório. Corri atrás de tudo: dos papéis para o casório até a liberação do juiz para que meu amor saísse da cadeia para ir à cerimônia. E tudo foi concedido! No grande dia, 26 de março de 2004, cheguei ao cartório ansiosa, acompanhada do meu filho, dos meus pais e dos padrinhos. Alguns minutos depois, Elimário chegou, numa viatura, vestindo terno e gravata. Fizemos nossas juras de amor e prometemos ficar juntos para sempre – eu sabia que ele ia sair da cadeia! Trocamos as alianças e, enfim, éramos oficialmente marido e mulher. Depois do beijo, no entanto, não pudemos ir para a lua de mel. Elimário voltou para a prisão e eu fui para casa. Nosso casamento aconteceu numa quinta-feira e só fui vê-lo de novo no domingo, para passarmos algumas horas juntos. Isso foi o mais perto que chegamos de uma lua de mel.
Finalmente meu amor ficou livre!
Alguns meses depois, ouço alguém batendo na porta da minha casa. Ao abrir, não acreditei no que vi: era o Elimário, com uma mala e sua televisãozinha nas mãos! Uma onda de alegria tomou conta de mim e me joguei sobre ele. Elimário me abraçou apertado e contou que havia recebido a sentença. Ele finalmente estava livre, com a ficha completamente limpa! Demorou, mas a justiça foi feita! Já meu irmão pegou 24 anos de pena, cumpriu quase 10 e já foi solto. Por sorte, meu marido conseguiu reconstruir sua vida logo. Arrumou trabalho como mecânico e voltou a viver comigo. Depois de dois anos e três meses preso injustamente, Elimário saiu da cadeia com a mesma pureza com que entrou. Não guardou rancor, não ficou amargurado. Até hoje, prestes a completar 17 anos juntos, ele é o galanteador por quem me apaixonei. Todas as visitas na cadeia e todas as lágrimas que derramei valeram a pena, pois sei que estarei com ele até que a morte nos separe.
Eline Brum, 32 anos, vendedora, Cachoeira de Itapemirim, ES

“A Eline me dava forças para não pirar” 
“Parecia um pesadelo. Eu era honesto, trabalhador e de repente estava na cadeia. Só o que me restava era tentar manter a cabeça no lugar. Só existiam dois dias bons na semana: quarta e domingo, quando eu podia ver a Eline e o nosso menino. Esperava por esses momentos ansiosamente. Era a única alegria que eu tinha ali dentro. A parte mais difícil era saber que eu era inocente. Passava todos os dias esperando a sentença e a liberdade chegarem, e nada. Juro que em alguns momentos desanimei. Achei que a justiça não seria feita e que eu passaria o resto da minha vida pagando por um crime que não cometi. Quem me dava forças para não pirar era a Eline. Eu me apegava ao nosso amor para continuar firme. Por isso, propus que nos casássemos. Claro que eu esperava me casar de um jeito mais bonito. Foi estranho chegar ao cartório na viatura, mas era importante para mim firmar nossa união. E parece que isso me deu sorte. Seis meses depois, um carcereiro me entregou um papel e disse: ‘Arruma suas coisas que você vai embora’. Nem acreditei! Saí da cadeia no fim da tarde e corri para a casa da Eline, doido para rever minha amada. Deus do céu, encontrar com ela fora da cela foi a melhor sensação do mundo! Depois disso, não nos desgrudamos mais. Até hoje tenho pesadelos com o que vivi, mas quero deixar essa história no passado!” 
Elimário Souza, 36 anos, mecânico, o marido da Eline

02/01/2017 - 15:30

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