Menstruar ou não: eis a questão!

Você pode escolher se funciona para seu corpo e qual método usar

Reportagem: Gabriella Gouveia

À esquerda Juliana, que curtiu o bloqueio e não se vê mais tendo ciclos. À direita Giovanna, que não pode nem lembrar da época em que deixou de menstruar | <i>Crédito: Shutterstock/Arquivo pessoal
À esquerda Juliana, que curtiu o bloqueio e não se vê mais tendo ciclos. À direita Giovanna, que não pode nem lembrar da época em que deixou de menstruar | Crédito: Shutterstock/Arquivo pessoal

Fluxo intenso, cólica, TPM forte...  É fácil de entender o porquê de um estudo da Universidade Estadual de Campinas (SP) ter revelado que 32,5% das mulheres gostariam de nunca mais menstruar, enquanto outros 40% sonham com uma “trégua”, espaçando os ciclos! A boa notícia é que, graças a métodos hormonais que interrompem a menstruação, ambos os desejos são realizáveis. A publicitária Juliana Vasconcelos adotou um deles e está feliz da vida (veja abaixo)! A notícia não tão boa? Em algumas mulheres, eles desencadeiam efeitos colaterais complicados – que o diga a estudante Giovanna de Santi (veja abaixo)!  

“Posso usar calça branca o mês inteiro”

 Comecei a parar de menstruar sem querer. Foi em 2013, quando dei à luz o Joaquim e minha médica receitou uma pílula anticoncepcional de uso contínuo – era a única que eu podia tomar sem interferir na amamentação. Nunca tinha pensado em parar de menstruar, sabe? Porém, foi tão maravilhoso me livrar das cólicas (eram fortíssimas!) e do inchaço que mesmo após parar de amamentar eu continuei com o medicamento. É bem verdade que minha pele deu uma piorada, tive até acne... Mas isso é nada, perto do alívio de estar há três anos sem as malditas dores de cabeça que me torturavam todo mês, durante a menstruação.

Minhas amigas sempre me perguntam como é a sensação e os caras quem saio querem saber se não sinto falta de algo tão “natural da vida”. Garanto: não tem nada melhor. Tão libertador, poder transar tranquilamente em qualquer momento do mês (mas continuo usando camisinha, claro, pois pílula não protege de doenças sexualmente transmissíveis) e usar calça branca sem receio de menstruar e passar apuro em plena rua!

Acho um retrocesso, algumas mulheres reclamarem de seus ciclos e não fazerem nada, terem medo de interrompê-los. Deviam ao menos experimentar... Minha médica diz que não há contraindicação e que, se me sinto bem, posso seguir assim por tempo indeterminado. Vou mesmo, pois se a medicina oferece alternativas para aliviar o que nos incomoda, temos mais é que usar ao máximo!

Juliana Vasconcelos, 26 anos, publicitária, São Paulo, SP

 

“Não conseguia sentir cheiro de homem”

Comecei a parar de menstruar em 2009, por necessidade médica. Aos 17 anos, uma endometriose e um cisto desencadearam uma hemorragia que me levou à mesa de cirurgia. Um ano depois, um novo cisto quase me fez perder os ovários – fui parar novamente na sala de operações, num procedimento que demorou três horas! Passado o susto, minha ginecologista pediu que eu começasse a usar pílula anticoncepcional para controlar os efeitos dos distúrbios hormonais. Ela recomendou, ainda, que eu emendasse as cartelas sem pausas, interrompendo a menstruação. Afinal, sem ovular, as chances de sangramento eram menores.

Nos dois primeiros meses me senti realizada. Era ótimo não sentir cólicas monstruosas nem sofrer com o fluxo intenso, ir à praia sempre que queria... Parecia tão perfeito que até indiquei o método para algumas amigas! Mas a partir do terceiro mês o paraíso virou inferno! Vieram a irritação, a retenção de líquido, as espinhas, os quilos a mais. Comecei a ficar tão enjoada pela manhã que parecia estar grávida! E o pior: perdi totalmente a vontade de transar, minha libido tinha ido embora! Não podia nem sentir cheiro de homem. Não conseguia chegar perto do meu então namorado!

Contei tudo para a minha ginecologista, que insistia no tratamento. Aguentei por seis meses e decidi parar por conta própria. Mesmo sem o uso da pílula, fiquei outros seis meses sem menstruar. Viu só, como  anticoncepcional mexeu com o meu organismo? Emendar cartelas definitivamente não funcionou para mim!

Já faz dois anos que voltei a menstruar normalmente. Uso um anticoncepcional com dosagem hormonal mais baixa. Faço as pausas regradas e olhe lá, pois ficar sem menstruar eu não quero mais! Sim, sinto cólicas, mas tomo remédio e passa.

Acho uma bobagem as mulheres interromperem os ciclos apenas por não gostarem de menstruar. Anticoncepcional sem pausa é uma bomba hormonal no corpo! Sim, cada organismo reage de um jeito, mas é muito hormônio de qualquer forma. Daí a importância de acompanhar com um especialista.

Giovanna de Santi, 25 anos, estudante, São Paulo, SP

 

Da Redação

 

Qualquer bloqueio hormonal pode ter efeitos colaterais

Interromper o ciclo menstrual tanto pode ser a salvação para o desconforto de muitas mulheres quanto pode servir de tratamento para algumas doenças (exemplo: endometriose). “Toda mulher pode bloquear a menstruação, mas a técnica geralmente é recomendada quando a paciente tem muitos sintomas indesejados, como fluxo intenso, cólicas, TPM e dores de cabeça”, explica a ginecologista e obstetra Heloisa Brudniewski.

Pílula de uso contínuo, implantes subcutâneos e DIU Mirena são exemplos de métodos anticoncepcionais que, graças à maior dosagem hormonal, são usados para o bloqueio. 

Alguns contraceptivos de baixa dose empregados sem interrupções também são usados para o bloqueio, mas podem não conter eficientemente o ciclo, permitindo escapes indesejados. Há, ainda, casos específicos de endometriose que são tratados com progesterona (uma medicação hormonal sem pausas, para tratar cólicas e dores durante as relações sexuais, sintomas da doença).

De acordo com a especilista, a técnica não possui um prazo. A mulher pode ficar sem menstruar por tempo indeterminado. Mas Heloisa adverte quanto ao bloqueio prolongado: “Independentemente do método, chega um momento que podem surgir perda da libido, inchaço e aparecimento de varizes”.

Daí sempre ser imprescindível um acompanhamento médico.“Emendar uma vez ou outra não tem problema, a questão é quando a paciente começa a se automedicar ou utiliza o método da amiga sem passar por uma consulta”, finaliza a médica.

21/12/2016 - 19:12

Conecte-se

Revista Sou mais Eu