Me deram três meses de vida; estou viva há 11 anos!

Hoje sou nadadora paralímpica e não pretendo ir embora tão cedo...

Reportagem: Caroline Cabral

“Um corpo saudável não me traria até aqui” | <i>Crédito: Marcio Rodrigues
“Um corpo saudável não me traria até aqui” | Crédito: Marcio Rodrigues

"Você vai morrer daqui a três meses", cravou um dos tantos médicos que teimavam em determinar minha data de validade. Era 2005 e eu havia acabado de ser diagnosticada com MSA, doença degenerativa de múltipla falência dos sistemas. Nos quadros mais otimistas, após manifestá-la, os pacientes vivem por três anos. O sistema nervoso definha pouco a pouco, levando embora a mobilidade e tudo o que ela possibilita. Mais do que me forçar a largar a natação, a corrida e as pedaladas que tanto amava, a doença me privou de trivialidades como escovar os dentes e pentear o cabelo sozinha. Eu me perdi de mim. Por quatro anos tudo o que fiz foi chorar, com dó da mulher atrofiada que me encarava no espelho. Quando percebi que lágrimas não levariam a MSA embora, voltei à piscina... E nela me reencontrei. Lá se vão 11 anos, muito mais tempo do que qualquer doutor ousou prever. E cá estou eu, conquistando o pódio paralímpico de natação pelo Brasil. Indo mais longe do que talvez jamais me levaria o corpo livre de MSA que habitei um dia.


Encontrei minha “cura” na piscina


Sou formada em educação física, já fui nadadora convencional e participei de 13 Ironman – prova de triathlon que inclui 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida. O esporte está no meu DNA. Enquanto as meninas usavam as bonecas para brincar de casinha, eu pintava uniformes nas minhas e as fazia competir. Treinar desde os oito anos me garantiu os títulos de campeã gaúcha e recordista dos 400 metros e 800 metros livre, 200 metros borboleta e 400 metros medley. É, eu me realizei muito na piscina – e tive três lindos filhos fora dela.


Só que a vida não pede passagem e, de uma hora para outra, tudo ruiu. Começou com meu casamento de 12 anos sendo vencido pelo desgaste. Em meio à dor da separação inesperada e com uma filha pequena nos braços, passei a sofrer com estranhos engasgos. Os primeiros médicos diagnosticaram esses sufocamentos como síndrome do pânico. Duvidei. Sentia que não era algo passageiro. E estava certa.


Em questão de semanas, eu, que corria e pedalava o dia inteiro, passei a fazer força até para falar. Foi quando descobriram: eu tinha MSA. A doença se manifestou de forma tão agressiva que alguns especialistas me deram de três a seis meses de vida. Todo mundo sabe que vai morrer, mas ter data para isso acontecer mexeu com a minha força interior. Apagaram minha luz.


Passei por todas as fases do luto. Negação, raiva, autopiedade... Ora, como não sentir pena de mim, quando tive de mandar meus filhos irem morar com o pai, em 2007? Na época, eu precisava de ajuda até para levar o garfo à boca. Já não conseguia cuidar de mim, imagina de três crianças! Foi o pior dia da minha vida. Voltar para casa e encontrar os brinquedos deles espalhados pelo chão... Descrente, escrevi cartas de despedida para cada um. Hoje, cada dia sem entregá-las é uma vitória!


O tratamento englobava remédios, antidepressivos e fisioterapia. Os médicos insistiam para que também fizesse hidroginástica. Só cedi em 2008, quando cansei de ter dó de mim mesma. Em 2010, um treinador me viu na aula e sugeriu que eu tentasse o esporte de maneira profissional. Já curada da depressão, topei. Em dezembro do mesmo ano viajei para o Canadá para minha primeira competição paralímpica. Venci os 400 metros livres e 200 metros medley. Era dia 25, Natal. E eu me dei de presente uma nova Susana, que vive em mim até hoje.


Eu escolheria passar por tudo de novo


Perder a capacidade de me bastar para o trivial me trouxe novos valores. Acordar virou uma dádiva. Vibro com pequenas conquistas diárias, como conseguir assinar meu nome sem ninguém por perto para segurar o papel. Aproveito e agradeço cada segundo de vida.


Levo uma rotina ironicamente corrida. Levanto antes das 6h para tomar a medicação do dia. Como fico enjoada na sequência, tiro uma horinha para meu corpo melhorar. Treino das 8h30 ao meio-dia. Vou para casa no meu próprio carro, compro meu almoço e descanso por uma hora. Às 16h30, já estou na piscina de novo e lá fico até às 19h. Volto, janto e me preparo para dormir e começar tudo de novo.


A rigidez muscular me obriga a fazer muita força para mexer o lado esquerdo do corpo. Tenho só 40% da capacidade respiratória – falar é um esforço! – e sofro de distúrbio de sono. Mas não reclamo: estou viva. Os médicos desistiram de fazer previsões, pois elas não me norteiam. Como você e todo mundo, enfrento meus medos diariamente. A diferença é olhar nos olhos deles, não deixar que me dominem.


E se por isso eu inspirar uma pessoa que seja, já valeu mais do que qualquer medalha. Como diz meu filho: “Mãe, teu sonho não é mais só teu, é de muita gente que nada com você”. Pois quando mergulho levo todos que acreditam em mim para a raia. Puxo o ar com mil pulmões! Se pudesse escolher entre a Susana de antes e a de agora, eu passaria por tudo de novo. Assim como a Susana livre da MSA não estaria aqui contando que chegou ao pódio Paralímpico Rio 2016 para receber a medalha de prata no revezamento misto 4 por 50 metros ao lado de três feras: Daniel Dias, Clodoaldo Silva e Joana Silva. Ali, nosso time venceu. E cada um de nós vence diariamente.


Susana Schnarndorf, 48 anos, nadadora paralímpica


22/09/2016 - 19:44

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