Limpar banheiro me fez virar patroa!

Varri, lavei, esfreguei e passei muita coisa até abrir meu próprio negócio

Reportagem: Caroline Cabral

Montei uma equipe para terceirizar a limpeza! | <i>Crédito: arquivo pessoal
Montei uma equipe para terceirizar a limpeza! | Crédito: arquivo pessoal

Reclamar nunca foi meu forte. Nasci em uma família humilde e entendo o que é trabalho desde os 12 anos, quando comecei a colher café com a minha mãe. Assim que completei 15 anos, me deparei com o primeiro grande impasse da vida. Vi mamãe perder a visão para a diabete. Troquei os livros e a sala de aula por bandejas em um restaurante de hotel. Foi meu primeiro emprego oficial e, desde então, não deixei de trabalhar um dia sequer. Sem formação, minha experiência virou meu diploma. E foi com esse certificado da vida que deixei de ser faxineira e me tornei patroa.

Meu suor garantia a comida de casa

         Fui criada em Poços de Caldas, cidade bem turística de Minas Gerais. Rapidamente encontrei uma vaga de garçonete e a abracei. Servir os outros garantia comida na mesa de casa, minha vida dependia daquele emprego. Tanta dedicação logo me rendeu bons frutos. Com apenas 17 anos fui convidada para trabalhar em um hotel de São Paulo como camareira. Precisei sair de casa, mas o salário valeu o esforço. Ele não só quitava meu quartinho numa pensão como bancava papai e mamãe em Minas. Diariamente, limpava mais de 20 quartos: lavava banheiros, trocava roupas de cama e repunha os itens do frigobar. A rotina era cansativa, mas desistir nunca foi uma opção. Meus olhos, ainda que cansados, já miravam um objetivo maior: abrir meu próprio bar para atender clientes como quem recebe bons amigos em casa.

Minha espinha gelou quando, dois anos mais tarde, meu chefe me ofereceu uma promoção. Com 19 anos me tornei Governanta de um hotel cinco-estrelas! Passei a ser responsável por administrar toda a área de limpeza e alimentação do estabelecimento. Criei amor pelo que fazia, dediquei meu coração ao treinamento das equipes e isso fez diferença no roteiro da minha vida. Na mesma época conheci meu marido, o Eduardo. Ele era diretor financeiro de outra rede de hotéis. Juntos, alugamos um apartamento em São Paulo, um cantinho só nosso! Também foi com ele que tracei planos para um dia abrir o tão sonhado boteco e tive minha princesinha, a Laura.

Era governanta de um cinco-estrelas, de repente estava limpando cocô

A vida editou minha história e, olhando pra trás, eu mesma não teria planejado uma trajetória tão digna e bonita. Em julho de 2015 fui demitida do hotel, depois de 25 anos de serviço. A crise econômica veio como uma avalanche em casa: o Eduardo também perdeu seu emprego. Não tínhamos tempo para sofrer. Nossa filha era nossa maior preocupação e também a alavanca que nos levantava a cada rasteira pelo caminho. Tive a ideia de distribuir panfletos pelo bairro, oferecendo serviços de limpeza. Mandei imprimir 2,5 mil cópias e entreguei pelas casas da região. Também deixei montinhos em padarias e salões de beleza. Meu foco estava nas madames!

Um dia depois, meu celular tocou. Era meu primeiro cliente, o seu Eduardo. Ele precisava de uma faxina das boas, agendamos para a mesma semana. Cobrei R$ 150 e fiz tudo bem direitinho, como uma boa Governanta. Assim que encontrou a casa impecável, ele me pediu para voltar semanalmente. Minha rede de clientes começou a se formar assim. Limpei pequenas quitinetes, grandes mansões e banheiros imundos, de torcer o nariz para entrar. Em todos esses lugares, prestei meu serviço com a mesma excelência. Minha postura virou meu cartão de visita.

Montei uma empresa e abri meu bar!

Sem tempo para panfletar, anunciei meus serviços em um site. Investi R$ 69 em setembro do ano passado e tive um retorno imensurável. A demanda por profissionais de limpeza bem treinadas era enorme, eu não daria conta de atender tantos pedidos. Foi então que recrutei minhas ex-colegas de trabalho para a missão. Montei uma equipe, treinei uma por uma e terceirizei o trabalho. Nasceu a Sodate Soluções! Nosso diferencial é o atendimento, meu time sabe que um cliente satisfeito é um cliente fiel. No começo éramos 12, no melhor mês de 2015 contei com 20 meninas e hoje somos em 60!

Administrei a Sodate até maio deste ano, quando comecei a me dedicar ao projeto do barzinho. Meu marido ficou responsável pela empresa e eu pude ir atrás de sonhar. Pesquisei estilos para a decoração e me apaixonei pela pegada retrô! Escolhi cada detalhe, da cor da fachada às letras do menu. Foi uma delícia planejar centímetro por centímetro do nosso boteco. Alugamos um espaço na Rua da Consolação, uma das regiões mais movimentadas do centro de São Paulo. É pequeno e simples, mas é de uma delicadeza sem igual! Inauguramos há uma semana e a cada dia me sinto mais vencedora. Todo cliente é recebido como um grande amigo e tratado com a gentileza que as pessoas merecem. Depois de ser olhada de cima por tanta gente, aprendi que enxergar os outros como iguais é um gesto de respeito. E foi com esse respeito e muita dedicação que cheguei aqui e pretendo ir muito além.

Até o portão recebeu um tratamento Retrô!

Minha ideia é que a Sodate continue crescendo, assim como o Retrô, meu grande xodó. Quero que o bar vire uma marca conhecida para que eu possa abrir novas unidades pela cidade. Preciso melhorar bastante, aprender na escola da vida a ser dona de um negócio. Tem chão pela frente, viu? Mas vira e mexe paro diante do espelho, descanso as mãos no quadril e lembro das sujeiras que já encarei. Parece que dá para sentir o gosto. Respiro fundo e digo: a senhora ainda vai longe, patroa!

Ivana Aparecida da Silva, 45 anos, autônoma, São Paulo, SP

16/09/2016 - 22:08

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