Ela atuou em uma série da Globo: "Meus 15 minutos de fama quase me destruíram"

A fama é uma amante cruel. Num momento, Jaqueline Simão era atriz da Globo. De repente, ninguém lembrava mais dela...

Reportagem: Caroline Cabral

JAQUELINE SIMÃO | <i>Crédito: TV GLOBO / ZÉ PAULO CARDEAL; JORGE BEIRIGO
JAQUELINE SIMÃO | Crédito: TV GLOBO / ZÉ PAULO CARDEAL; JORGE BEIRIGO
Carrego pra vida a certeza de que nasci pra ser alguém. Aos 20 anos fui paga para cantar num festival de rap e percebi que não era só eu que gostava da minha voz. Assim nasceu Quelynah, pronta para o sucesso. Assim como outras pessoas da comunidade onde nasci, Heliópolis, sempre acreditei no meu potencial. O que eu não sabia é que a fama é uma amante cruel. Se num momento você está na frente das câmeras e estourando nas rádios, pode ser esquecida no momento seguinte. Foi o que aconteceu comigo. Fui selecionada para um dos papéis principais do filme Antônia, em 2006, que bombou tanto que virou série. Estrelei a versão da TV e, por alguns meses, fui atriz da Globo. Quer mais ou tá bom assim? Só que, ao contrário do que eu pensava, isso não bastou para alavancar minha carreira. E, depois de estar no topo e provar os 15 minutos de fama, fui ao fundo do poço com uma depressão. Me reergui, mas antes precisei aprender algumas coisas importantes... 

Gravei na Globo e achei que a vida estava ganha

Todos os acontecimentos da minha vida me levaram a crer que a fama estava ao alcance da minha mão. Ninguém nega que sou boa cantora e tenho carisma. Aos 20 anos, virei vocal de apoio do Alexandre Pires. Em 2002, participei do programa Popstar, do SBT, e quase ganhei. Meu destaque nesse show que fez com que eu caísse no radar de uma diretora, que me chamou para participar do teste para o Antônia em 2006. 

As coisas aconteceram naturalmente, sem que eu tivesse que correr muito atrás. E às vezes é assim mesmo nesse mundo da TV, mas fiquei malacostumada. Achava que bastava estar numa vitrine para que agentes e produtores viessem atrás de mim. Estava tão focada em ganhar visibilidade que não liguei para o cachê simból i c o que me pagaram: R$ 7 mil por um ano. E foi trabalho pesado. Se não tinha gravação tinha aula de interpretação, ensaio de texto e por aí vai. Quelynah ia brilhar muito! 

Olha, brilhei. O filme fez tanto sucesso que a Globo transformou o roteiro em série. O cachê aumentou: R$ 21 mil por quatro meses de filmagem. Aí sim! Me mudei para o centro de São Paulo pra aguentar o tranco, sentindo que estava subindo na vida. Nessa época, conheci a Negra Li, a Sandra de Sá, os meninos da banda Racionais MCs, do IRA!... Minha música tocava em rádios de comunidades do Brasil todo, revistas e jornais me convidavam para dar entrevista e as pessoas me conheciam na rua. “Daqui pra frente é só subida”, pensava. 


Depois do seriado, me colocaram na geladeira...

Não sei se cometi algum erro. Talvez meu único pecado tenha sido ter expectativa demais. Só sei que as coisas não aconteceram como eu esperava. Assim que as gravações acabaram, me vi na geladeira. Cheguei a ser cantora convidada dos Racionais, mas depois disso ninguém me procurou. Fiz contato com algumas pessoas que conheci nas filmagens e pedi indicações, mas elas diziam que “iam ver” e nunca retornavam. Cheguei a pedir para uma famosa levar meu disco à gravadora dela, mas ela se recusou. E pensei que fôssemos amigas... Eu não entendia como, depois de aparecer na maior vitrine do Brasil, a Rede Globo, tinha sido descartada daquele jeito. Que decepção. 

Deprimida e só, entendi que só talento não basta

Um ano depois, fiquei sem dinheiro e voltei para a casa da minha mãe na comunidade. Por quatro meses, trabalhei como atendente de telemarketing ganhando R$ 500 por mês. Mas aquilo estava aquém do meu talento, então não aguentei. Mas a real é que não queriam me contratar nem como auxiliar de cozinha. 

Fiquei cada vez mais desanimada. Parei de me maquiar e arrumar o cabelo. Acordava, olhava o Facebook, comia e voltava a dormir. Chorava todos os dias. Ninguém me procurou para saber como eu estava ou se precisava de ajuda. Decretei o fim da Quelynah. Foi assim por meses, até que minha mãe achou que eu estava com depressão e me levou a um médico. Ela estava certa. Aí, passei a tomar remédios. Pensei muito nessa fase e, conforme meu humor melhorava, amadureci meu olhar. Sim, eu tinha tomado uma rasteira da vida, mas aquele não era o fim. Entendi que a gente não pode esperar as pessoas nos procurarem e não pode contar só com alguns poucos contatos. Eu achava que as coisas iam “acontecer”, mas é a gente que cria nossas oportunidades. E temos que correr atrás o tempo todo! Também não dá para chamar qualquer um de amigo. Essa palavra é reservada a poucos. E talento é essencial, mas não basta. O sucesso pede suor. 

Voltei a cantar e gravei um CD. Fiz tudo na raça!

Demorei para expulsar a depressão, mas voltei. E recomecei de baixo mesmo. Cavei shows e canto onde conseguir. Já vi que vida de artista de fácil não tem nada, ainda mais para uma mulher negra da periferia. Por isso, em vez de esperar alguém me descobrir, juntei dinheiro para gravar um CD. Banquei estúdio e produtor sozinha, além de mil cópias. Vou vendê-las na internet por R$ 5 cada. Graças ao meu álbum, já fiz show em São Paulo e vou cantar em Porto Alegre. Venci a dificuldade, perdi minhas ilusões e usei isso de inspiração. Acho que as pessoas se identificam porque tenho sonhos e fé, mas mantenho os pés no chão. Quelynah está de volta e tem muito o que falar. Me aguardem! - JAQUELINE SIMÃO, 33 anos, cantora, Heliópolis, SP

Fotos: TV GLOBO / ZÉ PAULO CARDEAL; JORGE BEIRIGO

02/09/2015 - 09:45

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