Agradeço Deus por ser gorda!

Sou gorda, linda e feliz; ser obesa não oprime minha beleza

Reportagem: Gabriella Gouveia

Crédito: Felipe Menegoy/Guto Campos" title=""Meu papel como miss é servir de exemplo. Sou inspiração para várias meninas que não se aceitam e, por isso, têm a autoestima baixa" | Crédito: Felipe Menegoy/Guto Campos">
"Meu papel como miss é servir de exemplo. Sou inspiração para várias meninas que não se aceitam e, por isso, têm a autoestima baixa" | Crédito: Felipe Menegoy/Guto Campos

Nunca fiz dieta. A única época que não fui feliz com o reflexo no espelho foi há treze anos, depois de engordar muito na gravidez do meu filho. Deixei de cuidar de mim. A balança marcava 116 kg e eu sentia dificuldade até para achar o ar, fora o sedentarismo: não praticava exercícios físicos. Vaidosa desde que me conheço por gente, optei pela minha saúde e estética. Emagreci 20 kg só com reeducação alimentar, me matriculei em uma academia e de quebra ainda fiz uma abdominoplastia – e nada disso para ser magra, continuei gorda e é assim que sou feliz!

A chance de ser uma grande estrela gorda

Era janeiro de 2015 quando fiz uma busca online por tendências de moda para pessoas acima do peso. Apertei o enter e dei de cara com um link do concurso Miss Plus Size Nacional por Eduardo Araúju. Nem sonhava que uma gorda poderia participar de concursos de beleza, ainda mais para ser miss. Decidi me inscrever. Era minha chance de virar uma estrela. Me encaixei bem nas duas exigências para participar do concurso: ser maior de idade e vestir manequim acima de 46. Batata! Já tinha visto fotos de outras misses – magras – e me imaginava no lugar delas, só faltava eliminar umas dezenas de quilos...

Uma semana depois de me inscrever recebi a resposta de que tinha sido selecionada para a primeira fase. A etapa estadual do Rio Grande do Sul seria na cidade de Bagé. Foi uma sensação maravilhosa, fiquei arrepiada. A partir daí comecei a preparação intensa para competir. Independente do tamanho do manequim, trata-se de um concurso de beleza; a saúde precisa estar em primeiro lugar. Por isso, os jurados escolhem as mulheres que se cuidam! Disposta a levar o título nacional, peguei pesado na academia, fiz drenagens, cuidei da pele e do cabelo. Em março do último ano participei das provas eliminatórias e concorri à vaga para a final contra 15 gaúchas. A avaliação dos jurados começou desde o momento que fui selecionada. Eles analisaram as postagens das candidatas no Facebook e tinham jurados infiltrados para espiar nosso comportamento fora do concurso... um reality show sem câmeras.

Gorda e modelo: brilhei na passarela!

Conquistei a vaga para a final do concurso, que rolou no Rio de Janeiro. Meu coração foi a mil. Era mais um passo na trilha para ser reconhecida por profissionais. Dia 26 de novembro estampei um sorriso largo no rosto, abarrotei a bagagem de esperança e fui em busca do meu sonho. Dessa vez, competi com 14 candidatas do Brasil. A concorrência era grande, mas sabia que tinha me preparado para ganhar; a vitória era a única possibilidade. Na primeira noite na cidade maravilhosa turistei: conheci os cartões postais do Rio.

No dia seguinte me dediquei aos preparativos do evento, com ensaios, coreografias e a tão esperada chegada ao palco. Desfilei com três trajes: típico (onde a desenvoltura e a vestimenta são analisadas), maiô (categoria que leva em questão beleza corporal e facial) e gala (puro charme, mede a elegância e postura de cada modelo). Preparei uma apresentação específica para meu traje típico e fiz o maior sucesso! A plateia levantou para aplaudir, me senti honrada. Foi quando senti que o prêmio era meu. Depois dos desfiles, a grande notícia: “Sheila Dornelles, representante do Rio Grande do Sul é a primeira Miss Plus Size Nacional!” Sim, eu mesma! Senti as pernas bambas, meus olhos cheios de lágrimas e o coração a milhão. É impossível transmitir o sentimento que me tomou naquela noite. Foi como um dever cumprido, a realização de um sonho. Toda minha vida me preparou para receber aquele título. De quebra, ainda arrematei uma viagem para Dubai! Ser gorda nunca foi tão vantajoso.

Conquistei minha autoestima depois de muita discriminação

Vou te dizer que já sofri muito preconceito, a sociedade é cruel. Uma vez fui comprar um presente para minha irmã, supermagrinha. A vendedora sequer me atendeu, chegou metralhando “não trabalhamos com seu tamanho aqui”. Foi muito dolorido, fiquei tão machucada que saí sem dizer uma palavra. Sempre fui gordinha e soube lidar com isso, mas algumas situações me revoltaram. No colégio, fui excluída de competições esportivas por duvidarem da capacidade da gorda. Parece que gordo não corre, né?

Hoje eu lido com o preconceito de forma diferente. Penso que as pessoas só fazem com a gente aquilo permitimos. Agora, meu maior sonho é ser uma modelo reconhecida internacionalmente. Meu papel como miss é servir de exemplo. Sou inspiração para várias meninas que não se aceitam e, por isso, têm a autoestima baixa. O peso na balança não define caráter ou beleza, quem manda nisso é sua cabeça. Acredita, bonita!

Sheila Dornelles, 33 anos, cabeleireira, Xangri-lá, RS

22/12/2016 - 17:53

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