A diabetes me fez perder a faculdade de medicina

Conquistei minha vaga em um curso fora do país, mas fui obrigada a largar o sonho de ser médica por não conseguir enxergar

Reportagem: Gabriella Gouveia

Perdi o curso de medicina, não a vontade de ser médica | <i>Crédito: arquivo pessoal
Perdi o curso de medicina, não a vontade de ser médica | Crédito: arquivo pessoal

Eu era uma criança quando descobri a diabetes. Bancária, mamãe trabalhava o dia todo e me deixava sob a tutela de vovó. Foi ela quem notou algo de estranho comigo. Com apenas 10 anos, comia demais, sentia muita sede e havia secado 10 kg em um mês. Bastou ouvir esses sintomas para que a pediatra logo suspeitasse de diabetes e pedisse os exames. Assim que o resultado saiu, recebi uma ligação da doutora. Ela não me deixou comer mais nada e ainda pediu uma segunda bateria de testes para a manhã seguinte, quando a suspeita foi confirmada.

Há 21 anos, controlar a doença era um desafio para minha mãe. Eu precisava comer alimentos integrais e não podia chegar nem perto de açúcares. Todo santo dia, antes de comer, mamãe aplicava insulina no meu braço e media a glicemia com uma picada no dedo. No início eu só sofria por não comer docinhos nas festas infantis. As outras crianças me olhavam estranho por ter tantas restrições. Nunca imaginei que essa doença, aparentemente controlada, poderia evoluir e arrancar de mim o sonho de ser médica.  

Acordei cega na virada do ano

Convivi com a diabetes por 15 anos e acabei me acostumando com as limitações. O pesadelo mesmo começou em 1º de dezembro de 2011, quando descobri o edema macular diabético. Como em todo revéillon, aproveitei a noite de ano novo com minha família, que é enorme! Comi e bebi bastante. Abri os olhos em 2012 vi tudo completamente embaçado. Eu já tinha miopia, o que dificultava o alcance da minha visão, então pensei que meu grau tinha aumentado. Coloquei os óculos e nada de enxergar melhor. Fiquei desesperada, minha visão estava cinza! Não conseguia reconhecer a forma definida das coisas do meu próprio quarto. Gritei pela minha mãe que me levou ao hospital na mesma hora.

Na consulta, passei pelo mapeamento de retina, onde detectaram a retinopatia diabética, causada pelo excesso de açúcar no sangue. O médico disse que era algo comum entre os diabéticos, mas que eu não podia esperar nem um dia para tratar, aquilo poderia me deixar definitivamente cega.

A doença evolui rapidamente e já estava em um estágio avançado. Iniciei o tratamento imediatamente. Fiz sessões de laser e logo em seguida apliquei injeções. Na época não existia um medicamento específico para minha doença. Usei o mesmo remédio para quem tem problema oncológico na retina. Um ano e meio depois foi lançado o medicamento ideal para tratá-la, o Lucemcis, a um custo altíssimo, cerca de R$ 7 mil. Como a vigilância sanitária não tinha aprovado a medicação ainda, meu plano de saúde decidiu não cobrir o valor. Sem opções, minha mãe pegou um empréstimo no banco para curar minha cegueira repentina. Mesmo seguindo o tratamento corretamente, a doença avançou a passos largos. Tive medo de chegar em um quadro irreversível e ficar cega para sempre.

Mesmo enxergando pouco, segui o sonho da faculdade de medicina

Aluna exemplar desde que me entendo por gente, tentei uma vaga no curso de medicina de uma faculdade da Argentina. Lá, o processo seletivo exige menos preparo do que aqui no Brasil. No final de 2012, fiz uma prova de espanhol para garantir meu lugar. Foi terrível, achei que não fosse passar. Foi a primeira vez que vi a chance do meu diploma indo embora. Não consegui escrever nada no teste. Mal enxergava as letras e o papel. Tive que remarcar o exame, meu tratamento estava muito intenso. Em 2013 finalmente fui aprovada no teste de língua passei um mês e meio fazendo um curso preparatório na universidade para prestar o vestibular. Sentava na primeira carteira e mesmo assim não enxergava a lousa. Voltei ao Brasil para mais uma aplicação do medicamento e retornei para a Argentina para fazer a prova final. Foram meses nesse vai e vem cansativo mas necessário, afinal, era minha carreira em jogo.

Fui aprovada e comecei o curso em Buenos Aires, na Argentina. Lá, morei sozinha, o que era complicado por causa da visão. Quando saía na claridade não conseguia enxergar nada, caí na rua várias vezes. Vivia de óculos escuros e tinha medo até de atravessar na faixa por não ver os carros de longe. Descer e subir escadas se tornou um pesadelo. Quebrei o cóccix uma vez, por pisar em falso numa festa. Não conseguia assistir filmes, nem seguir com as aulas.

A cada um mês e meio, voltava para o Brasil para fazer as aplicações do medicamento. Perdi aulas práticas, teóricas, provas e os casos que víamos dentro do hospital. Ainda em 2013, voltei ao Brasil para fazer minha primeira cirurgia no olho esquerdo. Tive hemorragia intensa na retina. Por causa do nível de inchaço dos vasinhos, eles romperam e foi preciso cauterizá-los. Logo depois do procedimento tive problemas com a cicatrização na córnea por conta da diabetes. Tanto tratamento deixou minha pálpebra caída e eu fiquei estrábica! Em 2014 operei o olho esquerdo novamente. Meu quadro melhorou, mas o médico achou necessário repetir o procedimento para cessar o sangramento.

Cursar medicina exige muita dedicação e estudo. Era preciso ler muito e estudar meses a fio antes de cada prova. Sem conseguir enxergar direito, era impossível fazer os testes. Fora isso, caminhava até o hospital onde tínhamos aulas práticas e ele era longe. Por ser diabética, sentia minhas pernas queimarem o caminho todo. Fiz amigos na faculdade e saí bastante lá na Argentina. Quando precisava ir à farmácia ou comprar alguma coisa, sempre contava com essas pessoas para me acompanhar.

Estava no meu limite: abandonei o curso

O aluguel do apartamento que eu morava aumentou e eu já não conseguia mais cobrir as despesas. Em 2014, seis meses antes de retornar ao Brasil, tive que vender minhas coisas e fui morar com meu namorado. Ele tinha um mercado e eu o ajudava. Não gastava nada morando na casa dele e por isso trabalhava no comércio para ajudar nas despesas do lar.

Foi acumulando tanto problema de saúde que sozinha simplesmente não conseguia mais dar conta de viver. Tinha pavor de perder a visão. Muitas vezes chorava por medo de ficar cega. Cheguei a questionar se teria algum médico capaz de realmente me ajudar. Conversei com a minha mãe e ela me pediu para voltar ao Brasil. Assim, ela poderia cuidar de mim. Ela via meu sofrimento, sabia que eu queria estudar, mas minha maior prioridade deveria ser o tratamento. Muitas vezes tive conflitos de agenda: provas marcadas na Argentina e aplicações no Brasil, tudo no mesmo dia. Não podia adiar as sessões, pois corria o risco da doença evoluir. Já cheguei a pegar um voo de volta para a Argentina minutos depois de passar pela aplicação, só para não perder outra prova.

Frente a tanto desgaste físico e emocional, resolvi trancar o curso de vez. Voltei para casa com quatro malas, alguns pertences de estudo e meu maior sonho incompleto. Larguei minha família para estudar e, depois de passar por tantas etapas, me vi obrigada a largar a medicina pelo bem dos meus olhos.

Voltei pra casa sem diploma

Senti um vazio e uma tristeza enorme. Sabia que tinha feito tudo que estava ao meu alcance, mas a solução para a minha doença não dependia só de mim. Me agarrei na fé e fui muito positiva. Mesmo sofrendo, não me deixava abater, confiava muito no meu médico e sabia o quanto ele era profissional. Meu tratamento certamente era o melhor.

Há um ano e meio comecei a usar o Eylia, o medicamento mais recente para tratar minha doença. Fiz duas aplicações e consegui retomar 60% da visão do olho esquerdo, que é o que tenho hoje. Antes eu não conseguia definir o formato das coisas e cheguei a ficar com apenas 5% de visão. Agora consigo ler, atravessar a rua, me maquiar, ir ao cinema e enxergar placas. No olho direito, que antes só enxergava 20%, fiz duas aplicações do medicamento - uma em outubro e outra em novembro. Hoje tenho 80% de visão nele.

Ainda quero ser doutora

Meu conselho para aqueles que convivem com a diabetes é que a tratem de forma constante e responsável. Não negligencie a doença. Perder 5 minutos em um oftalmologista uma vez por ano para acompanhar o caso não é nada perto do desenvolvimento nocivo que ela pode surtir. São muitos os casos de cegueira e às vezes a doença pode ser irreversível. Por isso, é necessário controlar a glicemia.

Hoje, sigo atrás da profissão que escolhi. Prestei o ENEM e pretendo retomar os estudos de medicina ano que vem. Mesmo com medo de perder a visão, jamais perdi a vontade de vencer a doença e de honrar meu sonho: curar pessoas vestindo um jaleco branco.

Luciana Martines, 31 anos, estudante, Votorantim, SP


DA REDAÇÃO

Edema macular atinge de 10% a 15% dos diabéticos

O edema macular diabético é causado pelo excesso de açúcar no sangue, que gera o inchaço da macula, área central da visão, responsável pelo foco. Ele precisa ser tratado e diagnosticado precocemente, já que causa prejuízos à visão. O principal sintoma é a visão embaçada e desfocada.

Segundo o oftalmologista especializado em doenças da retina e vítreo, Dr. Arnaldo Bordon, os pacientes costumam achar que o grau de miopia aumentou, quando na realidade já estão sofrendo da doença.  “Quanto mais tempo o paciente tem diabetes, maiores são as chances de desenvolver os problemas de visão. O resultado do tratamento depende do diagnóstico e início imediato do processo”, esclarece Bordon. Ainda de acordo com ele, estima-se que 10% a 15% dos diabéticos adquirem o edema.

“É primordial a assistência médica e prevenção do diabético mesmo que não haja nenhum sintoma de visão alterada. Os diabéticos tipo 2, caracterizados por adultos, precisam ir ao oftalmologista uma vez por ano logo que diagnosticada a doença. Dessa forma é possível prevenir possíveis problemas na vista”, explica. Para Bordon, a falta de informação e o descuido da população dificultam a recuperação da visão total do paciente. Ele alerta que um bom controle a longo prazo pode retomar a visão do diabético prejudicado.

25/11/2016 - 18:42

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