"Venci 36 anos de violência, chantagem e abuso sexual"

Goretti Busollo teve muitos agressores. O último, seu ex-marido, usou seu segredo mais sombrio para lhe chantagear por 15 anos. Até que ela procurou ajuda de uma guarda especial que protege mulheres

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GORETTI BUSSOLO | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
GORETTI BUSSOLO | Crédito: Arquivo Pessoal
Mesmo na recém-conquistada segurança do meu apartamento, consigo escutar a voz do meu ex-marido na cabeça: “Vagabunda! Você acha que eu não sei que você tá dando pra outra pessoa?”. Ainda carrego cicatrizes pelas humilhações e agressões que sofria. Nos 15 anos em que ele me infernizou, apanhei 19 vezes e fui parar no hospital em cinco ocasiões. Tenho um pen drive cheias de 300 mensagens com ameaças de morte, mas já perdi a conta de quantas vezes ele falou na cara que acabaria com a minha vida. Por todos esses anos, meu ex me impediu de ter uma vida normal. Isso acaba agora. 

Só consigo falar sobre isso publicamente porque tenho a proteção de uma divisão especial da guarda municipal chamada Patrulha Maria da Penha, que fiscaliza casos de violência doméstica. Se meu ex aparece, telefono e uma viatura vem até mim. Mas antes... Me submeti aos abusos desse homem por vários motivos, como a pressão de uma família religiosa. Nada disso teria bastado se ele também não me ameaçasse com algo muito pior, um segredo que compartilhei. Quando queria me separar, ele me chantageava, dizendo que contaria meu “crime” para todos. Ele ainda faz isso, e não aguento mais ser refém do medo. Por isso, mesmo sem te conhecer, preciso contar a você e a todas que me leem. Só assim ele deixará de ter poder sobre mim.

Este é o segredo que meu ex usou contra mim 

Para contá-lo, preciso voltar a minha pré-adolescência, na Curitiba dos anos 70. Tinha acabado de chegar do interior. Minha família era simples, mas um homem importante me contratou como empregada e deu emprego a dois dos meus irmãos. Sempre que sua esposa saía, ele me passava a mão, mostrava o pênis e me dava lenços sujos de sêmen pra lavar. 

Um dia, esse patrão chamou alguns amigos para irem à casa dele. Eles chegaram, servi o café e fui para o quarto de empregada. Me preparava para ir embora quando ouvi vozes e tentei trancar a porta. Mas era tarde demais.

Acho que foram quatro os homens que se forçaram contra mim. Eles diziam que, se não tirassem minha virgindade, eu não poderia acusá-los. “Ninguém vai saber se a vadia for currada!” O tempo todo ameaçavam acabar com a vida da minha família. No final, um deles colocou dinheiro na minha bolsa e me deu banho. Eu via o sangue escorrer pelo ralo. Só voltei para casa horas depois e não contei nada a ninguém. 

Não voltei mais àquele lugar. Cerca de dois anos depois, ao procurar outro emprego, um homem se ofereceu para me acompanhar até uma fábrica. Assim que passamos ao lado de um matagal, ele me agarrou, me arrastou para o meio do mato e disse que ia me matar como haviam mandado. Ele rasgou minha roupa e me estuprou. Sem entender nada, peguei o canivete que ele fincou na minha coxa e acertei seu pescoço. O sangue quente jorrou no meu rosto. Comecei a correr, mas, por um minuto, olhei para trás e pensei em socorrê-lo. Fugi. Descobri que ele havia morrido pelo jornal. E foi assim que matei uma pessoa. Preciso chorar. 

Eu era um prato cheio para meu ex-agressor 

Sei que fiz o que fiz em legítima defesa e que, quando conheci o Marcos*, aos 34 anos, já não poderia mais ser presa por isso. Mas sempre senti culpa por não ter socorrido aquele homem. Meu ex sabia disso e usou esse sentimento para me controlar. Ele dizia que contaria isso ao juiz e ficaria com a guarda dos meus filhos, o Taynan, hoje com 24 anos, e o Edu, com 7. 

Além do Marcos, só o meu falecido pai sabia de tudo. Para o resto da minha família, eu era uma desencaminhada. Na adolescência, tentei me matar, precisei de remédios, que misturava com vodka, parei de ir à igreja e fui compulsiva por compras. Era uma loucura. Eu não tinha meio-termo.

Quando conheci meu ex, criava sozinha o Taynan, de 10 anos, porque o pai dele tinha me abandonado. A empresa onde eu trabalhava faliu e eu fazia comida pra vender havia cinco anos. Minha família me reprovava: cheguei a ouvir da minha mãe que eu era a única filha que tinha dado errado. Me sentia velha e carente, um prato cheio para um homem como o Marcos. Fomos viver juntos em poucos meses e ele me bateu após uma festa porque fui elogiada por seus amigos.

Ele tentou me matar e entrei em depressão 

Aí começaram as agressões verbais, a mania de me controlar, os tapas e os socos. O Marcos me chamava de hipócrita. Dizia que eu posava de boa moça e ninguém conhecia minha personalidade assassina. Sem saber como me livrar daquela situação, fiquei deprimida e fui parar nos 110 kg. 

O Marcos ficava pior a cada ano. Dava chilique de ciúmes em qualquer lugar. Até na fila da comunhão ele surtou e me acusou de olhar para a bunda de um fiel. Uma vez, quase me afogou. Pensei em matá-lo, mas não tinha coragem, por isso tentei o suicídio há cerca de sete anos e fui parar num hospital psiquiátrico. 

Só saí do fundo do poço porque uma psiquiatra me deu a mão. Numa consulta, disse que estava cansada da minha vida sem amor. Ela me deu um estalo: “Mentira, Goretti! Você está é cansada de não ser amada por você mesma. Quanta autopiedade! Você perdeu o respeito da sua família, o namorado te abandonou grávida, teu marido te bate e você não o manda pra cadeia, teu filho está revoltado e tem dia que você nem lembra dele de tanto remédio. O que você esconde?”. 

Aquilo me fez acordar e, pela primeira vez, contei meu segredo. Sabe o que ela disse? Que eu tinha mais é que ter feito o que fiz mesmo. Que ninguém teria socorrido o próprio estuprador. Aquilo foi libertador. Saí do hospital mudada e coloquei um fim no relacionamento com o Marcos. Isso tem 6 anos. De lá pra cá, meu ex ainda não falou sobre a minha “personalidade assassina” pra ninguém, mas continua ameaçando.

Dois patrulheiros protegem minha casa 

Os últimos anos foram muito difíceis. Mesmo fazendo denúncias na Delegacia da Mulher, nunca tive retorno. Foi só no ano passado, quando foi criada a Patrulha Maria da Penha, que minha vida começou a entrar nos eixos. Desde que pedi uma medida protetiva, um casal de patrulheiros veio em casa quatro vezes. O Marcos ainda me telefona com desaforos, mas nunca mais chegou perto da casa. Também pedi a guarda do Edu, que até então era compartilhada, graças à orientação da patrulha. 

Finalmente vejo luz no fim do túnel. Estou num emprego que entende minha situação, com um namorado que me apoia e dois anjos da guarda que me protegem. Não posso dizer que sou uma pessoa completa e sem medos, mas não estou mais à mercê da violência. 

Apesar de tudo, não tenho raiva do Marcos. Tenho dó. Ele me chama de prostituta e depois diz que me ama. É doente. 

Perto da liberdade, vejo uma luz no fim do túnel

Nos últimos 6 anos, me engajei nas causas femininas e ajudo muitas vítimas de violência a denunciarem seus agressores. Até montei um grupo de 108 mulheres que se reúne regularmente para discutir o andamento dos casos. 

Ainda tenho tristezas, mas venci a depressão e meus fantasmas estão cada vez mais distantes. Voltei a sorrir, participo de grupos de poesia, que amo, estou fazendo uma pós-graduação e trabalho bastante. Me falta muita coisa, mas gosto da pessoa que me tornei: intensa e dramática, mas também alegre e brincalhona. Mesmo quando não estou feliz, eu sou feliz. - GORETTI BUSSOLO, 48 anos, publicitária, Curitiba, PR

“Virei patrulheira e ajudo a Goretti porque já fui vítima” 


“A Patrulha Maria da Penha é uma divisão da guarda municipal formada por voluntários. Entra quem quer. E meu motivo foi muito forte. Assim como as mil mulheres que já atendi, também fui vítima de violência doméstica e senti o despreparo de outros profissionais para lidar com o problema. É difícil não se envolver em alguns casos. Foi assim com a Goretti. Ela tem um filho da idade do meu que está sofrendo e reproduzindo comportamentos violentos do pai. A Goretti já deixou de nos chamar por vergonha e demos bronca nela. Esse é um dos maiores obstáculos que enfrentamos, porque muitas mulheres não querem que os vizinhos saibam o que está acontecendo. Isso tem que mudar. Por isso, encaminho as vítimas à rede de apoio à mulher, que oferece terapia e até ofi cinas de capacitação. E sempre dou uma dica: registre toda e qualquer ameaça num boletim de ocorrência. Quanto mais B.O.s, mais fácil é pedir uma prisão preventiva do agressor. Muitos saem após pagamento de finança, mas nunca vi um que voltou a importunar a mulher.” - MÁRCIA ZERGER, 38 anos, a patrulheira da Goretti


Patrulha Maria da Penha impede ação do agressor

Uma das reclamações das vítimas de violência doméstica é que, quando uma mulher é agredida pelo parceiro e registra um B.O., não acontece nada. Nenhuma autoridade fiscaliza o cumprimento da lei. É por isso que alguns estados, como Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Goiás estão criando a Patrulha Maria da Penha, uma divisão especial da Guarda Civil ou Polícia Militar para quem a mulher pode ligar caso o agressor se aproxime. “Em Curitiba é sempre um casal em cada viatura. Os dois podem ser contatados 24 horas por dia”, explica Cleusa Pereira, coordenadora da patrulha na cidade.


Mulher precisa de medida protetiva 

Para ter acesso à patrulha, não basta fazer um B.O. “A divisão atende mulheres que já tenham solicitado a medida protetiva, emitida pelo Juizado de Violência Doméstica”, explica a Secretária da Mulher de Curitiba, Roseli Isidoro. Segundo ela, “a lei diz que toda mulher que registra B.O. tem direito à medida e pode solicitá-la na Delegacia da Mulher”. 

Após o pedido, o juizado tem 72 horas para a emissão, mas a vítima já pode solicitar uma visita da patrulha. Como as patrulhas não são ligadas umas às outras, o telefone para contato varia. Em Curitiba é possível ligar para o 153 para convocar uma viatura, mas quem atende a primeira ocorrência ainda é a PM através do 190. Nas demais capitais, o número é o mesmo usado para qualquer caso de violência doméstica: 180. Saiba mais sobre a Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher em http://bit.ly/1ORUN6G



28/04/2015 - 09:00

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