Sou paga para chorar em velórios

Recebo até R$ 500 por funeral!

Lorena Verli (com colaboração de Carolina Almeida)

Sou paga para derramar lágrimas nos velórios e recebo até R$ 500 por funeral | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Sou paga para derramar lágrimas nos velórios e recebo até R$ 500 por funeral | Crédito: Redação Sou Mais Eu

Quem acha que a morte não traz nada de bom se engana. Eu, por exemplo, ganho a vida graças a ela... Sou carpideira: minha atividade é ir a velórios para chorar pelos defuntos! Já me chamaram também para chorar quando a pessoa está morrendo, para que ela faça uma passagem bonita.

Quando vim da Bahia para São Paulo, me empreguei numa empresa de telefonia. Sempre que um colega morria, eu ia chorar no velório - mesmo que não conhecesse a pessoa. O jornal da empresa fez uma matéria sobre isso. A história rendeu, e fui parar num programa de tevê. Desde então, sou chamada para chorar profissionalmente.

Choro, consolo e, às vezes, animo também

Não existe uma regra para chorar nos velórios. Tudo depende do sofrimento que as pessoas demonstrarem... O ideal é chorar no começo, quando todos estão naquele momento de luto. Mais para o meio do velório, chega a hora de consolar as pessoas. Herdei essa vocação da minha mãe e da minha avó - as duas também eram carpideiras.

Mas o meu trabalho não é só chorar! Tem gente que me pede para alegrar o velório! Ajudo a criar aqueles momentos em que os presentes, cansados do luto, começam a contar piadas.

Tem parente que rouba a cena

O problema é que nem todo mundo gosta do que eu faço! Uma vez, o familiar encarregado do velório me contratou, mas não avisou aos parentes. Quando cheguei ao local, um dos presentes me expulsou! Acredita?

Em outra ocasião, uma mulher chegou no meio do velório fazendo escândalo, chorando e se descabelando. A filha da falecida me chamou e disse: "Itha, tome uma atitude! Ela tá roubando a sua cena!". Mas nem me preocupei... Carpideira de verdade sabe que não precisa fazer escândalo.

O máximo que já ganhei num velório foi R$ 500. Se a pessoa não puder pagar em dinheiro, aceito ganhar algo em troca: galinha, roupas ou outra coisa. Às vezes, não recebo nada, mas vou mesmo assim! É a minha missão. Também quero um monte de gente chorando quando for o meu velório. Com uma família como a minha, sei que isso não vai faltar!

Chorar está no sangue

Na minha família, ninguém tem dificuldade para chorar. Meus 11 irmãos - incluindo os homens - choram por qualquer coisa! Minha mãe e minha avó também nunca precisaram se esforçar para chorar nos velórios. Quando eu era pequena, morávamos na Bahia, e sempre que alguém morria, lá estavam elas!

Itah Rocha, 66 anos, carpideira, São Paulo, SP 

18/07/2017 - 19:00

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