Ajudei um morador de rua a voltar para sua família

Conheci o Raimundo e senti uma vontade muito forte de ajudá-lo. Me aproximei dele e nos tornamos grandes amigos

Reportagem: Giulia Gazetta (com colaboração de Luiza Schiff)

Raimundo se tornou meu grande amigo! | <i>Crédito: Shalla Monteiro
Raimundo se tornou meu grande amigo! | Crédito: Shalla Monteiro
Eu tinha acabado de mudar de bairro quando vi o Raimundo na rua pela primeira vez, em maio de 2011. Ele estava sentado em um canteiro, com uma roupa de plástico, escrevendo sem parar. Senti uma energia muito forte. Nunca tinha feito contato com um morador de rua, mas fiquei com uma vontade muito grande de falar com ele. Naquele dia eu me contive, mas o Raimundo não saía da minha cabeça.
No sábado daquela mesma semana, fui com o Inácio, meu marido, até o Raimundo. "Com licença, bom dia!", falei, sorrindo. Ele sorriu de volta e disse: "Quer um pedaço de papel?" Ele havia acabado de escrever um poema. Aceitei e li em voz alta: “Qual é o interesse do leitor pela vida do autor que ele leu e dos demais consumidores de tudo o que homem fez”? “Aquilo mexeu comigo, achei muito sensível”.
Papeamos por mais de uma hora. Raimundo me contou que veio de Goiânia para morar em São Paulo aos 21 anos. Ele tinha o sonho de estudar e crescer na vida e queria fazer isso pelas próprias pernas. Ele teve dois trabalhos que dizem muito sobre o homem que ele é: jardineiro e vendedor de livros usados. Raimundo vivia em pensões, até que a grana ficou curta. Aí, faltou dinheiro para se manter. Foi por isso que ele acabou indo morar na rua.
Raimundo morou em 14 lugares diferentes na rua, até fazer uma espécie de cabana de plástico em um canteiro onde não havia muito fluxo de pessoas, que ele batizou de "ilha". Ele já estava ali havia 19 anos. No fim do papo, perguntei se ele se importaria que eu fosse visitá-lo com mais frequência. Sabe o que ele me respondeu? "Ilustríssima, eu moro em um lugar público, todos que quiserem podem me visitar".

Queria que ele fosse pra minha casa
Viajei a trabalho por um mês e fiquei sem ver o Raimundo. Me preocupava se ele estava bem, passando frio ou fome. Quando fui visitá-lo, contei que havia pensado muito nele. "Eu também pensei muito em você", ele me respondeu. Raimundo vivia me impressionando com sua sinceridade.
Com a chegada do inverno, dei todos os meus cobertores para ele e aí descobri que Raimundo redistribuía as doações para outros moradores de rua. O coração dele é cheio de generosidade! E todas as vezes que levei um prato de comida, ele queria dividir a refeição comigo. Só assim ele aceitava a gentileza. E nunca me pediu um centavo. Eu aproveitava as visitas para ler as lindas poesias de Raimundo, assinadas com o codinome "O Condicionado".
No dia 1º de agosto de 2011 foi o aniversário de 73 anos dele. Eu e o Inácio levamos um bolo e, naquele dia, algo muito forte aconteceu: nos abraçamos e choramos, muito emocionados. Naquele momento, senti que tinha que achar algum jeito de ajudar o meu amigo. Até o convidei para morar na minha casa, indo contra a opinião da minha família, mas ele não quis. O que eu poderia fazer?

As poesias fizeram sucesso no Facebook
Raimundo passava o dia inteiro escrevendo e, à noite, quando a iluminação ficava fraca, ele aproveitava os faróis dos carros para continuar seus textos. Mas ele não imaginava que alguém poderia gostar das suas poesias. Foi quando tive um estalo: criar uma página no Facebook com as suas poesias. Expliquei para o Raimundo o que era internet e ele concordou em criar um perfil, mas não botou muita fé no sucesso dele. Eu disse que esse era o caminho para a gente conseguir lançar seu livro de poesias!
Botei a página no ar e passei a postar seus poemas, que de cara renderam muitos comentários positivos. Eu mostrava tudo para o Raimundo. Ele ficava orgulhoso, mas dizia: "Você está perdendo seu tempo comigo". E eu retrucava: "Estou é ganhando!" Isso me trazia paz e satisfação.

A família encontrou seu paradeiro
O objetivo da página era aumentar a autoestima dele e provar que seu trabalho era lindo. Mas essa divulgação na rede social nos trouxe uma surpresa: no dia 23 de setembro de 2011, o Francisco, irmão mais novo de Raimundo, e sua esposa, Roberta, o encontraram no Facebook. Recebi a mensagem deles às 23h e fiquei eufórica. Respondi imediatamente dando meu número de telefone. No dia seguinte, eles me ligaram às 8h. Eu aproveitei para pedir que me enviassem uma foto dos irmãos dele.
Antes de ir para o trabalho, fui ver o Raimundo. "Aconteceu uma coisa incrível. Recebi uma mensagem de Francisco Arruda Sobrinho", eu disse. Ele quase não acreditou, mas reconheceu todos irmãos na foto. Daquele dia em diante, todas as vezes que eu ia encontrá-lo ligava para sua família. Era bonito ver como ele se emocionava ao ouvir cada uma das vozes. A família do Raimundo queria levá-lo de volta para casa, em Goiânia, mas respondia que não queria dar trabalho. Mesmo assim, em outubro, Francisco foi a São Paulo. O reencontro foi tão lindo... Mas levar Raimundo para casa não seria tão simples.

Raimundo voltou para a sociedade
Francisco retornou sem seu irmão, mas no mês seguinte voltou a São Paulo com a esposa para vê-lo novamente. Dessa vez começamos a providenciar os documentos para Raimundo poder viajar. Nem RG ele tinha. Era o primeiro passo.
Com muita conversa, conseguimos levá-lo para o CAPS, Centro de Atenção Psicossocial, em abril de 2012. Vimos que essa poderia ser uma maneira de readaptá-lo à sociedade. Lá, ele receberia os primeiros cuidados e seria preparado para deixar o lugar onde vivia há tanto tempo e fazer uma viagem de avião. Eu continuava indo visitá-lo e fazendo as ligações para Goiânia. Raimundo ficou no CAPS até julho de 2012, quando Fransciso foi buscá-lo. Eles voltaram juntos para Goiânia de avião.

O retorno para casa! 
Raimundo voltou para Goiânia uma semana antes de completar 74 anos. Viajei para lá no dia do seu aniversário para passar a data com ele. Meu amigo me recebeu todo cheiroso e arrumadinho. Tinha que ver que coisa linda.
Em 2012, também voltei para Goiânia no dia do seu aniversário. Faço questão de passar essa data ao lado dele. Só que antes da viagem descobri que estava grávida. O Raimundo me recebeu com um abraço e eu fui logo dando a notícia : "Você é o primeiro a saber: eu tô grávida!" Ele respondeu usando seu refinado vocabulário: "Que preciosidade, Shalla!"
Estamos sempre em contato e já fui visitá-lo 6 vezes desde seu retorno, mesmo após meu filho ter nascido fui e voltei no mesmo dia para matar as saudades. Ligo sempre e sei que ele está feliz escrevendo seus textos. Sinto muito orgulho de ter participado de tudo isso. A página dele no Facebook tem quase 200 mil curtidas por onde sigo dando notícias sobre Raimundo e postando suas poesias. Ele é um grande amigo, grande homem e um poeta incrível! 

A história continua...
Ano passado escrevi um livro, o "Incondicional", que conta a história da nossa amizade, como tudo aconteceu e o sucesso do seu retorno para sua terra natal e família após 51 anos afastados. Ao contar essa maravilhosa história que me transformou e engradeceu imensamente, o"Incondicional" tem o objetivo de inspirar pessoas a se aproximarem de quem está em situação de rua de forma amorosa, visando estabelecer um vínculo de amizade. Acredito que por meio desse vínculo, podemos proporcionar uma conexão que perpasse a satisfação momentânea de uma necessidade material (uma vez que quem está na rua carece de tudo que seja material). 
Preciso contar ao mundo que todos, todos nós, podemos fazer algo para mudar, melhorar e transformar a realidade de quem vive em situação de rua e que, para isso, o mais importante é estar presente! É a presença e a construção de um vínculo afetivo que podem fazer toda a diferença. Fez na minha vida e na de Raimundo. Está fazendo na vida do Adriano, meu novo amigo que vive em situação de rua, e espero que faça a diferença na vida de tantos Raimundos e Adrianos que ainda vivem assim!
Essa história de vida virou um livro e meu sonho é que o livro vire um projeto social que impacte e transforme vidas que se ocultam na barreira quase intransponível que separa quem tem e quem não tem um teto! 
 
Shalla Monteiro, 41 anos, consultora empresarial, Florianópolis SC

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24/04/2017 - 18:28

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