Ser gorda me deixou tão doente que chorei sangue

O peso fez minha pressão subir tanto, que uma veia da cabeça estourou e vazou pelo olho

Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)

Minha vida mudou! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Minha vida mudou! | Crédito: Redação Sou mais Eu
Foi sofrido levantar da cama naquela quarta-feira de janeiro de 2010. Mas sempre era. Eu estava com 120 kg (meço 1,65 m) e sentia como se todo esse peso fosse quebrar os meus ossos. Só que, nesse dia, outra coisa estava errada. Fui para o banheiro lavar o rosto e, quando olhei no espelho, escorria sangue dos meus olhos! Achei que, durante o sono, tinha enfiado a unha neles, mas não: eu havia acabado de ter um derrame cerebral. 
Desesperada, liguei para o meu marido, o Valdir, que me levou para o hospital. Eu já tinha limpado o rosto, mas meu olho direito continuava manchado, como se tivesse sangue por dentro. Não sentia dor, só uma coisa incômoda, como um ar gelado dentro da minha cabeça. Na emergência, fiz uma tomografia, ressonância magnética e tirei a pressão: 20/12. E o normal é 12/8. 

Doenças e remédios me deixaram obesa 
O médico que me atendeu explicou que meu caso era raro. Geralmente, quando uma veia se rompe na cabeça, o sangue vaza para dentro do cérebro. Se isso tivesse acontecido, na melhor das hipóteses eu teria entrado em coma. Na pior, teria morrido. Também poderia ter sobrevivido com sequelas graves de fala, de movimentos... Sabe-se lá por que escapei de um destino cruel. 
No dia seguinte, fui a um cardiologista. Ele fez mais exames e descobriu que meu coração estava três vezes maior do que o normal e que meu fígado nadava em banha. Mesmo com obesidade mórbida, eu cuidava da saúde na medida do possível. Fazia check-up todo ano. E nunca tinha achado essas coisas. Mas deveria ter desconfiado, pois minha saúde era precária. 
Desde os 15 anos, quando passei a engordar, minha saúde declinou pouco a pouco. O sobrepeso começou com um tratamento de asma. Eu tomava muito corticoide e fui ficando inchada. Aos 18 anos, engravidei e tive diabetes gestacional, o que me fez ganhar mais peso ainda. Não bastasse, minha filha morreu três dias depois do parto e os remédios para fazer o leite secar provocaram um distúrbio hormonal. Aí, não adiantava nem trancar a boca. Meu metabolismo ficou todo estragado. 
Não havia dieta nem remédio que baixasse o ponteiro da balança. Por causa da dificuldade que é para uma obesa arrumar emprego, virei dona de casa. Ainda assim, tinha que pagar para alguém limpar meus azulejos. Eu mal conseguia abaixar. 

Rompi o ligamento do joelho durante o sexo 
Obstinada, saía todo dia para andar, mas bem devagar. Aí não adianta, pois só há queima de caloria quando o batimento cardíaco se acelera. As longas caminhadas só serviram, então, para romper o ligamento do meu joelho esquerdo, em 2005. Fiz uma cirurgia que me deixou de cama e ainda tive que ouvir de algumas amigas: "Agora você vai explodir, hein?". Anos depois, rompi o ligamento do outro joelho. Estava na cama com meu marido e, ao trocar de posição, rolou um mau jeito. Já era... 
Eu sentia muito cansaço, dor no corpo. Achava que era coisa da obesidade, mas também eram sinais de hipertensão. Depois do choro sangrento, passei a tomar cinco remédios diários e nem isso abaixava a pressão. Por um ano, o médico mexeu na medicação a cada consulta. Me orientou a mudar a forma de caminhar e a de comer. Nada de carboidrato. Arroz branco? Uma vez por semana e olhe lá! 
Mesmo assim, só emagreci 3 kg em um ano. No final de 2010, fui a outro doutor. De cara, me indicou a bariátrica. Eu não queria, achava que a cirurgia servia apenas para compulsivos por comida e não era meu caso. Mas o médico explicou que a redução de estômago dá um choque tão grande no organismo, que é como se o metabolismo voltasse à estaca zero e reaprendesse a funcionar. Topei. 
Só a bariátrica deu conta de diminuir minha pressão, porque foi o único jeito de me fazer emagrecer. Saí da sala de cirurgia sem precisar de remédio nenhum. Além disso, a técnica usada em mim (sleeve gástrico) faz meu corpo absorver o máximo de nutrientes. Assim, nunca precisei tomar vitaminas e suplementos. Emagreci 13 kg no primeiro mês e continuei secando até o sexto, quando comecei a estabilizar. Hoje, um ano e nove meses depois, estou com 58 kg a menos! 

Emagreci 58 kg e descobri uma nova mulher em mim! 
Fiz a cirurgia por causa da saúde, mas confesso: a autoestima melhorou demais. Descobri a mulher bonita que estava afogada dentro da gordura. Que delícia conseguir cruzar as pernas! 
Por causa da redução, faço exames de rotina a cada três meses. Colesterol, açúcar no sangue, vitaminas... Tá tudo lindo! Como de duas em duas horas e faço musculação, para readquirir tônus muscular. Também fiz abdominoplastia. Meu novo corpo me deixou vaidosa e meio gastadeira, por isso meu marido tem que puxar o freio direto. 
Mas se engana quem acha que virei uma pessoa fútil, que só liga para roupas e maquiagem. Abri uma empresa que fornece alimentação saudável, eu preparo marmitas fitness sobre encomenda para diversas dietas. Meu foco é ajudar as pessoas. Também estou selecionando melhor minhas amizades. Tô fora de quem me coloca para baixo! Quero realizar outras cirurgias: colocar silicone e tirar o excesso de pele nos braços. Me aguardem! 

Da redação 

O quadro de Karine foi uma "sortuda exceção" 
A Karine sofreu um AVC hemorrágico raro, provocado pela hipertensão que ela tinha por ser obesa mórbida. Normalmente, quando um vaso sanguíneo se rompe no cérebro, o sangue fica dentro da cabeça, causando uma compressão cerebral que pode causar a morte ou deixar sequelas, como a perda da fala. Sem atendimento, a morte chega entre 48 e 72 horas. Por tudo isso, Frida Plavnik, nefrologista e diretora científica da Sociedade Brasileira de Hipertensão, diz que o caso da Karine "pode ter sido sorte". A possível explicação é que "a quantidade de sangue que saiu pode ter sido elevada ou, mais provável, a pressão do sangue era tal que o vazamento ocorreu dessa forma", explica a médica. 

Cuidado com a gordura que fica na barriga! 
A gordura abdominal é uma das maiores vilãs da hipertensão e fator de risco comum à obesidade mórbida. "Ela é capaz de aumentar a produção de hormônios que fazem a pressão subir", alerta Frida. Karine conta que não tinha sintomas de hipertensão, mas não era bem assim. Ela dormia com quatro travesseiros ou a respiração travava. Para Frida, isso era sinal de insuficiência cardíaca "causada pela hipertensão de longa data". A doutora explica ainda que é comum pacientes com "obesidade visceral" apresentarem "apneia obstrutiva do sono". Ou seja, eles roncam e têm dificuldades para respirar à noite. "Essa é uma forma de agravar a hipertensão." A falta de oxigenação estimula o chamado "sistema simpático" do corpo, que controla a pressão sanguínea, e o desregula. Para resolver o problema, Karine passou por uma nova bariátrica chamada sleeve gástrico, em que o estômago é transformado num tubo com capacidade para até 100 ml. O procedimento ajuda a controlar a hipertensão e faz perder de 40% a 45% do peso inicial. 

Karine Bettio Borba, 35 anos, zeladora, Capão da Canoa, RS 

14/06/2017 - 15:04

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