"A cirurgia imaginária me fez secar 17 kg"

Paula foi hipnotizada para acreditar que um balão gástrico foi inserido no seu estômago. Funcionou, ela passou a comer menos e aprendeu a pensar magro!

Reportagem: Célia Aguiar

PAULA LIMA PORTA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
PAULA LIMA PORTA | Crédito: Arquivo Pessoal
Quem aqui deseja ser ‘operada’ e receber um balão gástrico imaginário?” Essa foi a pergunta que o psicólogo fez durante o curso de especialização em hipnose e transtornos alimentares do qual eu estava participando. Assim como o professor, eu e todo mundo ali éramos da área da psicologia, mas aquele assunto me interessava para além do campo profissional, pois eu estava 9 kg acima do meu peso. Tinha me acomodado na crença de que, já que estava casada e com três filhos, não precisava ser magra nem bonita. 

Ser traída me acordou para a vida 

Só que, três meses antes desse curso, em maio de 2014, eu tinha descoberto uma traição do meu marido. Fiquei muito mal na época, me senti um lixo. Mas uma amiga me abriu os olhos e disse que eu precisava escolher entre ser a coitadinha da história ou dar a volta por cima. A proposta do professor em aplicar a técnica da cirurgia imaginária, onde o paciente é induzido a acreditar que um balão foi colocado em seu estômago para que ele coma menos e emagreça, vinha a calhar. Antes do curso, eu já estava em processo de emagrecimento. Meu auge tinha sido 77 kg e agora estava com 69 kg. Isso porque eu tinha optado por superar a traição e cuidar de mim. Eu ia continuar com ele, mas fiz um pacto comigo mesma de perder peso e me amar mais. O procedimento me ajudaria a permanecer nesse objetivo. Topei entrar na “sala de cirurgia”... 

O primeiro passo foi o professor me induzir ao transe hipnótico, que é um estado de pleno relaxamento, tipo sonhar acordada. A partir daí, ele começou a criar o cenário para que minha imaginação trabalhasse: descreveu como era a sala de cirurgia, pediu que eu me imaginasse em uma maca com lençóis brancos e me fez sentir que havia um tubo com um balão na ponta atravessando meu esôfago até chegar ao estômago. Havia até sons reais simulando a máquina que verifica os batimentos cardíacos e o barulho do ar inflando o balão. Tudo acabou em 40 minutos. Algumas pessoas que também fizeram a “cirurgia” relataram efeitos como ânsia de vômito, mas em mim não deu nada. Achei até que não tinha funcionado. Mas foi só tentar comer o primeiro lanche, assim que fui embora do curso, para ter a certeza de que a coisa era pra valer: incrivelmente, não consegui comê-lo inteiro! 

Comecei a emagrecer com um livro 

E olha que eu estava acostumada a comer bastante. Pra mim, comida era uma válvula de escape de todos os sentimentos, tanto negativos quanto positivos. Eu comia compulsivamente. Bolachas recheadas, chocolates... Depois, passava mal com tanto açúcar. Aí, na sequência, comia um pão para passar o mal-estar do doce. 

Eu não sabia ao certo como lutar contra esse descontrole. Até que, em junho de 2014, cursando o último semestre da faculdade de psicologia, enxerguei o caminho. Nas pesquisas acadêmicas sobre transtornos alimentares e obesidade, deparei com o livro Pense Magro, da psicóloga norteamericana Judith Beck. Ela escreve que a chave é a relação emocional que você tem com a comida e ensina como treinar o cérebro para pensar diferente – só com mudanças comportamentais somos capazes de emagrecer e manter a perda de peso. E, para alcançar isso, é preciso fazer exercícios mentais diários (ensino alguns na próxima página). Assim, você aprende a ver a comida pelo aspecto que realmente importa: o da nutrição. E não mais como consolo ou prêmio. A partir de então, minhas escolhas passaram a ser por alimentos funcionais: arroz sete grãos, chia e linhaça, frutas, muita salada, água etc. 

90% das pessoas que atendi emagreceram 

Um mês depois de iniciar essa transformação mental, eu já tinha perdido 4 kg! Estava tão animada para cuidar mais de mim que resolvi tirar o excesso de pele da barriga e dos seios, fazendo abdominoplastia e mamoplastia. Eu deveria ter emagrecido tudo primeiro, mas a ânsia de me sentir melhor – e de dar a volta por cima – era tanta que não aguentei esperar. Com a retirada de pele na cirurgia plástica, emagreci mais 1 kg. 

Quando passei pela cirurgia imaginária, em agosto de 2014, já tinha emagrecido 8 kg, mas ainda precisava de mais 9 kg. Achando que o balão estava ocupando metade do meu estômago, comia bem menos. Algumas pessoas fazem a hipnose para provocar a aversão a certo alimento. Não cheguei a fazer isso em mim. Só reduzindo as quantidades já funcionou! 

Tanto que hoje aplico a técnica nas minhas pacientes. Uso a cirurgia imaginária e os ensinamentos do livro nas minhas sessões de terapia que trabalham a obesidade. Desde que me especializei nisso, já atendi 90 pessoas acima do peso e 90% delas conseguiram emagrecer! 

Perder 17 kg em nove meses, sem precisar tomar remédio, apenas treinando minha mente, fez com que eu me sentisse vitoriosa e me tornasse uma pessoa mais leve em todos os sentidos. Hoje sei que sou uma mulher mais bonita e atraente para o meu marido, além de ter muito mais energia para brincar com meus filhos. Descobrir que existem prazeres além da comida me despertou para uma vida nova e muito mais feliz! - PAULA LIMA PORTA, 37 anos, psicóloga, Paulínia, SP

O cardápio da Paula - Avaliado pela nutricionista Monique Comar

Desjejum
• 600 ml de água com 1 limão espremido 

Café da manhã
• 1 tapioca feita com 3 colheres (sopa) da goma, recheada com 1 colher (sopa) de requeijão light e salpicada com granola salgada
• 400 ml de suco de abacaxi, couve, gengibre, farelo de aveia, chia e linhaça 

Lanche da manhã
• 90 g de iogurte grego light
• 1 colher (sopa) de granola maltada
• 600 ml de água com 1 limão espremido 

Almoço
• 2 colheres (sopa) de arroz integral
• 1 colher (sopa) de feijão ou grãode- bico
• 2 colheres (sopa) de brócolis
• 2/3 do prato de salada de folhas, legumes e verduras
• 200 ml de salada de frutas 

Dica da nutricionista: Sugiro acrescentar carne vermelha ou branca grelhada tanto no almoço quanto no jantar. Se for vegetariana, inclua hambúrguer de soja (caso não seja muito restrita, acrescente ovos). 

Lanche da tarde
• Vitamina feita com 250 ml de leite desnatado
• 2 frutas
• 1 colher (sopa) de chia 

Jantar
• Repita o almoço OU 1 tapioca feita com 3 colheres (sopa) da goma, recheada com 1 fatia de peito de peru e 1 fatia de mussarela light
• Salada de folhas à vontade 

Ceia
• 3 unidades de bolacha salgada integral com 1 colher (chá) de manteiga
• 1 xícara de chá de erva-cidreira adoçado com açúcar demerara 

Dica da nutricionista: Substitua a manteiga por cottage ou ricota.


Reeducação mental para emagrecer!

Tão importante quanto a reeducação alimentar é a reeducação mental. Se conhecer e controlar pensamentos e emoções que levam ao impulso de comer é a chave do sucesso para o emagrecimento. A Paula é psicóloga e aplica em suas pacientes a técnica que deu certo com ela. Mas, mesmo com o balão gástrico imaginário, não existe solução mágica, pois o resultado está ligado à mudança de comportamento. “Tem pessoas que passam pela cirurgia bariátrica real e voltam a engordar, pois não mudaram sua relação com a comida”, diz. Ela ensina quatro exercícios mentais diários que ajudam a emagrecer:

Exercício 1: cartão de vantagens
Faça um cartão escrevendo as vantagens que você vai obter com o processo de emagrecimento. Esse cartão vai precisar ser lido, no mínimo, duas vezes por dia para ajudar você a manter o foco na dieta. Veja alguns exemplos de vantagens: se sentir mais bonita, autoconfiante, ficar saudável, usar aquele jeans tão sonhado... 

Exercício 2: dia de evitar o exagero
Escolha alguns dias para, em uma refeição, deixar comida no prato. Pense assim: o alimento de que não preciso é lixo e, se eu não jogo comida no lixo, por que vou jogar dentro de mim? Este exercício servirá para você aprender que, quando está satisfeita, precisa parar de comer, mesmo que esteja muito gostoso. 

Exercício 3: mude a definição de saciedade
Só engordamos porque não respeitamos os limites que nosso corpo impõe. Para saber se você está comendo demais, imagine como seria fácil caminhar apressadamente antes de comer. Após a refeição, você é capaz de caminhar nesse ritmo com a mesma facilidade? Se não consegue, significa que comeu em exagero e que talvez tenha uma sensação irrealista de saciedade. 

Exercício 4: pare de se enganar
Quem faz dieta tende a se enganar sobre sua alimentação. Identifique pensamentos sabotadores como “É só um pedacinho”, “Vou comer só desta vez”, “Meu dia foi tão estressante, eu mereço”. Comer vai resolver o estresse que já aconteceu nesse dia? Isso vai causar mais estresse pela culpa por não estar cumprindo os objetivos.

Apenas especialistas podem aplicar hipnose

Hipnose não é magia, e sim uma ferramenta de terapia. Existe uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que regulamenta o uso do hipnotismo como recurso auxiliar do trabalho do psicólogo. O método é reconhecido no Brasil também por outros órgãos, como o Conselho Federal de Medicina. Somente profissionais dessas categorias têm autorização para praticá-la, desde que possuam curso de especialização adequado.







21/09/2015 - 09:30

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