Vida depois da tragédia

O marido de Renata foi uma das vítimas fatais de um avião que desapareceu no oceano em 2009. Hoje ela luta pra manter as lembranças do pai vivas para o filho Thiago

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O adeus e a memória: vida depois da tragédia | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
O adeus e a memória: vida depois da tragédia | Crédito: Arquivo Pessoal
Amanhã de 1º de junho de 2009 começou como qualquer segunda-feira. Depois de se despedir do filho, Thiago, então com 11 meses, a carioca Renata Mondelo, hoje com 43 anos, pegou um táxi para uma reunião de trabalho, no Rio de Janeiro. Casada desde 2005 com o executivo mineiro Marco Antônio Camargo Mendonça, ela acordou sem o marido, que havia embarcado a trabalho na noite anterior rumo à China e a Dubai, via Paris. Radicados em Belo Horizonte, eles haviam passado o fim de semana no Rio, onde vive a mãe de Renata. No táxi, o telefone de Renata tocou: era seu irmão perguntando se Marco Antônio havia mesmo embarcado. Renata afirmou que sim e perguntou se o irmão queria algo do free shop. Mas o irmão foi mais insistente: queria saber a hora que o voo havia partido. Renata respondeu: “19 h”. O irmão falou que esse voo estava desaparecido. Renata, por alguns minutos, entrou em negação: “Não, foi no voo das 9 h!”, repetia ela. Neste momento, ela recebeu uma chamada internacional e disse ao irmão: “Deixa eu desligar, o Marco Antônio está na outra linha”. Ao atender, a voz era de um colega em Paris, que viajaria com Marco Antônio até a China. O colega já estava aos prantos. Renata começou a chorar e disse ao taxista: “Volta, volta. O meu marido morreu”. 

Marco Antônio, então com 43 anos, foi uma das 288 vítimas fatais do voo 447 da Air France, que caiu no Oceano Atlântico por causa de uma sucessão de falhas humanas. Destroços da aeronave e 49 corpos, incluindo o dele, foram encontrados um mês mais tarde. Após dias de incerteza e agonia, Renata pôde enterrar seu marido em 7 de julho. “Gosto de falar sobre o Marco, porque com ele realizei vários sonhos: o de amar e ser amada e o de ser mãe, especialmente de um menino”, recorda ela. “O Thiago é muito semelhante ao pai, incluindo as atitudes. É uma mistura de saudade, dor e alegria”, revela Renata. Além da perda inesperada, foi árduo lidar com o que ela chama de “morte sensacional”. “É difícil ver sua história nos jornais ou a foto do Marco na TV e escutar os comentários desconectados da realidade”, diz Renata. “Quando você acha que está quase resolvida, encontram uma parte do avião ou um corpo, sempre vem mais um capítulo”, lembra. 

O conteúdo da caixa-preta 

Renata conta que o aniversário da tragédia é sempre lembrado pela associação das famílias afetadas. “De um minuto para o outro, passamos a conviver com pessoas novas, nos identificando com as que estão passando por dores parecidas. Naturalmente, as viúvas, como eu, formaram um subgrupo; os que perderam os filhos formaram outro. Nós, as mães com filhos pequenos, até já viajamos juntas. É uma dor que só quem vive pode entender.” Renata conta que dois anos depois da tragédia, a equipe de resgate conseguiu recuperar mais corpos, além da caixa-preta. “Por dois anos a gente vivia e revivia emoções: cada vez que encontravam algo novo, todos eram avisados. Na véspera de recebermos o conteúdo por escrito da caixa preta por e-mail, ninguém conseguiu dormir.” As reuniões aconteciam em um hotel no Rio de Janeiro, onde eles contavam com assistência psicológica e navegavam pelo trâmite burocrático para obter um atestado de óbito presumido, além de prover material para testes de DNA. “Levei meu bebê para coletarem o seu DNA”, diz Renata, acrescentando que todos estavam cientes que os corpos encontrados estariam em pedaços. 

Um amor para lembrar 

Marco Antônio e Renata se conheceram em 2004, numa reunião de trabalho. Namoraram discretamente por seis meses e resolveram divulgar o romance quando anunciaram o casamento, já para o ano seguinte. Casados, ambos mudaram-se para a Suíça, onde Marco Antônio assumiu o posto de gerente-geral da empresa em que trabalhavam. Em 2008, ele foi transferido para Belo Horizonte, onde se tornou diretor. Lá, nasceu Thiago. O próximo passo seria uma mudança para o Canadá. Em 31 de maio, Marco embarcou para o que seria uma das mais marcantes datas de sua carreira: após uma reunião na China, ele iria a Dubai para uma cerimônia que o tornaria o primeiro brasileiro a assumir o Instituto Mundial de Manganês. “Ele foi feliz da vida”, sorri Renata. Cinco anos mais tarde, Renata confessa não ter voltado para seu ritmo, apesar de continuar tentando. “Hoje sou outra pessoa: mãe, provedora, educadora. E tenho o compromisso de educá-lo da forma que nós dois combinamos – não posso falhar nessa tarefa”, afirma. “Sou mais responsável, tenho novos valores e prioridades – tragédias nos fazem dar novo significado à vida”, ressalta. Renata deixou o mundo corporativo e abriu uma empresa de comunicação para poder dar mais atenção ao filho. 

Uma referência masculina 

Prestes a celebrar os 6 anos, Thiago faz terapia e tenta aprender o máximo sobre o pai: gosta de escutar as músicas prediletas de Marco Antônio e torce pelo Flamengo. Ele ainda passa alguns dias com seu irmão mais velho, João Marcos, 18, filho do primeiro casamento de Marco. Renata também resolveu procurar uma pessoa que fosse referência masculina para o filho. “Alguém que pudesse conversar papo de homem, jogar bola, entrar no banheiro masculino. Liguei para algumas agências que disseram não ter esse profissional. Mas uma retornou dias depois dizendo que tinha se sensibilizado com minha história e que um recreador deles estava disposto a ser essa pessoa.” Uma vez por mês, Thiago se encontra com o recreador Wallace, 36, para jogar bola e passar o dia. “Meu filho amadureceu cedo, está resolvendo todas as suas questões. Ele é muito independente, tem uma grande admiração pelo pai”, finaliza Renata. 

As famílias foram indenizadas pela Air France, mas por menos do que esperavam.

12/11/2015 - 13:00

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