Superação: "Salvei minha mãe e 7 irmãos da violência doméstica"

Cansado de ver sua família ser espancada diariamente pelo pai, Gerô saiu de casa aos 9 anos e só sossegou quando conseguiu resgatar um por um dos seus familiares do inferno

Reportagem: Caroline Cabral

Salvei mamãe e 7 irmãos da violência doméstica | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Salvei mamãe e 7 irmãos da violência doméstica | Crédito: Arquivo Pessoal

Se você pensa que ir morar na favela é descer um degrau na escada da vida, te digo que chegar ao morro foi a minha salvação! Pois a favela me deu tudo que nunca tive no que conheci como lar. Foi lá que consegui, com apenas 16 anos de idade, começar a libertar minha mãe e meus sete irmãos das sádicas garras do nosso pai.  

Nasci em Mato Verde, interior de Minas Gerais. Cresci no meio do nada – a cidade mais próxima ficava a cinco horas de caminhada. Meu cotidiano era ver o dono das terras onde vivíamos explorar nossa família. 

Aos 7 anos eu já trabalhava feito homem! Até hoje tenho as mãos calejadas... E olha que faz pra lá de 30 anos que num pego numa enxada, hein? Às 7h eu e meus irmãos já estávamos com o enxadão em punho, cortando tocos de árvore. Ao meio-dia comíamos alguma coisa e logo emendávamos a plantar capim para a pastagem. Só podíamos voltar para casa às 17h. 

Eram 10 horas de labuta embaixo de sol quente. Ainda assim faltava comida. Tinha dia em que só havia arroz para comer. Em outros, nem isso! 

Passamos muita fome e frio naquele fim de mundo. Como se fosse pouco, ao voltar do roçado, éramos recebidos a tapas e chutes pelo meu pai. 

Se o dinheiro já era curto, ele piorava tudo torrando boa parte com cachaça. Todo dia chegava bêbado e descia a mão em cada um de nós, até na minha mãe! Apanhei por roubar cana para chupar e ver se a fome diminuía, por pegar goiaba do pé, por olhá-lo nos olhos... Ele me batia com a palma da faca, pisava no meu pescoço, me obrigava a bater nos meus irmãos e vice-versa. Testemunhei brutalidades e senti dores difíceis de descrever. 

Minha mãe, coitada, escondia ao máximo nossas estripulias. Mas até ficando quieta sobrava surra para ela. Nunca vou esquecer o dia em que meu pai deu uma pedrada na cabeça dela. Mesmo desmaiada e sangrando, a pobre continuou sendo espancada. Aos oito anos eu só pude chorar. E jurar que um dia livraria minha família daquele sofrimento.

Aos 9 anos, a vida me deu uma primeira chance

Às sextas-feiras meu pai deixava a gente ir para a escola depois do meio-dia. Eu tomava um banho no rio e corria para o colégio, louco para ver os colegas, brincar e aprender. Aprender beeem devagar, afinal, só ia à escola uma vez por semana. Levei três anos para completar a primeira série e aprender a ler. Passei noites e noites com o livro no colo, tentando entender sozinho o que os professores ensinavam enquanto eu estava na roça. 

Quando fiz nove anos, a vida resolveu me dar uma chance: uma fazendeira vizinha me convidou para morar com ela e os filhos na casa que tinham na cidade. Mamãe deixou e lá fui eu, com minhas duas mudas de roupa. Mesmo tendo que lavar a roupa e limpar todos os cômodos, eu adorei. O lugar era espaçoso e a comida, boa. Como o marido era açougueiro, tínhamos carne no prato todos os dias. Eu me sentia rico!  

Decidido a me arrastar de volta para debaixo de sua cinta, meu pai foi me buscar uma semana depois. “Deixa o menino ficar, Dari! Cuido dele e o faço estudar!”, pediu dona Senhorinha. Meu pai botou a culpa na conta de mamãe, dizendo que ela que não deixava. Foi quando, pela primeira vez na vida, ela retrucou: “Deixo sim! Meu filho gosta de estudar e aprender. Ele vai ficar”. Só Deus sabe as surras que isso custou a ela...  

Eu desconfiava que não iria estudar coisa nenhuma, mas qualquer coisa era melhor do que a roça, onde nem cama eu tinha. De manhã, entregava nas ruas o leite que dona Senhorinha vendia. À tarde, lavava a louça e limpava a casa. Não havia como estudar. Me vi trabalhando em troca de comida e moradia. E aceitei, pois não apanhava e isso me soava como um gesto de carinho.

Para fugir, me escondi no banheiro do ônibus

Mesmo tão menino, eu já sabia que a vida podia ser melhor. As novelas mostravam a rotina dos pobres de São Paulo e eu só pensava: “Nossa senhora, quero ser pobre lá!”. Porque a vida dos durangos nas novelas era como a dos ricos ali onde eu morava. Coloquei na cabeça que São Paulo era a terra das oportunidades. 

Quando fiz 13 anos uma tia materna que morava em Mairiporã, interior de São Paulo, foi visitar mamãe. No dia que ela voltou decidi entrar escondido no ônibus. Me tranquei no banheiro só com a roupa do corpo. Lembro que estava frio e que minha barriga roncava de fome. Meu plano era ficar ali até chegar a São Paulo, ou seja, 24 horas de viagem. 

Mas fui descoberto assim que o primeiro passageiro quis fazer xixi e viu  que algo (no caso, eu) estava travando a porta. 

O motorista quase me bateu e ameaçou me deixar no Juizado de Menores. Eu implorava para que não fizessem aquilo! Ele só se acalmou quando minha tia me viu, me abraçou e pediu que seguisse viagem. Com a devida bênção de mamãe, passei a morar com titia, que tinha marido e oito filhos. 

Durante três anos cuidei da casa e lavei a louça. Me vestia com roupas que herdava dos primos e só tinha dinheiro uma vez ou outra, quando pedia uns trocados para a tia. Estudar? Nem pensar! 

Fiz alguns amigos e eles começaram a pagar a minha passagem de trem para ir até São Paulo, a capital, nos finais de semana. Eu viajava para fazer festa, ver gente nova e esquecer dos problemas. Foi assim que passei a frequentar a comunidade de Heliópolis. Fiquei indo e voltando por alguns meses, até que uma amiga me convidou para ficar na casa que ela dividia com dois amigos. Casa é modo de dizer, né? Era um barracão mesmo, de um cômodo só e com chão de terra. 

Me mudei para lá aos 16 anos. Tudo que eu tinha eram duas sacolas de plástico com roupas velhas e muita, muita coragem. Tudo bem: foi o suficiente para que aquele cantinho feio e mal acabado virasse meu primeiro lar de verdade.

Com meu segundo salário mandei buscar mamãe

Passei um mês procurando emprego. Engolia um gole de café, levava um pão velho no bolso e batia perna no centro da cidade caçando trabalho até o anoitecer. Não era fácil conseguir um aos 16 anos, só com a primeira série completa. Esses meus amigos foram verdadeiros anjos, não deixaram me faltar nada. Como se não bastasse me dar abrigo, a minha amiga me indicou para uma vaga de faxineiro em um prédio. Fui feliz da vida para a entrevista e no dia seguinte comecei a encerar o chão com um sorriso no rosto. 

Tentei dar uma chance ao meu pai... Não adiantou! 

Um mês depois recebi meu primeiro salário e usei para ajudar nas compras da casa. Já com o segundo pagamento eu trouxe mamãe, duas irmãs e dois sobrinhos. No terceiro mês, mandei outros dois irmãos virem. A gente ia se virando como dava. De madeira em madeira fomos erguendo  nosso barraco e começamos a tocar a vida juntos. Todo mundo ralou pra caramba. 

Cada irmão fazia um bico e ajudava com um pouquinho de dinheiro. Em dois anos conseguimos transformar nosso barraco em uma casa. Pequena, humilde e com dois cômodos divididos por um armário. Mas e daí? Era a nossa casa. 

Com o tempo, resgatei a família toda,  13 pessoas. Só sobrou meu pai em Minas. Tudo o que não tivemos na roça, como carinho, respeito e comida, conquistamos aqui em Heliópolis. 

Aos 20 anos voltei para Mato Verde para buscar meu pai. Eu sabia que ele estava sozinho e quis dar uma segunda chance para que pudesse viver em harmonia com a família. Ele veio numa boa, aceitando a regra de jamais levantar a mão para ninguém dentro da minha casa. Pena que um mês depois tentou agredir minha mãe... Na manhã seguinte, eu o coloquei em um ônibus de volta para Minas Gerais. 

Mas não guardei rancor! Fui o único filho a visitá-lo todos os anos e fiz questão de ir ao seu enterro. Eu o perdoei. O sofrimento é assim: ou nos revolta ou nos engrandece. Transformei a dor em forças para lutar. 

Mamãe mora aqui na comunidade mesmo. Uns irmãos estão em Heliópolis, outros em bairros próximos,mas seguimos cuidando uns dos outros. A vida me ensinou a valorizar tudo que tenho, da cama à família. Pode ser pobre, briguenta, alcóolatra, mas é minha. Assim como Heliópolis: podem chamar de favela, morro ou comunidade; seja como for aqui é meu lar e eu não o troco por lugar nenhum. 

Já tentaram até me matar e nem isso me fez abandonar o barco. Na época, os grileiros  mandavam na favela toda. A ordem era clara: baitola não fica aqui! Eles pregavam uma lista de nomes em todos os bares. Quem estivesse nela tinha 24 horas para abandonar Heliópolis, caso contrário era morte na certa. Sempre fui o primeiro da lista e nunca arredei o pé. Mais uma vez não desisti, persisti e sobrevivi! 

GERÔ BARBOSA, 44 anos, educador social, Heliópolis, SP

Hoje eu me dedico a retribuir tudo o que Heliópolis fez por mim

Só depois de trazer toda minha família pude estudar. Com 20 anos, um teste de escolaridade me colocou na quinta série. Foram oito anos de aulas noturnas depois do trabalho até concluir o ensino médio. Na sequência fiz jornalismo e pedagogia. Nesse meio tempo troquei de emprego algumas vezes. Fui faxineiro, ajudante geral de pedreiro, de caminhão, auxiliar de farmácia e inspetor de alunos. Com dois diplomas em mãos e muito conhecimento de causa, hoje ajudo a comunidade que me acolheu. Trabalho há 18 anos na UNAS, uma ONG local que auxilia no desenvolvimento social de Heliópolis. Supervisiono um projeto que proporciona uma complementação escolar a 180 crianças e adolescentes carentes. Além de alimentação, oferecemos preparação para que essas crianças possam concorrer a vagas em universidades públicas assim como o filho do rico. Além disso, toda semana faço um programa na rádio comunitária para falar sobre os direitos básicos de cada cidadão. A comunidade é minha vida e eu só tenho a agradecer por ela existir!


17/08/2016 - 15:30

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