Saúde: "O zika vírus fez meu filho nascer com microcefalia"

No início, os médicos não sabiam se meu bebê ia falar, andar, escutar ou só vegetar...

Reportagem: Christiane Oliveira

MARIA VITÓRIA SILVA ATAÍDES | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
MARIA VITÓRIA SILVA ATAÍDES | Crédito: Arquivo Pessoal
O primeiro teste de gravidez a gente nunca esquece, ainda mais quando o resultado é positivo... Não gosto de dizer que minha gestação foi indesejada, mas inesperada. Embora eu tivesse só 17 anos quando descobri que estava grávida, sabia que um filho era uma benção de Deus. Além disso, eu e o Sival já namorávamos há quatro anos e morávamos juntos. Como sempre quis ser mãe, aceitei aquela criança de coração aberto. Quando peguei meu bebê nos braços pela primeira vez, fui tomada por uma alegria inexplicável e, em seguida, por um medo terrível ao ouvir o médico dizer: “Seu filho tem microcefalia. Não posso dizer se ele vai andar, falar ou escutar. Pode ser que fique vegetando”. Eu tinha sido vítima do zika vírus, mas ninguém sabia ainda... 

Meu pré-natal não foi feito com qualidade 

Quando descobri que seria mãe, eu sabia que teria de deixar o sonho de fazer faculdade de direito de lado, abrir mão de ir para alguns lugares e até do meu sono. Mas nada disso me incomodou. 

Como fiz meu pré-natal pelo SUS, demorou um pouco para constatar que eu esperava um menino – durante a gestação, só fiz seis ultrassons. E, cada vez que ia a uma consulta, era um médico que me atendia. A saúde pública aqui onde moro é muito precária. 

Ele nasceu com a cabeça e o cérebro pequenos 

Minha gravidez foi tranquila até a 18ª semana, quando comecei a ter febre, dores no corpo e muita dor de cabeça. Fui para o pronto-socorro e o médico suspeitou de dengue. Fiz alguns exames e o resultado foi negativo. Fui diagnosticada com uma gripe leve, sem riscos à gravidez. 

Na 22ª semana, voltei ao hospital para fazer mais um ultrassom. Quando a imagem do meu bebê apareceu no visor, o médico disse: “A cabeça dele é um pouco pequena”. Perguntei o que poderia ser. “Pode ser genético. Ele puxou alguém da família que tem a cabeça pequena”, ele respondeu. Acreditei, mas fiquei com o pé atrás, pois não tinha nenhum parente assim. 

Aí, na 33ª semana comecei a sentir contrações e reparei que um pedaço do meu tampão havia saído. Com medo, procurei meu ginecologista e fizemos um novo ultrassom. “A cabeça do seu bebê parece meio pequena.” Retruquei: “Doutor, meu filho tem algum problema? O médico que fez meu último ultrassom falou a mesma coisa!”. Ele respondeu que aquilo era normal, pois a criança já estava encaixada e não dava para ver direito. 

Depois de constatar que estava tudo certo, ele me passou um remédio para segurar meu filho por mais algumas semanas, pois ainda estava no sexto mês de gestação. Não adiantou muito: duas semanas depois, as contrações e as dores voltaram ainda piores. Retornei ao hospital e, quando o médico chegou para fazer o exame de toque, a bolsa estourou. Como eu já tinha dilatação suficiente, não deu nem tempo de subir para a sala de parto. O Luiz nasceu na sala do pré-parto, no dia 25 de setembro de 2015. Peguei meu menino nos braços pela primeira vez: foi uma emoção e tanto! 

Quando eu já estava no quarto, a enfermeira trouxe o Luiz para eu amamentar e me deu a notícia de que ele teria que fazer uma tomografia, pois a cabeça era menor que o normal. Só então reparei que a cabecinha dele era pequena. A médica disse que havia duas possibilidades: microcefalia, que é uma interrupção do crescimento do cérebro, ou craniossinostose, o fechamento precoce dos ossos do crânio. 

O resultado saiu no mesmo dia e a doutora veio com a notícia: “Seu filho tem craniossinostose e precisa ser operado com urgência”. Nunca! Eu não ia permitir que abrissem a cabeça do meu bebê recém-nascido! Assim que tive alta, marquei uma consulta com um neuropediatra. Chegando lá, o resultado foi outro, ainda pior. “O que seu filho tem é microcefalia mesmo. O cérebro dele não cresceu o suficiente. A cabeça deveria ter no mínimo 32 cm, mas só tem 28 cm. Vou pedir alguns exames, mas com certeza ele terá um atraso mental.” 

Parecia que o mundo tinha acabado. Mas sabia que meu filho precisaria ainda mais de mim. Por isso, juntei os cacos e corri atrás dos exames. Antes de sair de lá, perguntei o que poderia ter causado isso. O doutor respondeu que algumas doenças como toxoplasmose e rubéola e pediu exames pra confirmar. 

Na outra consulta, com os resultados do Luiz em mãos, as notícias foram mais animadoras: “A visão e a audição dele estão perfeitas. Ele é bem esperto e está se desenvolvendo muito bem”. Mas o médico também disse para eu ficar alerta, pois a microcefalia causa lesões nos neurônios e podem ocorrer convulsões. 

Já os resultados dos meus exames deram todos negativos. Ele também descartou a hipótese de algum problema genético. Bem nessa época, no começo de novembro, estavam surgindo alguns casos de microcefalia ligados ao zika vírus, que também é transmitido pelo mosquito da dengue, no Nordeste. Quando contei que tive febre e dores no corpo no quinto mês de gestação, o neuropediatra ligou uma coisa à outra e falou que eu provavelmente tive contato com esse vírus. O problema é que só dá para constatar fazendo exames até cinco dias depois da picada. Mas, segundo o doutor, tudo indicava que o zika era o responsável pela microcefalia do meu Luiz. 

Lutarei pelos direitos do meu filho até morrer 

Quando o Luiz completou dois meses de vida, as convulsões começaram a aparecer. O médico receitou um remédio para evitá-las e disse que isso era muito ruim, pois a cada convulsão meu filho dava um passo para trás e esquecia tudo que aprendeu. Você não tem ideia do que é para uma mãe ouvir isso. É devastador! Até hoje, ele já teve três crises. A pior foi no último dia do ano, quando convulsionou por 15 minutos. Passei a virada no pronto-socorro. 

Olha, é muito difícil ter um filho especial. Precisei abdicar de tudo e viver 100% para ele. Como nem posso pensar em trabalhar por enquanto, conto com a ajuda de várias pessoas para pagar consultas e exames que o convênio dele não cobre. Fiz até uma campanha no Facebook, o #ajudeoluiz. Já ganhei tanta coisa: fralda, roupa, comida, mamadeira, chupeta – e até utensílios domésticos, que rifo. Sou muito grata a todos que me ajudam. Sem eles, não conseguiria pagar o tratamento do meu filho. 

Até agora, não dá para saber que problemas o Luiz terá. Mas o médico já indicou a fisioterapia, pois com quatro meses ele já fica durinho, tanto sentado quanto em pé. Quando começar a falar, vai fazer acompanhamento com uma fonoaudióloga. 

Desde que tudo isso aconteceu, meu sonho de ser advogada mudou. Agora pretendo ser fisioterapeuta, para ajudar outras mães que passam pelo mesmo que eu. E, independentemente de tudo isso, tenho certeza de que o Luiz só veio somar em minha vida. Sei que vou aprender muitas coisas com ele. 

Tudo o que mais quero é que meu filho seja tratado como uma pessoa igual às outras e que possa conviver com as demais crianças sem sofrer preconceito. Sei que isso é difícil, mas luto e lutarei pelos direitos do meu menino até minha morte! - MARIA VITÓRIA SILVA ATAÍDES, 18 anos, dona de casa, Rio Verde, GO

23/02/2016 - 08:52

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