Por amor, ele esperou para emagrecer comigo

O Fê ficou sete anos na fila do SUS para realizar o sonho de reduzir o estômago. Aí, foi autorizado a operar... Mas adiou tudo, pois não queria viver essa alegria antes de mim

Reportagem: Giulia Gazetta (com colaboração de Carolina Almeida)

O Fê ficou sete anos na fila do SUS para realizar o sonho de reduzir o estômago. Aí, foi autorizado a operar... Mas adiou tudo, pois não queria viver essa alegria antes de mim | <i>Crédito: Arquivo pessoal
O Fê ficou sete anos na fila do SUS para realizar o sonho de reduzir o estômago. Aí, foi autorizado a operar... Mas adiou tudo, pois não queria viver essa alegria antes de mim | Crédito: Arquivo pessoal

Você vai duvidar, mas é sério: até os meus 25 anos, pesar 117 kg não me incomodava NADA! Eu me achava bonitona e namorava muito! Também me dava bem no trabalho. Tanto que fui chamada para supervisionar uma equipe de vendas. Entre os meus funcionários, lá estava o Fernando. O jeitão engraçado e dedicado dele me atraiu de cara. Ficamos amigos e fazíamos tudo juntos: almoços, cafés, cigarros. E todo mundo queria juntar a gente. É porque as pessoas pensam que gordinha só pode namorar gordinho (Fê pesava 140 kg), sabe? Mas eu não achava isso nem um pouco ruim... Claro que tinha uma questão ética envolvida: eu não poderia namorar um funcionário. Ainda bem que a vida tratou de dar jeito nisso. Fui trabalhar em outra área da empresa, deixei de ser a chefe do Fernando, nos agarramos numa happy hour e nunca mais nos largamos.

Gastávamos R$ 3 mil por mês em rodízios

Quando começamos a namorar, em 2007, descobrimos um gosto em comum: a comida. Gastávamos R$ 3 mil mensais em rodízios de carne, pizza... Em questão de três anos, ficamos pesando 170 kg cada! Nós estávamos tão imensos que quebramos a cama enquanto dormíamos. Tivemos que adaptar o boxe do banheiro. Para tomar banho e ir ao banheiro, eu precisava da ajuda dele, pois não conseguia sozinha. Nossas transas foram ficando mais raras e difíceis. Ainda sentíamos tesão um pelo outro. Mas a logística era inviável. O Fernando dizia que nós fazíamos sexo no estilo gangorra: ou beijava ou penetrava. Fui ficando lenta para andar, passei a sentir fortes dores no meu joelho. E o Fernando desenvolveu diabetes. Apesar de toda essa situação deprimente, continuávamos em plena harmonia. Mas perdemos a nossa força quando eu entrei em depressão.

Serraram os braços da cadeira pra me desentalar

Só me dei conta de que a situação estava fora de controle quando entalei na cadeira do trabalho e tive que chamar a manutenção para cortar os braços da cadeira fora. Chorava e dizia que não tinha mais jeito. Pensei até em me matar! Comecei um tratamento psiquiátrico e me afastei do serviço. O engraçado era que, apesar de estar desesperada, nem passava pela minha cabeça fazer a tal da cirurgia bariátrica. Eu sentia medo de morrer na mesa de cirurgia porque meu índice de massa corporal (o IMC, que mede a proporção peso/altura) estava muito além do permitido. E, naquela época, os médicos diziam: quanto mais alto o IMC, menor a chance de a operação dar certo. Já o Fernando sonhava com a redução de estômago desde antes de nos conhecermos. Havia se inscrito para fazer a dele pelo SUS em 2003, pois sofria com as piadas, os comentários, os preconceitos... Tentava de tudo, coitado: dieta, esportes, academia! Mas nada adiantava. Aí, ironia das ironias: bem quando eu estava no buraco, sem nenhuma estrutura emocional, meu amor foi chamado para ser operado. Ou seja, ele ficaria magro e saudável e eu continuaria gorda e morrendo. Foi difícil, mas eu o apoiei. Tanto que o Fernando fez toda a bateria de exames pré-cirúrgicos. Porém, na hora H, desistiu. Ele chorava muito e me dizia: “Eu tenho medo de morrer”. Eu acreditei, porque também sentia medo. Logo, eu compreendi a decisão dele.

Ele desistiu de operar para não me deixar pior

 A verdade por trás daquela atitude do Fê só foi aparecer dali a seis meses. Uma amiga minha fez a cirurgia bariátrica e foi tudo tão simples que me animei. Peguei o contato do médico dela e fui atrás. O Fernando me acompanhou nos exames e esteve ao meu lado o tempo todo. Consegui “furar” a fila do SUS porque meus números já me enquadravam na categoria de ‘obesa supermórbida’. Eu podia morrer, até mesmo durante a cirurgia. Mas pensei: “Pelo menos, vou morrer tentando me salvar, né?” Em seis meses, lá estava eu entrando na faca.

Como aquele podia ser meu último dia, me despedi de todo mundo. O Fernando só chorava. Por sorte, sobrevivi. E quando eu voltei, meu amor me revelou: “Não quis fazer a cirurgia porque não suportaria ficar numa boa e te ver naquele sofrimento todo”. Ele abriu mão do sonho dele por mim, porque não queria que eu ficasse pior do que eu já estava. O mínimo que eu podia fazer era incentivá-lo a passar pela cirurgia também, né?

Tudo em nós diminuiu... Já o nosso amor cresceu!

Um semestre depois da minha cirurgia era a vez de o Fernando realizar seu sonho. Ajudei meu amor nos momentos difíceis do pós-cirúrgico – são 15 dias de dieta líquida, 15 dias de dieta semipastosa e mais 15 de dieta pastosa. Várias vezes o Fernando pensou em desistir. Mas eu sempre dizia: “Se eu consegui (já tinha perdido 35 kg), você consegue”. Eu já tinha duas filhas antes da cirurgia, Flávia de 19 anos e a Bruna de 17. Com o meu peso atual, consegui realizar meu sonho de ter mais dois filhos, só que através do parto humanizado: Luiz, de 1 ano e 10 meses e o pequeno Gael, de 2 meses. Hoje, peso 71 kg e ele 100 kg. Nossa vida sexual é um agito só e podemos tomar banho juntos, pois cabemos os dois no boxe! Muita coisa mudou desde que emagrecemos. Nossos hábitos, nosso humor, nossa disposição... Só o amor que sentimos um pelo outro é que continua intacto!

Débora Kadar Mendaçolli, 35 anos, gerente executiva, São Paulo, SP

“Desisti porque não suportaria vê-la sofrendo”

Jamais gostei de ser gordo e, apesar de arriscada, a cirurgia bariátrica era minha única salvação. Meu sonho era ser chamado pelo SUS e poder fazer tudo de graça, já que não tinha grana para o procedimento. Só que, quando isso finalmente aconteceu, achei melhor recusar. A Débora estava muito mal, prestes a desistir da vida. Eu acompanhei minha mulher à beira do suicídio. Não podia ser egoísta a ponto de querer emagrecer sozinho – não naquele momento! Então, adiei os meus planos e prometi a mim mesmo que só faria minha cirurgia depois que ela fizesse. Quando esse dia chegou, meu Deus, quanto medo! Meu amor podia morrer! Mas valeu a pena. Nós emagrecemos e recuperamos nossa saúde juntos, dando força um ao outro. Débora foi essencial para a minha recuperação e, tenho certeza, também a ajudei muito. Se sempre carreguei essa mulher no coração, hoje consigo carregar também no colo!

Fernando Mendaçolli, 31 anos, analista de relacionamento, o marido da Débora

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23/05/2017 - 13:35

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