"Perdi cabelo, orelhas e sobrancelhas, mas lutei e renasci como mulher"

Hellen parou de se ver como coitadinha, mudou o modo de encarar a vida e hoje é uma vencedora!

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HELLEN ARAÚJO DE SOUZA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
HELLEN ARAÚJO DE SOUZA | Crédito: Arquivo Pessoal
Eu tinha só 6 anos e, como de costume, estava pegando sorvete da máquina lá de casa, pois minha família tinha uma sorveteria. De repente, meu cabelo, que batia na cintura, enroscou no eixo do equipamento. O puxão foi tão forte que fui lançada por cima da máquina. Não consegui me soltar e comecei a gritar. Quando minha mãe apareceu, viu que a coisa era muito grave. Eu era muito pequena e não me lembro da dor e do sangue. Mas devia estar feio, pois ela imediatamente amarrou uma toalha na minha cabeça e um vizinho me levou ao hospital. 

Tive todo o couro cabeludo e parte das orelhas e sobrancelhas arrancados. Fiquei em coma induzido por três dias por causa da complexidade da cirurgia. O médico precisou tirar pele das minhas coxas para fazer enxerto no crânio, que estava exposto. A recuperação foi dolorosa e longa: fiquei dois meses no hospital. Quando voltei pra casa, foi difícil retomar a vida normal. Tinha medo de me olhar no espelho, tanto que minha mãe cobriu todos. Usava lenços e toucas na cabeça para esconder a careca e os defeitos das orelhas. 

Na escola, também foi bem complicado. As pessoas tratam diferente quem é deficiente, fazem piada. Era muito difícil. Eu acabava me isolando. Por tudo isso, eu tinha tudo para me tornar alguém traumatizada para o resto da vida. Mas aí, aos 15 anos, em uma consulta médica, conheci uma moça que teve quase o corpo todo queimado. Apesar das circunstâncias, ela era tão feliz, tão alto-astral, não tinha pensamento ruim. Foi então que parei pra refletir. Era como ela que eu tinha que ser. Não queria ser a coitadinha deficiente, sabe, eu tinha meu valor! Mudando o modo de ver as coisas, segui minha vida de um jeito muito melhor, completei os estudos e fiz faculdade. E no curso de artes me apaixonei pela fotografia, que virou minha profissão. Acho que vi nas fotos a possibilidade de registrar momentos únicos e especiais que me fazem lembrar como é bom estar viva! 

Hoje sou muito feliz e não tenho problemas com o espelho e com a autoestima. Fiz um desenho definitivo nas sobrancelhas e, quando quero, coloco uma perucona linda, escondendo a careca e as orelhas. Pronto! Não vivo com o peso de quem tem sequelas de um acidente e sim com a leveza de quem se considera uma vencedora! - HELLEN ARAÚJO DE SOUZA, 25 anos, fotógrafa e laboratorista, Sorocaba, SP

"Usava lenços e toucas para esconder a careca e o defeito nas orelhas"

22/07/2015 - 09:00

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