Perdi a memória e voltei 11 anos no tempo!

Sabrina Bittencourt jurava que estava em 2002 e tinha um filho de 3 meses. Só que já era 2013, ela vivia seu segundo casamento e era mãe de três crianças...

Reportagem: Caroline Cabral

A família da Sabrina e do Rafael: Gabriel (14), Raquel (7) e David (5) | <i>Crédito: Arquivo pessoal
A família da Sabrina e do Rafael: Gabriel (14), Raquel (7) e David (5) | Crédito: Arquivo pessoal
Quem conta a história do dia em que esqueci 11 anos da minha vida é meu o pai dos meus filhos, o Rafael. Até hoje não lembro do dia 19 de julho de 2013. Rafa diz que eu estava servindo almoço a dois dos nossos filhos – Raquel, de 7 anos, e David, de 5 – quando saí do ar por 30 segundos, hipnotizada pelo nada. Ao voltar, não sabia onde estava. Quem eram aquelas crianças? E esse cara me chamando de amor? “Meu marido é o Vinícius!”, chorei. Ninguém sabia, mas meu cérebro tinha voltado para 2002, quando meu filho mais velho, o Gabriel, tinha 3 meses e eu estava no primeiro casamento.

Fui parar num hospital psiquiátrico público 
Das 14h às 22h, alternei crises de choro e sono profundo. Rafael tentava, em vão, me acalmar, então chamou uma ambulância. Os paramédicos decidiram me levar para a ala de um hospital público em SP, porque o Rafa estava em choque e não conseguia se comunicar em português direito...Ele é espanhol. Não o deixaram entrar e fiquei sozinha. 
Passei a madrugada em claro. De manhã, as enfermeiras vieram tirar sangue para exames. Assustada, me esquivei. O segurança pôs o joelho na minha barriga e torceu meu braço. Li meu diagnóstico numa lousa: Sabrina, retardo mental e catatonia (alternância de apatia e excitação extremas). Como podiam saber? Eu nem havia passado por consulta! 
Pedi um giz e escrevi por cima: “Moro em Boa Viagem (bairro de Recife, onde vivi com meu primeiro marido), meu filho é o Gabriel e meu marido é o Vinícius”. Rafa conseguiu avisar minha mãe e ela foi me resgatar depois de muitas horas. Me encontrou coberta de hematomas, porque eu tinha tentado fugir e o segurança me bateu sem dó.

Achava que amamentava e saiu leite do meu peito! 
Minha mãe me tirou daquele inferno, mas o pesadelo continuou. Eu tinha tanta certeza que estava com 21 anos e que o Gabriel tinha 3 meses que quis amamentar. Saiu até leite do meu seio! A família decidiu me levar pra casa de mamãe, em Indaiatuba, interior de São Paulo.
Uma das minhas irmãs, a Cibelle, veio me ver e explicou com calma o que havia acontecido. Falou como Gabriel já estava crescido e me pôs para falar por telefone com nossa irmã Camila, que eu jurava ter 1 ano, mas que já estava com 12. Foi muito chocante pra mim!
Rafael e nossos dois filhos foram ficar comigo em Indaiatuba – Gabriel ficou com a avó paterna, em Recife, pois eu não aceitava que ele havia crescido. Tentei muito lembrar das crianças, mas não sentia a menor conexão com elas. Todo dia a Raquel perguntava se já me lembrava dela, tadinha! 

Vivia dopada e continuava sem lembranças 
Passei a me tratar e fui diagnosticada com Transtorno Dissociativo de Memória (veja quadro). Tomava remédios, mas me sentia triste o tempo todo, com a mente em branco, feito um zumbi. Depois de 20 dias dopada, joguei a medicação fora e comecei a escrever cada lembrança que vinha à mente.
Também pedi para que amigos me contassem quem eu era para eles. Recebi lindas cartas! Rafa organizou um encontro com 10 deles, de várias fases. Fui vendada pra não saber quem falaria comigo. Ao sentir o perfume da Anielle, uma amiga que conheci em 2013, minha cabeça foi inundada por imagens soltas. Lembrei seu nome e tive a sensação de que a amava. Foi muito emocionante finalmente lembrar de alguém! Retomar a convivência com o Rafa foi um processo delicado e muito íntimo, que prefiro não expor. Já com as crianças foi mais fácil e natural. Afinal, filho tem a conexão biológica, né? Em dezembro de 2013, cinco meses após a amnésia, o Rafa, as crianças e eu, decidimos começar uma jornada por todo o Brasil para agradecer às pessoas que nos apoiaram no processo. Doamos nossas coisas e, com mochilas nas costas, estivemos em mais de 30 casas diferentes, oferecendo o nosso melhor pelo melhor das pessoas
No dia 28 de dezembro, chegamos na casa de uma amiga em Piracaia (SP). Ela nos chamou para ir a uma tal Tenda do Suor. Nunca tinha ouvido falar naquilo, mas decidi experimentar. 

Minha memória voltou num ritual indígena 
Entrei na tenda e vi que as pessoas formavam um círculo. No centro dele, pedras em brasa deixavam o ambiente muito, muito quente. A cerimonialista, chamada Gláucia, jogou água  nas pedras (não havia alucinógenos) e pediu que cada um contasse uma história que desejava abandonar. Como já não acreditava que fosse recuperar a memória, escolhi deixar para trás outros traumas do passado. Nisso, um clarão me atingiu e fechei os olhos. Um filme da minha vida começou a passar tão rápido na minha cabeça que eu gritava, achando que ia morrer. Quando acabou, senti que tinha recuperado toda a memória. Difícil traduzir a emoção de reencontrar o amor pela minha família... 
Ficamos vivendo na estrada por oito meses. Voltamos para SP e seis meses depois, além de recuperar a memória e o conhecimento pelos projetos que desenvolvia, fui convidada pelo governo do México para criar um programa de empreendedorismo e tecnologia para milhares de jovens. Fiquei lá por um ano e hoje moro na Espanha com o Rafael. Se tenho medo de passar pela amnésia de novo? Não mesmo!
Ela foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. Foi uma grande oportunidade de recomeçar e renovar quem eu sou. Meus filhos tornaram-se mais independentes e fortes. Ganhei novos amigos e reforcei os antigos. 
O ruim é que meus familiares ainda não me reconhecem como sou hoje. Ficaram com a sensação de que a pessoa que fui morreu. E é fato: aquela mulher não existe mais em mim. Só existirá no livro que estou escrevendo com todas as minhas histórias. O título é Lembrando de Mim: Vaca Profana, em co-autoria com a filósofa Carla Ferro. Será lançado até o final do ano, para que esta experiência ajude a maior quantidade possível de pessoas. Um filme para cinema está sendo produzido, inspirado livremente nesta história, e será protagonizado pela atriz Ingrid Guimarães, com direção de Lais Bodanzky, produção de Morena Filmes e roteiro de Ana Reber. Queremos mostrar que é possível recomeçar do 0.

Sabrina Bittencourt, 35 anos, empreendedora social, Barcelona, Espanha


Tenda do Suor: um ritual milenar
Tradição dos povos nativos do norte das Américas (Estados Unidos e Canadá), a Tenda do Suor é uma cerimônia de purificação realizada sob uma tenda coberta de mantas. No centro dela, pedras aquecidas são molhadas com água e nada mais, gerando vapor e fazendo os participantes suarem, enquanto dançam e cantam. Segundo Gláucia Mimbi, cerimonialista da tenda de Sabrina, “o vapor altera a vibração do corpo, promovendo uma abertura de consciência que elimina bloqueios”. O ritual é gratuito e acontece mensalmente. Para mais informações, procure o atendimento ao leitor da Sou Mais Eu!.


“Entendi que, se a amava pra valer, devia aceitar sua nova versão” 
“Quando vi a Sabrina sem saber quem era e onde estava, achei que ela tinha sofrido um AVC ou algo assim. Foi muito duro deixá-la naquela ala psiquiátrica sozinha! A entrada de homens não era permitida e eu precisava cuidar dos meninos. Voltei para casa pensando que, se fosse preciso, abdicaria de tudo e dedicaria minha vida a cuidar dela, para que nunca lhe faltasse nada. Com o tempo, fui percebendo que a mulher que amo sempre esteve fisicamente presente. Mas foi muito triste perceber que sua essência havia desaparecido. Ela mudou completamente, virou uma nova pessoa –  mas nem por isso era uma estranha para mim. Não precisei reconquistá-la. Juntos, fizemos uma ressignificação do nosso relacionamento. Foi um período de readaptação. Naqueles cinco meses, tudo que fi z foi mostrar meu amor por ela. Deixei que seu sentimento por mim fluísse livremente. Faço isso até hoje. Entendi que, se realmente a amava, deveria aceitar sua nova versão. No fim, a amnésia nos ajudou a evoluir. Hoje, respeitamos a liberdade individual de cada um.” 
Rafael Megías, 43 anos, engenheiro, companheiro de Sabrina

Rafael e Sabrina


Amnésia pode acontecer com qualquer pessoa!
Sabrina teve um Transtorno Dissociativo de Memória, estado emocional que afeta a memória, fazendo a pessoa perder o referencial de realidade e voltar a viver em algum momento passado. Por se tratar de um bloqueio e não de uma lesão cerebral, este não é um quadro neurológico, mas psiquiátrico. Segundo Alfredo Toscano, presidente do Comitê de Medicina Psicossomática da Associação Paulista de Medicina, a amnésia pode ter várias causas. 
Uma delas é quando um indivíduo lida mal com seus traumas e questões emocionais. “Aí, a própria mente se encarrega de promover a dissociação, o desligamento daquela dura realidade”, diz Toscano. Todo mundo pode desenvolver o transtorno, mas ele é mais comum entre mulheres. Felizmente, é sempre reversível, tratável com remédios e terapia. O tempo de superação varia, mas costuma ser curto, questão de horas ou dias. Toscano alerta: “Se o conflito interno que causou a amnésia não for devidamente tratado com psicoterapia, a chance de a amnésia acontecer novamente é alta”. Ao lidar com alguém assim, tranquilize mostrando a data e explicando a situação enquanto procura socorro. 

19/07/2016 - 19:47

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