"Parei com as drogas ao ver que meu filho começou..."

Ao perceber que o Rafael estava indo pelo mesmo caminho que ela, Sueli se tratou, abandonou o vício de 12 anos e salvou seu menino!

Reportagem: Júlia Arbex

SUELI ALVES FERREIRA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
SUELI ALVES FERREIRA | Crédito: Arquivo Pessoal
Eu estava um lixo: não comia, mal dormia e às vezes quase não conseguia falar ou ficar de pé. Fazer as tarefas domésticas e levar meus dois meninos para a escola exigia um esforço gigantesco. Quando finalmente chegava a noite, colocava os garotos para dormir e dava no pé. Como meu marido tinha me abandonado, as crianças ficavam sozinhas. Eu não ligava: só queria saber de encontrar meus “amigos” e cheirar muito. Precisava daquela sensação que a cocaína me proporcionava toda noite. Sabia que estava no fundo do poço e que precisava me livrar daquele vício, mas não tinha forças para lutar. Até que vi meu filho Rafael seguindo o mesmo caminho que eu... 

Comecei a usar cocaína quando meu marido me trocou por outra 

Quando me casei com o Altair, aos 23 anos, eu era fumante e minha relação com as drogas não passava de um baseado bem de vez em quando. Isso começou a mudar oito anos depois, quando meu filho Rafael já tinha 2 anos e eu estava grávida do Rodrigo. Fui apunhalada pelas costas: descobri que meu marido me traía. Fiquei arrasada, mas tive de perdoá- lo porque era ele que nos sustentava. 

Para piorar, a dona da casa onde morávamos de aluguel faleceu e tivemos que nos mudar. Com um bebê na barriga, uma criança para criar e um marido que pulava a cerca, no ano de 1989 fui morar com minha família numa comunidade próxima, onde o Altair conseguiu comprar uma casinha humilde para nós. 

Eu achava que, com a mudança, minha família ia ficar mais feliz e unida, mas não foi isso que aconteceu. Poucos meses depois, o Altair me deixou e foi morar com a outra. Fiquei perdida e passei a procurar algo que me tirasse o sofrimento. Acabei conhecendo pessoas que me levaram até a cocaína. Não deu outra: quando me sentia mal ou sozinha, buscava conforto na droga. Nem percebia o tempo passar e as coisas que fazia. Cheguei até a brigar na rua! 

Mas a sensação era muito boa. Ficava eufórica, me achava invencível e meus problemas desapareciam. Só que quando o efeito passava... Me sentia uma inútil. Mesmo assim, não encontrava força para me livrar do vício. Passaram-se oito anos assim e eu me afundava cada vez mais. O mais triste é que meus meninos viam minha situação... 

Nesse meio-tempo, conheci o José, um cara bem loucão que vivia cercado de mulheres e também cheirava. A gente ficava às vezes e acabei tendo dois filhos com ele, a Raquel e o Rogério, mas precisei colocá-los num internato porque não tinha condições de cuidar deles. Uma vez, eu e José estávamos em êxtase e de repente ele apontou uma arma na minha cabeça, gritando que ia me matar. Fiquei em pânico. Depois desse dia, ele desapareceu. Seu fim foi trágico: morreu assassinado numa briga de rua. Mas nem assim parei de me drogar. 

Fiquei 12 anos nessa “vida loka”, deixando meus filhos na mão de Deus. Só tomei uma atitude quando o Rafael completou 14 anos. Alguns conhecidos do bairro vieram me falar que meu menino estava fumando maconha com os amigos. Mesmo fraca e perdida, passei a reparar no estado em que ele chegava da rua. O Rafael estava muito calado, afastado dos irmãos, começou a tirar notas baixas na escola, passou a andar com outro grupo de amigos e ficava na rua até muito tarde. Percebi que ele estava usando droga mesmo! 

A partir daí, desesperada, me dei conta de que tinha chegado o momento de começar minha recuperação, pois não suportaria ver meu menino chegar ao fundo do poço em que cheguei. Pedi ajuda à minha irmã, que sempre ficou ao meu lado. Fomos juntas a um hospital próximo para começar um tratamento. Por um ano e meio, duas vezes por semana, ia fazer terapia em grupo. Esses encontros me ajudaram muito, pois via que não era a única com problemas e não estava lutando sozinha. 

A psicóloga também me encaminhou para um cardiologista, pois o cigarro que eu fumava havia 30 anos me deixou com um problema respiratório e tosse crônica. Tomei remédio para parar com o cigarro e consegui largar o fumo. Também usei antidepressivos para superar a angústia e seguir em frente no tratamento contra o vício. Ainda tive de ir ao dentista porque a droga fez meus dentes apodrecerem. 

Nessa fase, comecei a ir aos encontros de jovens da igreja e conheci muitos ex-usuários de drogas que me inspiraram com suas histórias de superação. Assim, fui abandonando a droga gradativamente. Quando a vontade apertava, assistia na TV testemunhos de ex-drogados para me fortalecer. Por isso, não tive nenhuma recaída. Muitas vezes fiquei estressada e desconfortável pela falta da cocaína, mas em nenhum momento senti abstinência nem pensei em desistir. Levei um ano e meio para ficar limpa e livre do vício. Conforme os dias iam passando, mais orgulhosa ia ficando. 

Até hoje não contei para o Rafael que fiz tudo isso por ele. Nunca falei abertamente sobre drogas com meu filho. Só queria mostrar a ele que, se eu conseguisse largar meu vício, ele também conseguiria. Durante todo o processo, conversávamos, ficávamos mais tempo juntos e até nos abraçávamos, coisas que antes não aconteciam. Viramos amigos. Assim, meu menino foi largando a droga até sair do mau caminho de vez! Acredito que não ajudei só o Rafael, mas também dei exemplo para Rodrigo, Raquel e Rogério. 

Estou limpa há dez anos e reconstruí minha vida 

Graças a Deus e ao amor pelos meus filhos, estou limpa há dez anos. Nesse tempo, fui reconstruindo minha vida. Estou trabalhando como auxiliar de limpeza e não dependo de ninguém. Uso meu dinheirinho para comprar coisas pra casa e ajudo meus filhos quando eles precisam. Mas minha grande alegria é ver que meu Rafael está recuperado, casado e com um filho lindo! Sinto que fiz parte dessa conquista! - SUELI ALVES FERREIRA, 51 anos, auxiliar de limpeza, São Paulo, SP

“Ver a batalha dela me fez largar o vício”

“Desde pequeno, eu via minha mãe fumando cigarro e sabia que curtia bebida alcoólica. Mas foi quando meu pai a largou que tudo piorou. Ela ficou desolada: se envolveu com bandido e entrou para o mundo das drogas. Quando fiz 12 anos, ela vivia noiada. Tinha manhãs, quando batia a depressão pós-droga, que ela nos acordava de tanto chorar. Quando corria para o quarto para ver o que estava acontecendo, mamãe estava no escuro soluçando e não conseguia trocar uma palavra. Foi assim durante anos. Foi por causa desse maldito vício que ela não era presente na minha vida: mal conseguia expressar seus sentimentos. Sem ninguém que pudesse me aconselhar e servir de exemplo, acabei fazendo muitas besteiras. Aos 14 anos, comecei a fumar maconha com os amigos e até usei cocaína algumas vezes. Só fui parar com as drogas uns seis anos depois, quando vi minha mãe empenhada e batalhando para mudar de vida. Hoje tenho muito orgulho dela, da pessoa que se tornou. Somos bastante próximos, ela está muito amorosa e é uma avó presente.” - RAFAEL ALVES, 27 anos, instalador, o filho da Sueli




13/11/2015 - 09:30

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