"Minha netinha é bailarina numa cadeira de rodas!"

Mesmo com os movimentos limitados por uma má-formação de nascença, a Malu nunca desistiu do seu sonho de dançar. Ela não deixa que sua defi ciência imponha limites!

Reportagem: Daniel Lopes

MARIA LUÍSA ARRUDA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
MARIA LUÍSA ARRUDA | Crédito: Arquivo Pessoal
As luzes do teto se apagam. As pessoas vão parando de falar e todos olham para a frente, atentos. O silêncio dá lugar à música. A iluminação do palco acende. Não consigo conter a emoção quando vejo a Malu entrar e começar a dançar, brilhando na sua roupinha de bailarina. Me encho de orgulho e admiração: com apenas 7 anos de idade e sem condições para ficar em pé, minha neta conseguiu superar todos os obstáculos para realizar seus sonhos. Mesmo em cima de uma cadeira de rodas, nada separa minha neta do objetivo que ela quer alcançar! 

A Malu nasceu sem movimentos e sem falar 

Tenho a guarda da Malu desde que ela nasceu. Meu filho, pai dela, morreu em um acidente quando ela tinha 7 meses de idade. Como a mãe era muito jovem, pedi para cuidar da menina. As duas mantêm contato até hoje e a Maria me ajuda a pagar o convênio médico da Malu. Mas ela vive comigo. Como o pré-natal não foi feito, só descobrimos no parto que ela tinha uma má-formação. A Malu nasceu sem nenhum movimento no corpo. Ao nascer, teve o fêmur fraturado e foi encaminhada direto para a UTI, onde passou os primeiros seis meses de vida. 

Logo que saiu do hospital, a Malu só se alimentava através de uma sonda porque não conseguia nem movimentar os músculos da boca, muito menos falar. Foram dois anos inteiros assim, sem conseguir mastigar, sugar ou engolir. Eu perguntava aos médicos se eu podia fazer alguma coisa para que ela melhorasse. A resposta era: “Apenas dar todo seu amor e cuidado”. Chorei muito ao saber disso, mas decidi que ia fazer tudo ao meu alcance para minha neta sobreviver. Pedi licença do trabalho para dedicar toda minha atenção a ela. 

Desde que saiu da maternidade, a Malu frequenta a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Ela precisa de um tratamento de reabilitação, pois aquela fraqueza nos ossos e músculos vinha acompanhada de uma escoliose progressiva. Era preciso fazer uma cirurgia pra colocar implantes dos dois lados da coluna, garantindo que ela tivesse mais sustentação no corpo, já que seu fêmur é descolado da bacia, o que a impede de ficar de pé. 

‘Vovó, um dia quero fazer balé. Eu vou conseguir?’ 

Esse procedimento seria um sofrimento para minha netinha, pois os implantes deveriam ser substituídos e alongados a cada seis meses para acompanhar seu crescimento. Ainda na AACD, ela faz acompanhamento psicológico, pedagógico, fisioterapia, hidroterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. O avanço foi visível: com 2 anos de idade, a Malu conseguiu começar a falar e não parou mais! 

Conforme o tempo passava, percebia o quanto minha menina era especial. Ela adorava falar, rir e dar opinião sobre tudo. Com 3 anos, num evento na igreja que frequentamos, a Malu viu uma menina vestida de bailarina e já me chamou: “Vovó, um dia quero fazer balé também. Eu vou conseguir?” Na hora, não soube o que responder. Tinha medo do que podia acontecer com ela numa aula de dança, que exige tanto. 

Mesmo assim, logo depois procurei uma escola de dança na região e a professora me garantiu que o balé poderia servir como exercício de fisioterapia fora do tratamento. Fiz a matrícula! 

A primeira aula foi encantadora. A Malu não conseguia segurar o sorriso no rosto. Foi comovente ver as coleguinhas da turma fazendo questão de ajudá-la, superanimadas por ter uma amiga dançando na cadeira de rodas. Todas queriam conduzir a cadeira da Malu. Sentadinha, ela fazia as coreografias com os braços! 

Também me emocionei ao ver como a professora era cuidadosa com ela, só avançando até onde minha neta conseguia. De lá até agora, são duas aulas de balé por semana, com duração de uma hora cada. E o tempo passa voando pra Malu, já que ela não pode ouvir uma música que já fica remexendo na cadeira. 

Desde que começou a dançar, a Malu já se apresentou cinco vezes em teatros e auditórios aqui em Pernambuco. A cada evento, ela prova que a deficiência não é limite para ela. Ao vê-la toda arrumadinha, maquiada e fazendo caras e bocas no palco, só consigo pensar na força que minha menina tem para viver! 

“Vovó, eu vou ser uma estrela”, ela me disse uma vez quando deu uma entrevista para um repórter local. No dia seguinte, na AACD, todos queriam tirar uma foto com ela, pedindo autógrafos... A Malu se sentiu! Não me arrependo de me dedicar à minha neta! Em fevereiro deste ano, a Malu começou a sentir muitas dores e os médicos descobriram que uma das hastes encaixadas na sua coluna tinha se desprendido por causa dos movimentos que ela fazia com os braços para empurrar a cadeira de rodas. Então, conseguimos providenciar uma cadeira motorizada com o dinheiro arrecadado com a ajuda de amigos e parentes. 

Em questão de cinco minutos, a danadinha aprendeu a se virar com os vários botões. Hoje ela consegue dançar muito mais livre e solta, sem precisar ser empurrada por ninguém ou fazer grandes esforços. Isso só me faz ter mais certeza da minha decisão de me dedicar de corpo e alma à minha neta. A Malu merece isso e muito mais! - ELIECI BELARMINO DE ARRUDA, 50 anos, professora, Paulista, PE



“Corro atrás de tudo que desejo!”

“Sempre que vou entrar no palco, me dá vontade de chorar de emoção. Me sinto muito bem por conseguir aprender os passos e dançar, mesmo com minhas limitações. É a coisa que mais gosto de fazer! Quando recebo os elogios no final da apresentação, me sinto como uma grande estrela, a menina mais linda do mundo! Desde a primeira vez que vi alguém dançando balé, já me encantei. Nas aulas, me diverto e acabo me exercitando também. Com a ajuda das minhas colegas e da professora, tudo fica mais fácil e consigo realizar todos os movimentos necessários, mesmo fazendo bastante esforço. Meu maior desejo é encher minha avó de orgulho e provar pra todo mundo que posso fazer qualquer coisa que quiser. Nunca posso parar de sonhar porque só assim vou conseguir correr atrás de tudo que desejo!” - MARIA LUÍSA ARRUDA, 7 anos, a neta da Elieci

“A dança é para todos, sem limites”

“Antes de trabalhar com a Malu, eu já tinha tido alunas com síndrome de Down e autismo. Fiz cursos para aprender a lidar com crianças com deficiência e posso dizer que elas são tão capazes de dançar quanto qualquer outra pessoa. Todas as colegas da Malu se encantaram com ela e a receberam de braços abertos. Isso é muito importante, pois cria um clima de cooperação entre todas. Não vejo a Malu como alguém que tem mais dificuldade do que as outras alunas. Tenho que trabalhar dentro das suas limitações, naquilo que ela pode me oferecer. Mas é assim com qualquer outra. Nem todo mundo consegue fazer todos os movimentos e tenho que respeitar esses limites. Nas apresentações, me preocupo em colocar a Malu na frente ou no centro do palco para que as outras meninas não esbarrem nela e alguém se machuque. Até hoje, nunca tivemos nenhum acidente! A dança é para todos. O balé não impõe nenhum limite. Basta que a pessoa tenha força de vontade e vença seus próprios bloqueios para aprender. A Malu é capaz de tudo que desejar!” - SIGMARA CAITANO, 22 anos, a professora de balé da Malu





22/10/2015 - 09:00

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