Meus brigadeiros pagam o tratamento do meu filho com Down

Consegui a grana da primeira meta 12h depois de divulgar a história do meu bebê

Reportagem: Gabriella Gouveia

Uso todo o dinheiro dos brigadeiros para os tratamentos do Henri | <i>Crédito: Milena Aurea
Uso todo o dinheiro dos brigadeiros para os tratamentos do Henri | Crédito: Milena Aurea
Quando era menina, fazia brigadeiros e vendia para os vizinhos de casa. Com o lucro, comprava produtos de beleza e acessórios de cabelo. Nunca imaginei que esse mesmo brigadeiro que pagava minhas futilidades de adolescente seria a solução para o tratamento de Síndrome de Down do meu bebê de 5 meses.
Engravidei em 2015 e com 12 semanas de gestação fiz um ultrassom de rotina para saber a translucência nucal do meu filho- que são as medidas do feto tiradas no primeiro trimestre. O exame também é usado pra detectar a Síndrome de Down e outras anomalias cromossômicas. Com os resultados, a médica alertou que nosso bebê poderia ter alguma malformação. Foi como um banho de água fria; esperava que a saúde do meu bebê fosse perfeita. Quando recebemos a notícia de que ele poderia ter alguma síndrome, ficamos em choque. Meu marido não quis acreditar, nós não tínhamos casos na família e ouvíamos que a Down era como um bicho de sete cabeças.
O exame recomendado para diagnosticar a suspeita da doutora era um procedimento arriscado. Como é feito nas primeiras semanas, muitas mulheres perdem o bebê. Eles introduzem uma agulha para a retirada do líquido amniótico de dentro do útero. Não aceitei fazer com medo de prejudicar meu filho. Continuei com acompanhamento médico e exames de rotina pelo resto da gestação, sem saber se meu filho teria alguma anomalia. Me conformei com a hipótese, mesmo com medo. Já meu marido seguiu confiante de que poderia ser apenas um palpite errado.

Mais uma surpresa no nascimento, meu filho tinha cardiopatia congênita

Em maio deste ano o Henri nasceu com Síndrome de Down. Ele veio ao mundo bem roxinho. Geralmente os nenéns nascem rosados, mas ele teve falta de oxigênio por causa da disfunção em seu coraçãozinho. Os médicos detectaram a cardiopatia congênita depois de dois dias do nascimento. Meu filho apresentava dificuldade para mamar e precisou ficar 10 dias com uma sonda que o alimentava com 35ml de leite. O Henri aprendeu a mamar com a ajuda de uma fonoaudióloga e iniciou a amamentação na mamadeira com apenas 5ml de leite por 4 dias, fora os 35ml via sonda. Ele precisava aprender a sugar e a partir do quinto dia a quantidade de leite aumentou para 10ml até chegar a 40 ml sem ajuda da sonda.
Pouco antes de completar um mês de vida, o Henri recebeu alta e pudemos levá-lo para casa. Senti um alívio gigante quando recebi a notícia, afinal passamos 20 dias de agonia infinita dentro do hospital. Mas ficamos bastante preocupados com tantos cuidados que ele precisava. Nossa alegria durou pouco. Com dois meses e meio ele nos assustou com uma febre alta. Corremos para o hospital e a notícia não poderia ser pior: nosso filho foi internado com pneumonia aspirativa. Tão bebê, ele ainda não havia aprendido como mamar corretamente e estava aspirando o leite. Por culpa da cardiopatia, seu coraçãozinho batia muito forte e ele não conseguia respirar e engolir ao mesmo tempo. Imediatamente os médicos orientaram que ele passasse por uma cirurgia, mas para isso era necessário que meu menino pesasse 7kg e ele tinha apenas 4kg.

Nosso filho é perfeito aos nossos olhos (foto: Jhéé Rodrigues)

Era necessário fechar o PCA (Canal Arterial Patente ou Persistente) para melhorar a função do coração do meu filho. Quando ele atingiu o peso indicado, a cirurgia foi feita. Logo em seguida o Henri teve duas pneumonias e após 15 dias foi levado para outra cirurgia, dessa vez uma paliativa. Os médicos diminuíram o diâmetro da artéria pulmonar para aliviar as altas pressões no coraçãozinho dele. Após a segunda operação, meu filho conseguiu se recuperar muito bem, mas não foi fácil. Ao todo, ele passou 40 dias na UTI.
Me desesperei quando soube que meu convênio não cobriria as novas consultas com a fonoaudióloga. Meu marido trabalha como promotor de vendas em uma empresa de tecnologia e seu salário é dedicado às nossas despesas fixas. Eu acabei largando meu antigo emprego um mês depois de voltar da licença maternidade. Não fui apoiada quando me ausentei por conta da cirurgia do Henri e decidi me dedicar à saúde dele. Seu bem-estar era minha maior prioridade.

Dei a volta por cima com a produção dos meus brigadeiros

Nesse cenário, precisei me reinventar para bancar os tratamentos que estavam por vir. Pensamos em nos desfazer de algumas coisas de casa e cheguei até a vender um sapato, mas lembrei do quanto os meus brigadeiros na adolescência faziam sucesso na vizinhança. Foi aí que decidi usá-los, dessa vez para pagar o tratamento do meu filho.
Meus pais me ajudaram a comprar os ingredientes e eu decidi divulgar a novidade em um grupo do Facebook. Escrevi a história do Henri como se ele mesmo estivesse contando. O resultado foi inacreditável! Em 12h a postagem já tinha me rendido 70 pedidos! Tive que sair para comprar mais material e o mais incrível de tudo foi que de uma vez só consegui o dinheiro para todas as sessões da fonoaudióloga necessárias (R$ 500,00).
Ficamos impressionados, não esperávamos. Achamos que não ia render muita coisa. Pensei que podiam nos julgar por expor a história do nosso filho, mas como nunca pedimos doação, acho que o pessoal se sensibilizou e entendeu nossa intenção.

O sucesso dos brigadeiros continua mesmo depois de pagar as consultas

Comecei fazendo o brigadeiro tradicional e o beijinho. Com o aumento das vendas, ampliamos as opções de sabores. Hoje faço casadinho, amêndoas, nozes, ninho com nutella, churros, crocante e brigadeiro belga. As pessoas experimentam, gostam e encomendam o cento para festas. Esses pedidos estão fazendo toda a diferença no meu orçamento. Criei a página do Brigadeiro do Bem para divulgar minha produção. As despesas com os procedimentos mensais do meu filho ficam em torno de R$ 1300. Os gastos com o tratamento dele não param. A Síndrome de Down causa muitos atrasos motoros. Por isso pago fisioterapeuta para ajudar no desenvolvimento físico dele.
A venda dos brigadeiros é 100% revertida para os cuidados com o Henri. Ele ainda vai passar por mais uma intervenção cirúrgica para estabilizar seu quadro, é o que vai definir a vida do meu filho. A cirurgia é corretiva e vai fechar o buraquinho que ele tem no coração. É ela que vai definir se meu bebê vai levar uma vida normal ou se vai continuar tomando remédio.
Agora estou procurando um emprego fixo para dividir os custos domésticos com meu marido, mas para isso preciso deixar o Henri numa escolinha. Tenho muita fé de que as coisas vão continuar dando certo na nossa família. Já superamos muitas barreiras. Vimos que a Síndrome de Down não é uma limitação e que nosso filho é perfeito aos nossos olhos. Desde o começo fomos surpreendidos com a bondade de quem nem nos conhecia. Hoje a gente acredita nas pessoas. Às vezes pensamos que estamos sozinhos, mas percebemos que é possível ter amigos no mundo sem precisar conhecê-los.

É muito gratificante saber que existe tanta gente do bem pelo mundo (foto: arquivo pessoal)

Carolina Heras, 20 anos, vendedora, Ribeirão Preto, SP

18/11/2016 - 20:58

Conecte-se

Revista Sou mais Eu