Meu príncipe encantado chegou num táxi branco

No nosso conto de fadas, quem se sentia um sapo era eu. Mas graças ao Fábio, que ralava ao volante, pude fazer faculdade, virar atriz... Enfim, descobrir meu lado princesa!

Reportagem: Leopoldo Rosalino (com colaboração de Luiza Schiff)

Ele chegou e a minha vida mudou! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Ele chegou e a minha vida mudou! | Crédito: Redação Sou mais Eu
Minha autoestima nunca foi boa. Tive poucas oportunidades na vida e sou de família simples. Tudo piorou quando repeti alguns anos na escola. Fiquei me achando incapaz de aprender, porque as operações mais simples, como a tabuada, eram um terror para mim. Tanto que, no meio do ensino fundamental, desisti de ir às aulas. Me conformei em ser burra para sempre.

Na vida amorosa, não era diferente. Aos 18 anos, já era traumatizada. Tinha me desiludido com os homens por causa de um relacionamento no qual fui trocada por outra. Estava ferida, desconfiada de todos os homens, achando que romance não era coisa para mim. E foi no meio dessa confusão de sentimentos que o Fábio apareceu.

Não queria saber dele porque tinha medo de ser abandonada de novo

A ilusão do príncipe encantado montado num cavalo branco nunca existiu para mim. Mas quem diria: meu príncipe chegou num táxi branco! O Fábio trabalhava no táxi do pai e ficava num ponto na frente da banca onde eu fazia um bico que me rendia a miséria de R$ 160 por mês. Ele vivia me olhando e me deixava balançada. Mas, como eu me sentia a pior mulher do mundo, nem pensava em me enfiar em outro romance!

Só que o tal taxista parecia mesmo interessado em mim. Um dia, perguntou se a minha mãe me deixava sair. Ora, eu já era maior de idade, claro que podia. E até queria... mas tinha medo de me envolver e ser abandonada de novo, sabe?! O Fábio pediu tanto que aceitei ir ao cinema. Apesar de não ficarmos juntos naquele dia, passamos a sair e começamos a ter um caso. Consegui enrolar o cabra sem compromisso sério por um ano, até que ele insistiu para eu ir morar com ele. Ainda insegura, aceitei.

Ele enxergou em mim um potencial que nem eu mesma via

Logo que começamos a viver juntos, o Fábio fez amizade com meu irmão e minha cunhada e via os dois prestando concursos públicos juntos. Era um casal esforçado, que estudava lado a lado. Meu marido gostou disso e decidiu: queria me fazer voltar a estudar. Eu, que mal sabia somar, ia terminar a escola?! Ri da ideia dele, mas meu amor disse: "Você consegue e eu vou te ajudar". Ele me ensinou a tabuada: fazia chamada oral e mesmo se eu errasse era paciente. Me incentivou quando fiz a matrícula no Educação de Jovens e Adultos, um programa do governo que ajuda jovens e adultos que pararam os estudos a concluir o ensino médio. E não se importou por eu sair todas as noites para as aulas. Eu gostava e, aos poucos, comecei a me sentir motivada e capaz.

Fábio foi meu companheiro não só na vida amorosa, mas também na minha vida escolar. Manteve financeiramente a casa enquanto eu não trabalhava. Estudou comigo e foi compreensivo com a minha ausência. Quando a vitória chegou - a tão esperada formatura -, lá estava ele ao meu lado. Claro que lhe dediquei essa minha conquista. Não só pelo fato de ter concluído os estudos, mas porque minha autoestima tinha mudado: graças ao incentivo do maridão, descobri que podia ser muito mais do que eu mesma jamais havia ousado imaginar.

Com a autoestima em alta, decidi ir além e investir no teatro!

E não parei por aí, não! Já que eu era uma mulher com ensino médio completo, queria ir fundo nos estudos. Me matriculei no magistério e decidi que ia ser professora! Quando terminei, Fábio e eu decidimos: estava na hora de fazer a faculdade! Consegui um estágio na área de magistério numa escola municipal na minha cidade e usava todos os R$ 264 que ganhava para pagar o curso de pedagogia. Não restava R$ 1 sequer! Foi um período de aperto, sim, mas meu homem estava disposto a continuar bancando as despesas do lar enquanto eu corria atrás dos meus objetivos.

Faculdade concluída, tinha ainda uma coisinha que eu sonhava fazer. Mas essa já era muita ousadia da minha parte. No fundo do coração, sempre guardei um desejo de ser atriz. Entretanto, eu, gordinha, simples e sem curso de interpretação... Estava querendo um pouco demais! Mas não é que o Fábio me empurrou para cima de mais esse sonho também?!

Descobri alguns testes de companhias de teatro na minha cidade e comecei a fazer, com a cara e a coragem mesmo! Acredite se quiser: fui aprovada e entrei num grupo cênico aqui de Olinda - hoje estou na Companhia de Teatro Viver a Cena, de Recife! Fiz espetáculos a céu aberto, escrevi peças para crianças, me joguei de cabeça no meu sonho... Mas sem deixar a pedagogia de lado. Por isso, além de estar fazendo pós-graduação e de ser coordenadora no projeto "Escola Aberta", em uma escola no município de Olinda também me apresento com o grupo de teatro.

Ele é um príncipe por ter me inspirado a fazer o meu melhor

Em 2015, me esbarrei com uma nova conquista depois de muito esforço. Passei em um concurso público em quarto lugar e hoje leciono no município de Tamandaré. Foram muitas realizações e eu sou muito feliz por tudo que aconteceu na minha vida.  Ah, e também sou, com muito orgulho, a mulher do Fábio, o meu verdadeiro príncipe. Pois príncipe não é aquele homem perfeito, bonito, sem defeitos... Príncipe é aquele cara que faz você se sentir a mulher perfeita, no sentido de inspirá-la a descobrir e explorar todas as suas capacidades. Amor mesmo é aquele que coloca você para cima, que chega para somar. Temos problemas como todo casal, afinal, passar 18 anos juntinhos não é para qualquer um. Mas nos amamos, nos perdoamos e nos cuidamos. Somos tão companheiros que até minha mãe tem ciúme, pois no bairro onde moro todo mundo brinca que o Fábio fez o que ela não conseguiu: me colocou na linha!

Márcia Neres, 33 anos, coordenadora escolar, Olinda, PE

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05/06/2017 - 15:46

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