Meu filho morreu... Eu não!

As pessoas me julgaram por eu ter continuado com a minha vida após o luto pela perda do meu menino, vítima de uma bala perdida aos 5 aninhos de idade

Reportagem: Eunice Fleury e Stephanie Celentano (colaboração: Caroline Cabral)

não é o tempo que ameniza a dor e a saudade (ambas eternas), mas sim a forma com que lidamos com o tempo. Eu resolvi viver e fui criticada, mas não me arrependo. Sei que o Dudu aprovaria! | <i>Crédito: arquivo pessoal
não é o tempo que ameniza a dor e a saudade (ambas eternas), mas sim a forma com que lidamos com o tempo. Eu resolvi viver e fui criticada, mas não me arrependo. Sei que o Dudu aprovaria! | Crédito: arquivo pessoal

É uma tarde qualquer de agosto de 2004. Meu telefone toca. Do outro lado, minha afilhada diz de supetão: “O Dudu e o vô foram baleados”. E desliga. Com o coração disparado, tento telefonar para ela e para minha tia, mas ninguém atende. Insisto, insisto... Até uma vizinha atender e dizer o hospital em que meu filho está. No táxi, choro o caminho inteiro. Chego ao pronto-socorro por volta das 19 h e fico sabendo que meu Eduardo, então com 5 aninhos, está numa cirurgia. Foi alvejado no pulmão e no fígado por uma bala perdida, disparada num tiroteio entre polícia e bandidos. Na hora da tragédia, ele andava com meu pai, que estava internado em outro hospital, pois a bala havia ficado alojada na sua perna. Ligo para meu ex, pai do Dudu, e fico aguardando com minha família e meus amigos. Tenho toda esperança de que meu menino escapará dessa. Por isso, meu chão some quando um médico se aproxima e murmura: “Infelizmente, não consegui salvar seu filho”.

Durante quatro meses, eu chorei descontroladamente

Entrei em desespero e saí correndo, não sei por que nem para onde. Tinha a sensação de que minha vida havia acabado com a do meu único filho. Sentia raiva de quem deu aquele tiro, de todas as pessoas que continuavam felizes por aí, de quem tentava me consolar sem ter ideia do que eu estava sentindo. Não consegui voltar para casa. Só fui lá para buscar umas roupas e me mudei para a casa de uma tia. Precisei tomar calmantes receitados pelo médico. Depois de duas semanas, comecei a aceitar que tudo havia mesmo acontecido. Mas isso não era bom. Veio uma tristeza gigante, que me tirava a vontade de fazer qualquer coisa. Mesmo assim, depois de 21 dias, resolvi voltar ao serviço. Precisava ocupar minha cabeça para não morrer de angústia e desilusão. Eu era atendente de telemarketing e por quatro meses precisei pedir licença para o cliente, no meio da ligação, para chorar. Os colegas e nossa chefe me deram todo apoio. Em dezembro, saí de férias... e acabei ficando mais pra baixo ainda, lembrando do ano anterior, quando tinha viajado para Arraial do Cabo e Laranjais com o Dudu.

E ainda tinha gente dizendo que eu devia sofrer mais!

Mas veio 2005, o retorno ao trabalho e, aos poucos, fui me acalmando. Ainda estava triste, porém, conseguia cada vez mais controlar minhas crises de choro. Foi quando comecei, acredite se quiser, a ouvir de uma colega que era um absurdo eu estar trabalhando. “Você devia estar em casa, deprimida, chorando a perda do seu filho”, dizia a louca. Poxa, não bastava eu estar passando por tudo isso, tinha que ouvir que precisava sofrer mais?! Aguentei calada até dezembro de 2005, quando a empresa em que eu trabalhava foi transferida para São Paulo e fui demitida. O desemprego me deixou mais para baixo. Voltei a pensar com frequência no Dudu e a ter crises de choro. Mas não podia me entregar, precisava pagar as contas. Então, peguei o dinheirinho que havia juntado e aluguei uma loja na rua da minha tia. Abri um bazar e passei a vender roupas, brinquedos e outros objetos usados que comprava baratinho. Por meio ano, o negócio deu certo e eu conseguia pagar minhas contas. Mas, de repente, a loja começou a desandar e passou a me dar prejuízo. Precisei fechar.

Percebi que viver às lágrimas não me traria nada

Nessa época, comecei a namorar um conhecido. Foi uma história rápida, mas de grande importância, pois ele abriu meus olhos. Ele me falou que eu tinha duas opções. Uma era continuar me entregando à tristeza – e nesse caso seria mais fácil dar um tiro na minha cabeça de vez. A outra era continuar com a vida, voltar a sonhar e lutar pelos meus sonhos. Percebi que ele tinha razão. Deixar a tristeza me dominar não faria meu filho ressuscitar. Não havia razão em ficar como eu estava. Decidi retomar meus sonhos e começaria pela faculdade de Direito. Fiz minha matrícula ao mesmo tempo em que comecei a fazer bijuterias e doces para bancar as contas até arrumar um emprego.

As pessoas me criticaram por tocar a vida

Com frequência pensava no Dudu. Sentia um desânimo imenso, mas me esforçava para sorrir e guardar esse sentimento lá no fundo de mim. Naquele mesmo ano (2008), arrumei estágio no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Com meus doces, bijuterias e estágios, consegui dar conta e chegar até o final da faculdade. Mais difícil do que pagar as contas foi lidar com o julgamento alheio. Depois que resolvi seguir com a vida e parei de me lamentar, as pessoas começaram a me criticar pesadamente. Parentes diziam que eu não era boa mãe, pois havia saído do luto; conhecidos comentavam como eu estava “surpreendentemente bem depois de ter perdido um filho”. Eu não discutia ao ouvir esse tipo de absurdo, mas me sentia atingida, ficava mal. Por sorte, houve também criaturas que me davam força, como minha tia, meus pais e alguns amigos. Com o apoio deles e muita força de vontade, me formei no final de 2012 e agora estou trabalhando e estudando para passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Com frequência, lembro do Dudu e sinto tristeza, mas não deixo que isso me domine. Sempre vou sentir falta dele, nada vai poder preencher o vazio que meu filho deixou. Mas não vou me entregar! A minha vida continua e eu ainda tenho muitos sonhos para realizar. Muitos deles, inclusive, em honra à memória do meu menino.

Simone Souza, 46 anos, bacharel em direito, Rio de Janeiro, RJ

 

Como retomei minha vida depois de perder o Dudu

Tive um objetivo

Estabelecer um rumo a seguir é fundamental. No meu caso, a faculdade me impulsionou a sair da dor.

Persisti, mesmo que com dor

A dor nunca passa, está sempre presente no coração, mas lute. Seu filho morreu, porém, Deus a quis viva por algum motivo. Tenha força de vontade para descobrir qual é ele.

Aceitei ajuda

Correr atrás e lutar por si é importante, mas a ajuda dos outros é um carinho que alivia nessas horas. Aceite o apoio de quem oferecer.

Soube que ele é insubstituível

Quero muito ter outro filho, mas sei que nada nem ninguém substitui o Dudu. Então, busque novas ocupações. Não para preencher o lugar de quem se foi, mas para criar uma nova vida.

Me apeguei a algo de que gostava

Durante todo esse período, procurei fazer o que gostava para passar o meu tempo. Fiz bijuteria, doces, abri um bazar, estudei. Ficar em casa se afundando na depressão não resolve o problema. Chorar de vez em quando? Tudo bem, mas sem deixar de seguir em frente.

 

DA REDAÇÃO

É fundamental viver as cinco fases do luto

A psicóloga Lucy Maira Arantes explica: “Vivenciá-las é o caminho para superar a perda”.

1. Negação: a pessoa não consegue acreditar no que aconteceu, pensa que Deus está sendo injusto.

2. Raiva: fica difícil cumprir até as tarefas mais básicas do cotidiano. Muita gente, inclusive, se paralisa.

3. Depressão/melancolia: nem todo luto leva à depressão. A melancolia é mais comum e se traduz pela falta de ânimo e imensa dor – até física! Só quando se torna crônica é que a melancolia dá margem à depressão.

4. Reorganização: a pessoa começa a dar os primeiros passos rumo à superação, mudando de casa, de rotina familiar e até de visual.

5. Aceitação: apesar de ainda ter raiva, a pessoa vê que não há chance de voltar ao passado e encara a realidade. Torna-se mais aberta à ajuda e retoma a vida.

IMPORTANTE: O luto é um processo sempre sofrido, mas cada um reage de forma singular e imprevisível. Daí ninguém poder julgar se o outro decide ficar em casa chorando ou sair para trabalhar na manhã seguinte. O importante é a pessoa ficar em paz consigo mesma e fazer o que for melhor para si”, finaliza Lucy.

28/10/2016 - 20:27

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