"Meu casamento arranjado deu certo!"

Marcilânia e Pedro foram prometidos quando estavam na barriga de suas mães

Reportagem: Christiane Oliveira

MARCILÂNIA ALCANTARA FIGUEIREDO | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
MARCILÂNIA ALCANTARA FIGUEIREDO | Crédito: Arquivo Pessoal
Eu e o Pedro éramos unha e carne. Nascemos no mesmo ano, 1986, e, como tínhamos a mesma idade e nossos pais eram amigos, vivíamos grudados. A gente estudava na mesma escola, se encontrava na hora do recreio e voltava junto do colégio. O que nos separava eram apenas dois minutos de caminhada pela estradinha de terra entre uma casa e outra. Essa pequena distância nos tornava ainda mais inseparáveis. Chegamos à adolescência como grandes amigos, sem saber que tínhamos sido prometidos um para o outro pelos nossos pais quando ainda estávamos na barriga de nossas mães. 

O casamento arranjado é uma tradição da família 

Prometer os filhos entre as famílias é uma tradição cigana, comunidade da qual faço parte. Tanto que o casamento dos meus pais foi arranjado e eles estão juntos há 42 anos. Eu suspeitava que meu pai tinha me prometido para alguém e sabia que ele jamais aceitaria que me casasse com um juron – é assim que chamamos os homens que não são ciganos. Isso estava fora de cogitação, até porque a gente mal tinha contato com pessoas fora da comunidade. 

Quando eu saía para ir ao centro da cidade, por exemplo, estava sempre na companhia do Pedro. A verdade é que meus pais só permitiam que eu saísse para qualquer lugar se ele estivesse junto. Eu não ligava, porque éramos melhores amigos. 

Eu e o Pedro fomos criados juntos desde que nascemos. Nossos pais passaram a infância juntos e são compadres. Eles eram melhores amigos e até se casaram na mesma época. Desde então, moram perto um do outro e sempre fizeram questão da amizade entre os filhos. Mas, na verdade, a intenção deles era muito maior do que só formar bons amiguinhos. 

Quando fiz 16 anos, meus pais me chamaram para uma conversa: “Marcilânia, qual é sua relação com o Pedro?” “Ué, como assim? Somos amigos!”, respondi. Eles disseram: “É que gostamos muito dele. É um bom rapaz, de família boa... E faríamos muito gosto se você se casasse com ele”. Depois de algum tempo de conversa, entendi o recado: era um casamento arranjado! Em nenhum momento eles disseram que eu era obrigada a ficar com o Pedro, mas meu pai, muito rígido, me fez entender que meu na morado só seria bem aceito por ele se seu nome fosse Pedro e morasse ao lado da nossa casa. 

Se deu certo com meus pais, podia dar comigo... 

No início, essa ideia não me assustou. Eu admirava a relação dos meus pais. Eles eram cúmplices e eu via que existia amor entre os dois. Transferi aquilo tudo pra mim: “Se deu certo com eles, por que não daria comigo?”, pensava. Sem contar que o Pedro vivia se declarando pra mim: “Nós ainda vamos nos casar!” Eu não dava bola pra ele, pois o via como um amigo e nada mais. Só que o danadinho vivia me agradando, fazendo elogios. Aí, um sentimento começou a nascer em mim. Deixei a coisa rolar e acabamos dando nosso primeiro beijo ainda aos 16 anos. Foi bom... 

Como éramos muito novos, ficávamos de namorico, sem assumir nada. Eu não me envolvia com nenhum outro menino, apenas paquerava alguns rapazes da comunidade. O Pedro só me pediu em namoro oficialmente quando fizemos 20 anos. Apesar de não estar muito segura quanto ao casamento, fiquei feliz e disse “sim” na hora! 

Nossos pais conseguiram o que queriam 

Quando contamos para nossos pais sobre a gente, eles quase explodiram de tanta felicidade. Seis meses depois de começarmos a namorar, fica mos noivos. Eles fizeram até um almoço pra comemorar. Eu também estava feliz. Gostava do Pedro e achava que nosso casamento daria certo assim como o dos meus pais. Não demorou para que eles nos contassem que estávamos prometidos desde que nossas mães engravidaram, mas a gente já desconfiava disso. 

‘Será que estou fazendo a coisa certa?’ 

Nessa mesma época, comecei a faculdade de pedagogia. Passei a ter contato com pessoas da sociedade, ou seja, de fora da nossa comunidade. Como nenhuma das minhas amigas era cigana, elas piraram quando contei sobre meu casamento arranjado: “Você foi prometida? Onde já se viu?! Casamento é coisa séria! Como você pode aceitar isso?” 

Quando eu ia para a faculdade, parecia que estava em outro mundo. Convivia com pessoas que tinham valores, pensamentos e vidas totalmente diferentes da minha. E o que minhas amigas falavam pra mim sobre o casamento não era nenhum absurdo. Quando ouvia esses questionamentos, batia uma dúvida: “Será que estou fazendo a coisa certa?” Mas, no fim do dia, quando voltava pra casa, esse dilema não me consumia mais. Era como se minha cabeça vivesse de duas formas: uma de acordo com a sociedade comum e outra com a cigana. 

Apesar desses pensamentos, segui em frente com nosso noivado. Afinal, apesar de nosso casamento ser arranjado, existia cumplicidade, carinho e amizade entre nós, tudo de que um casal precisa. A verdade é que meus pais foram espertinhos. Eles fizeram com que meu amor e o do Pedro fosse cultivado desde que éramos pequenos. E deu certo: aos poucos, fui me apaixonando! 

Não passei pelo ritual do desvirginamento 

Eu e o Pedro começamos a namorar em 2007, mas só nos casamos em 2012. É que no início a gente ainda não trabalhava. Esperamos nossa casa ficar pronta e guardamos dinheiro para fazer uma cerimônia cigana tradicional, que dura três dias. No primeiro, é feito uma comemoração na casa dos pais da noiva. No segundo, na casa dos pais do noivo. A cerimônia oficial acontece no terceiro. Foi uma festança só! 

Mesmo namorando por cinco anos com o Pedro, me casei virgem. Não que eu não tivesse vontade. É que, na cultura cigana, a mulher que não se casa virgem é uma vergonha para o pai e ainda pode ser devolvida pelo noivo. Além disso, quando nos casamos, temos que passar pelo ritual do desvirginamento, do qual eu tinha pavor. Essa prática serve para o noivo e a sociedade confirmarem que ainda somos virgens. É muito constrangedor. Imagina só: na sua noite de núpcias, duas pessoas mais velhas ficam na sala ao lado do quarto onde tudo está acontecendo. Quando terminamos a primeira relação como casal, eles entram no quarto e verificam se há manchas de sangue no lençol para comprovar a virgindade da mulher. Acho isso um absurdo! 

Mas, felizmente, não tive que passar por essa situação. Só a palavra do Pedro bastou. Ser submetida a esse ritual era um dos meus maiores medos, pois minha irmã precisou fazer e tem trauma até hoje. Se eu tiver uma filha, jamais deixarei que façam isso com ela. 

Não vou prometer meu filho pra ninguém 

Dos meus seis irmãos, três são casados e nenhum teve o casamento arranjado. Um deles até se casou com uma mulher que não é cigana. O Manuel, de 22 anos, está namorando com a irmã mais nova do Pedro, por vontade dele. Já faz dois anos que eu e o Pedro estamos casados. A cada dia, nosso amor cresce, além da cumplicidade, confiança e amizade. No ano passado, nasceu nosso filho, o Pedrinho, e não tenho a intenção de prometê-lo pra ninguém. Mas não vou mentir: minha vontade é que ele se case com uma cigana. Querem saber? Nosso casamento foi arranjado e somos muito felizes! Mais do que muitos outros casais por aí. - MARCILÂNIA ALCANTARA FIGUEIREDO, 29 anos, pedagoga, Souza, PR



“Eu me casaria com ela mesmo que não houvesse amor”

“ Na cultura cigana, os mais velhos não costumam conversar com os mais novos sobre casamento arranjado. Só que eu era um menino muito curioso e sempre prestava atenção na conversa dos meus pais, ainda mais quando o assunto era eu. Numa dessas, acabei ouvindo algo que me interessava muito. Quando estavam discutindo sobre meu futuro, ouvi papai dizer: ‘Precisamos juntar a Marcilânia e o Pedro de algum jeito. Prometi ao meu compadre que casaríamos os dois’. Fiquei eufórico! Mal sabiam eles que eu já estava caidinho pela minha futura noiva. Além do mais, isso é normal para os ciganos. Mesmo se eu não gostasse dela, me casaria, porque na nossa comunidade devemos plena obediência aos nossos pais. O fato é que isso me deu coragem para me declarar para a Marcilânia. Como éramos muito amigos, tinha medo de falar sobre meus sentimentos e ela se afastar. Preferia sofrer calado, mas com ela ao meu lado. Quando me declarei, aconteceu o que eu esperava. Ela disse que o sentimento que tinha por mim era só amizade. Mas não desisti. Ela fez jogo duro até darmos nosso primeiro beijo, dois meses depois. Ah, que alegria! Quando meu amor aceitou namorar comigo, não acreditei. Dali pra frente não nos separamos mais e hoje somos muito felizes. Sobre casamento arranjado, tenho um grande amigo e, se ele tivesse uma filha, arranjaria o casamento dela com meu filho numa boa. Se ele não quisesse, tentaria fazer a cabeça dele até convencê-lo!” - PEDRO BERNARDONI FIGUEIREDO, 28 anos, vigilante, o marido da Marcilânia

Arranjo ainda é uma realidade hoje

Além da cigana, existem outras culturas que cultivam a prática do casamento arranjado, como o islamismo e o judaísmo ortodoxo. De acordo com Amarilio Ferreira, professor e historiador da Universidade Federal de São Carlos, “essas sociedades são tradicionais e nunca passaram por uma revolução que os fizesse mudar os valores, que se mantêm há cerca de 5 mil anos”. Segundo Rosa Maria Macedo, coordenadora do núcleo Família e Sociedade da PUC, a prática do casamento arranjado tinha a finalidade de manter patrimônios e linhagem. “O amor é uma invenção do século 16. Antes disso, os casamentos não passavam de negócios entre as famílias.” Saiba como funciona o casamento arranjado nos dias de hoje:

■ Islamismo
As famílias procuram parceiros, mas é preciso que os noivos concordem. 

■ Índia e Paquistão
O casamento arranjado na cultura hindu muçulmana que predomina nesses países une famílias de mesmas classes sociais. Os noivos não costumam recusar essa prática. 

■ Judaísmo ortodoxo
A família pode escolher ou contratar casamenteiros pra procurar parceiros para seus fi lhos. Eles devem se conhecer antes de se casar. 

■ China
O casamento só acontece após a aprovação dos pais do homem e da mulher. 

■ Japão e Coreia do Sul
Os casamentos acontecem com o auxílio de casamenteiros e o casal não costuma discordar da união

05/10/2015 - 12:00

Conecte-se

Revista Sou mais Eu