"Larguei tudo pra viver um ano no mar com meu grande amor!"

Torre conheceu Ivan num bar e, nove meses depois, ele convidou ela para uma viagem ao redor do mundo no seu barco. Ela topou e conta essa aventura no seu livro!

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Torre | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Torre | Crédito: Arquivo Pessoal
Torre é uma mulher independente e vive muito bem sozinha. Até que uma noite conhece num bar um belo argentino e acaba se apaixonando. Só há um problema: em breve ele vai partir numa viagem de barco ao redor do mundo, e Torre tem pavor do mar. Determinada a ficar com o homem dos seus sonhos, ela abre mão da agitada vida na cidade, encara o medo da água e embarca numa jornada de um ano pelo mar. No meio do oceano Pacífico, Torre terá de lutar para salvar um barco velho e a própria sanidade. No livro Amor Até Debaixo Dágua, ela fala sobre as mudanças em sua vida a partir desse encontro e narra as aventuras que viveu nos lugares mais exóticos do planeta. Veja alguns trechos: 

Já meio alta e com a ousadia típica de tais situações, separei- me de Anna e dos demais amigos, peguei um atalho na direção do triste estranho, sentei-me no banco vazio à sua esquerda e me inclinei em sua direção: “Por que você está triste?”, perguntei sem mais nem menos, antes mesmo de um simples “oi” e tomando um gole de meu martíni. Ele levantou os olhos e então o fitei detalhadamente: pele clara, nariz definido, lábios carnudos, mandíbula esculpida, o queixo exagerado como o de um super-herói. Sem dúvida nenhuma, bonito. Os olhos sérios, de um verde devastador, suavizaram-se quando encontraram os meus. “Eu pareço triste?”, ele disse. “Bom, talvez não agora, mas parecia um segundo atrás. Você estava de olhos fixos no copo, todo sombrio e sério”. “Que estranho. Não me sinto triste. (...) Ele se virou para ficar de frente para mim, e começamos a conversar sobre os mais diversos assuntos, desde os familiares, passando por preferências musicais, até chegar aos ex-namorados.

Fico paralisada, com uma almôndega espetada no garfo à frente da boca: “Me desculpe... o que você disse?”. “Vou dar a volta ao mundo velejando. Meu barco está praticamente pronto para partir. Preciso finalizar um projeto que estou gerenciando, e então já posso começar a aprontar o barco para uma circum-navegação que pretendo fazer sozinho”, ele respondeu. “Espera um pouco. (...) Você está planejando velejar ao redor do mundo? E sozinho?”, questionei. “Ãrrã. O que eu quero mesmo é navegar pelas ilhas do Pacífico Sul. Dizem que são maravilhosas. Vou ter que fazer todo o caminho ao redor delas antes de voltar para casa”. Ele ri, reduzindo dois terços do planeta a um trajeto cotidiano. “Então, você vai velejar ao redor do mundo?”, perguntei novamente. “Sim, vou. Eu quero viajar. E um barco a vela é uma ótima condução para quem quer ver o mundo. Parto no começo do ano que vem, quando o clima é melhor.”

Qual é a desse cara? Ele decide, sem me consultar, que vou me enfiar com ele num barquinho minúsculo e enfrentar a imensidão tenebrosa do Pacífico? Será que ele não estava me ouvindo quando eu lhe disse, com todas as letras, que tenho pavor do mar? Olho bem dentro dos olhos dele. “Ivan. Isso nunca vai acontecer”. Depois de deixar nossos trabalhos e vender todos os móveis, nosso vínculo agora é com nossa nova casa, sem código postal: uma embarcação flutuante em Marina del Rey. Pelos próximos três meses, vamos morar no barco em Los Angeles, enquanto nos preparamos para a grande jornada que se aproxima.

 
Minha vida de amigos, carreira, jantares, compras, cafés, cabeleireiros e um regime de cuidados com a pele duas vezes ao dia foi abandonada, para que eu acompanhe um homem que conheci num bar nove meses atrás rumo a um mundo de água salgada, tempestades, enjoos marítimos e queimaduras de sol.

Embarcamos num percurso sem volta para o mais remoto lugar a que um ser humano pode chegar. Seremos tragados pela vastidão do oceano Pacífico e, antes de voltar a pisar em terra firme, teremos atravessado, numa longa maratona, mais de um terço da distância que separa a América da Austrália. 

Sinto o desejo de uma última visão da terra firme, mas, estando no pico de uma onda alta, já não consigo avistar o México. Respiro em nosso primeiro momento de solidão e sinto as pernas fraquejarem diante da realidade que constato. (...) Lá fora, a água espelha o céu nublado. Quatro criaturas pretas e brilhantes como manchas negras de óleo ziguezagueiam na água ao lado do barco. Pelos corpos afunilados e pelas cabeças redondas, identifico-as como baleias-piloto. Viaja conosco, também, um par de aves marinhas. Estão nos seguindo faz uma semana.

Do outro lado da lagoa, encontramos uma ilhota deserta onde podemos ancorar. É uma praia de um branco ofuscante – feita de fragmentos de corais descoloridos –, rodeada de coqueiros. Atrás da ilhota, avistamos o mar que fustiga sem parar o recife que circunda a lagoa. Não há nenhum barco à vista. “Este lugar é absolutamente perfeito!”, exclama Ivan, lançando a âncora ao fundo de areia branca. Ele está certo, é o cartão-postal do paraíso. Fito o cenário e noto que, apesar da beleza de cair o queixo, falta algo importante... Mas o quê? “Você acredita que chegamos aqui de barco?”, pergunta Ivan. “Uma ilha só nossa. Só tem uma coisa, não, duas coisas que poderiam tornar isso ainda melhor. Cerveja gelada e pizza”. “Não posso ajudar você com a cerveja gelada, mas posso improvisar uma pizza”, digo. (...) Eu me sinto em casa.










23/11/2015 - 09:00

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