Impressionante: "Tenho dois corações pra poder continuar viva!"

Aos 13 anos, Victória sofreu 72 paradas cardíacas na mesma noite e teve de fazer um transplante para que o coração novo ajudasse o outro a funcionar. Sobreviveu e está cada vez mais forte!

Reportagem: Caroline Cabral

VICTÓRIA EMANUELLE | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
VICTÓRIA EMANUELLE | Crédito: Arquivo Pessoal
Eu tinha acabado de completar 13 aninhos e fui ao shopping comprar uma calça jeans nova. Entrei no provador e tirei a minha para vestir a outra. Pronto: bastou esse simples movimento para que meu coração acelerasse, meus dedos e lábios ficassem roxos e a tontura tomasse conta da minha cabeça. Não cheguei a me assustar, pois sabia que era minha doença no coração se manifestando mais uma vez. Mas senti que ela estava piorando... 

Nasci com a anomalia de Ebstein, uma má-formação no órgão, e fui diagnosticada bem cedo, com apenas 5 meses de vida. Por isso, cresci com algumas limitações: me cansava com facilidade, não podia correr na escola e tinha que estar sempre atenta aos esforços físicos. É que meu coração não bombeava o sangue como deveria e eu não podia exigir muito dele. Mas minha infância até que foi normal, viu? Brinquei muito de boneca, joguei jogos de tabuleiro e fiquei craque no xadrez! 

Só que, aos 12 anos, cheguei ao ponto de ficar esgotada ao fazer coisas simples como pentear o cabelo e escovar os dentes. Como era esperado, meu quadro estava se agravando. Fui proibida de frequentar as aulas de educação física pela minha médica. Isso me fez tanta falta que precisei de tratamento psicológico.

Assim que meu quadro piorou, meus pais começaram a correr atrás de uma cirurgia para finalmente corrigir a anomalia no meu coração. Não fizemos antes porque eu era muito nova para suportar o procedimento. 

Entrei na sala de operação em setembro de 2014. Deveria sair em 15 dias, mas acabei ficando quatro meses lá – um deles em coma! 

Logo na primeira noite, sobrevivi a nada menos que 72 paradas cardíacas! Como meu coração já quase não respondia mais, precisei ficar com uma máquina dentro de mim, que fez a função dele até que um novo aparecesse. Como eu era criança e meu caso era extremo, fui para o começo da fila de transplante e consegui um coração após cinco dias. 

Meu médico optou por não retirar meu original porque ele estava respondendo um pouco aos estímulos, mesmo que lentamente. Então, o doutor decidiu colocar o novo ao lado dele, para que um ajudasse o outro a funcionar! 

Acordei do coma sentindo que algo deu errado... 

Só descobri tudo isso um mês depois, quando finalmente comecei a acordar. Achei que estava despertando da primeira cirurgia. Mal sabia que já tinha passado por oito processos cirúrgicos. Lembro de ouvir conversas bem distantes ao meu redor quando estava em coma. Não sei dizer o que as pessoas falavam, mas acordei com a certeza de que algo tinha dado errado. Apesar das dores muito fortes pelo corpo inteiro, eu estava aliviada por não ter morrido. Fiquei três meses em recuperação no hospital até ter alta. 

Só voltei para minha casa em janeiro deste ano. Estou cada dia melhor e em agosto já poderei voltar a fazer educação física. Oba! Quero mais é me recuperar logo e ter uma vida normal, mesmo tomando remédios diariamente para meu organismo não rejeitar o novo coração. Um dia pode ser que eles não sejam mais necessários, assim como o segundo coração. No futuro talvez eu possa retirá- -lo, mas essa é outra história... 

Sou muito grata a toda a equipe do hospital . Apesar de ainda estar em recuperação, já consigo andar sem me cansar, não sinto tonturas e meus dedos e boca nunca mais ficaram roxos. São coisas bem simples, mas pra mim significam uma conquista maravilhosa. Me considero uma guerreira! Com o passar do tempo, meu corpo deve se adaptar completamente ao novo órgão e eu terei uma vida normal. 

Hoje encaro a vida de outra maneira, me colocando no lugar das pessoas. Ganhei uma segunda chance e vou usá-la para cuidar dos outros e salvar vidas! Sou apaixonada por medicina. Se hoje estou viva, é graças a ela. Meus dois corações me dizem que vou ser médica! - VICTÓRIA EMANUELLE, 14 anos, estudante, Ribeirão Preto, SP

“Os médicos chamaram o caso dela de milagre da vida”

“A Victória tem uma cardiopatia rara. Há 14 anos, quando ela foi diagnosticada, as cirurgias de sucesso nessa área não eram comuns. Nos mandaram esperar até o limite para operá-la. Aí, quando minha fi lha estava com 12 anos, não teve jeito: colocamos a médica contra a parede e ela nos encaminhou a um especialista que é referência mundial nesse tipo de doença. Assim que viu os exames, ele disse: “Não sei como sua filha está viva!”. Foi um choque muito grande, nenhuma mãe quer ouvir isso. Percebemos que ela estava à beira da morte e tivemos muito medo de perder nossa menina! Na noite em que Victória sofreu 72 paradas cardíacas, os médicos nos chamaram para dizer que ela estava mal, mas não mencionaram as paradas. Só descobrimos isso depois do coma. Como mãe, eu sentia que ela estava indo, mas ao mesmo tempo parecia que Deus dizia: “Tô segurando na mão dela, tenha fé”. No hospital, orei de joelhos aquela noite inteira para que minha filha ficasse conosco. E Ele a trouxe de volta! Hoje os médicos da equipe chamam o caso dela de milagre da vida! Nossa cidade também fez uma corrente linda de orações. Eu e meu marido recebemos amor suficiente para encher nossos corações e os dois da Vic! - TATIANA FERNANDA LOPES DA SILVA, 37 anos, professora, a mãe de Victória

Coração novo vai recuperar o original

Apenas um em cada 10 mil bebês nasce com a cardiopatia da Victória, o que configura uma doença rara. Segundo José Henrique Vilas, clínico-chefe do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, onde ela foi operada, a anomalia de Ebstein é uma deformação de uma das válvulas do coração, que já nasce com a pessoa. 

“Essa má-formação dificulta o trabalho do lado direito do coração, causando o mau bombeamento do sangue de maneira progressiva.” O procedimento que adicionou um coração ao corpo de Victória durou nove horas e meia. “Nossa equipe estava estruturada para lidar com as 72 paradas cardíacas, garantindo a vida dela. Hoje esperamos que o coração original se recupere com a ajuda do segundo e possa funcionar sozinho”, disse. 

“Todo transplante exige remédios para que o corpo não rejeite o novo órgão. Agora é hora de ela se medicar, repousar e evitar contato com pessoas doentes, pois a imunidade está baixa”, conclui.


10/08/2015 - 09:00

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