Fiz meu parto sozinha na cama de casa!

Sem tempo e meios de chegar ao hospital, forrei a cama, fiz força e a Denize veio ao mundo. Eu mesma cortei o cordão umbilical e bati nas costinhas dela

Reportagem: Stephanie Celentano

Meus filhos Antônio Carlos, Denize, Dantas e Jhenerson, todos nascidos em casa | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Meus filhos Antônio Carlos, Denize, Dantas e Jhenerson, todos nascidos em casa | Crédito: Arquivo Pessoal

Quando a necessidade aperta, fazemos coisas de que até Deus duvida. Foi assim com o parto da minha filha, há 24 anos. A danada veio de supetão, sem me dar tempo para ir a um hospital ou chamar uma parteira. Pra piorar, meu marido não estava em casa.

Nessa hora, não pensei duas vezes. Forrei a cama com toalhas, limpei uma tesoura com álcool, deitei e fiz força. O bebê saiu lindo e forte. Mas não pense que é simples assim. Acompanhei de perto três partos da minha mãe e já tinha sido mãe duas vezes. Cada filho parido é experiência adquirida!


Não tive ginecologista, pediatra nem educação sexual


Encaro parto como uma coisa natural desde a infância. Acho que é porque sou a 18ª cria de mainha, de um total de 21 filhos, e a vi parir três dos meus irmãos. Ela estava sempre grávida e eu achava aquela barrigona a coisa mais linda deste mundo. Sem falar que, em Colônia de Leopoldina, na cidade em que a gente morava na fronteira de Alagoas com Pernambuco, consulta médica e hospital não eram coisas do dia a dia. Eu mesma não tive pediatra nem ginecologista. Ninguém fazia pré-natal.

Outra coisa que eu não tive foi educação sexual. Por isso, quando meu namorado disse que mulher que toma pílula quer é por chifre no marido, acreditei. Fui morar com ele aos 14 e engravidei aos 15. Ele era dez anos mais velho. Não usava nenhum método anticoncepcional e fui colocando filho no mundo. Queria ter meus bebês em casa omo mainha! Por sorte, minhas gestações foram tranquilas.


A bolsa estourou e a barriga endureceu. Era a hora...


Meus partos foram bem diferentes dos que são feitos hoje. No primeiro, uma parteira foi em casa. No segundo, chamei só a vizinha, que também tinha experiência no assunto. Mas, aos 17 anos, tive meu terceiro bebê e as coisas foram um pouco diferentes. Eu estava no meu quarto, de madrugada, quando a bolsa rompeu e, logo depois, minha barriga ficou dura. Eram sinais que eu já conhecia: o bebê estava a caminho. Peguei um pedaço de plástico grande e pus sobre a cama. Separei umas toalhas, lavei a mão e me deitei. Em menos de 20 minutos, senti uma dor forte e a criança apareceu. Foi tudo tão rápido que nem lembrei de chamar mainha, que estava dormindo.

Quando o neném veio, gritei pela minha mãe. Apesar de ter parido mais de 20 vezes, ela ficou em choque quando viu a cena: eu, deitada na cama, cheia de sangue e com um bebê nos braços, ainda ligada a ele pelo cordão umbilical. Mainha foi até o armário, pegou uma tesoura e jogou álcool nela pra limpar. Dei um nó no cordão com o barbante que vinha na caixa do ovo, como já tinha visto a parteira fazer tantas vezes, e cortei. Demos uns tapinhas nas costas do bebê e minha filha chorou.


Só fui ao médico um mês depois de minha menina nascer


Fiquei só admirando a Denize até que a manhã veio. Aí, coloquei um vestidinho e saí para tomar sol. Me sentia realizada. As vizinhas não se conformaram em me ver magra de novo. A reação do meu marido já foi bem diferente. Ele chegou em casa às 7 h da manhã, bêbado, e ficou muito bravo quando viu a menina: “Fêmea? Pode se desfazer dela”. Fiquei triste, indignada, mas me calei. E não obedeci, claro.

Nos dias seguintes, tive um sangramento como o da menstruação, e só. Fui ao hospital depois de um mês para fazer o acompanhamento do bebê. A médica que me atendeu ficou admirada. Disse que eu era corajosa.  

Mas a falta de pré-natal e de supervisão na hora do parto teve suas consequências. Engravidei mais três vezes e perdi dois bebês porque o colo do meu útero estava “sujo”, o que prejudicou essas gestações. Só não me arrependo porque fiz o possível  com o que tinha nas mãos. Eu era a única parteira disponível.


Me ofereci para fazer o parto da minha filha, mas ela não quer 


Hoje já tenho netos e minha história ainda é assunto entre os parentes. A Denize tem 23 anos e está esperando seu primeiro filho. Mas hoje as coisas são diferentes. Gravidez é cercada de preocupações. Minha filha fez tratamento pra engravidar e consulta médicos o tempo todo. Eu brinco: se fosse eu, já teria parido cinco! Até me ofereci para fazer o parto dela, mas ela não quer. E pensar que a humanidade faz isso desde o início dos tempos...


Márcia Monteiro Leite, 40 anos, auxiliar de cozinha, Toritama, PE


Da redação


Mulher pode parir onde quiser, mas assistência é necessária


O parto da Márcia foi um caso extremo. Sempre que possível, a assistência médica não deve ser dispensada. “Ainda que o parto ocorra na ambulância, a grávida estaria mais amparada pela equipe”, ressalta Alfonso Massaguer, ginecologista, obstetra e diretor da Clínica Mãe. Mas a mulher tem o direito de parir onde quiser. Ivanilde Rocha, parteira domiciliar e professora do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), explica que a Márcia se preparou bem em casa, mas que só álcool não é sufi ciente para esterilizar uma tesoura. “O ideal seria colocar a ponta da tesoura no fogo até fi car avermelhada e deixar esfriar para então dar o nó no cordão, a dois dedos do umbigo do bebê, e cortar.” Segundo a especialista, é preciso “esperar o cordão parar de pulsar para cortá-lo, pois assim é possível prolongar o tempo de ligação com a mãe e até evitar uma anemia na criança. Depois, recomendamos que o bebê seja colocado em cima da barriga da mãe e coberto. Assim, o contato e o calor da mãe darão segurança e conforto ao recém-nascido”.

19/08/2016 - 15:58

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