"Do além, meu marido pediu perdão pelas suas traições"

Marina ficou sabendo das infidelidades do marido meses após sua morte. Se revoltou e passou a tentar descobrir suas escapadas. Porém, uma carta psicografada e uma médium aliviaram sua dor

Reportagem: Leo Branco

MARINA GIMENES DA SILVA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
MARINA GIMENES DA SILVA | Crédito: Arquivo Pessoal
Meu marido, Luiz, foi para perto da mesa da cozinha assim que chegamos em casa. Ele queria fazer um café naquela tarde de 29 de dezembro de 1998, uma terçafeira. Luiz estava ofegante e tinha os pés inchados, sintomas da insuficiência cardíaca que ele enfrentava. Voltávamos do enterro do meu irmão Manoel, que tinha falecido 15 dias após sofrer um infarto. Abraçada ao meu esposo, comentei que Manoel devia estar em um bom lugar naquele momento. Ele teve uma vida digna e conseguiu se despedir dos familiares. Falei para o Luiz que queria morrer assim, sem carregar mágoas para outro mundo e perdoando em vida as pessoas que me fizeram mal. Ele ficou impressionado com minhas palavras. Deve ter pensado na dívida que tinha comigo, da qual eu nem desconfiava. 

Naquele mês, comemorávamos 30 anos de casados. Eu era tão apaixonada que andava de mãos dadas com o Luiz em todos os lugares. Pedi aposentadoria para cuidar dele quando a doença o debilitou. Eu mal dormia à noite. Tinha medo de que ele morresse por falta de ar. Em julho daquele ano, tínhamos viajado a Maceió com nossos três filhos – o Luiz Cláudio, o Alessandro e a Daniele – para celebrar nossa união. 

Na manhã seguinte ao enterro do Manoel, Luiz foi trabalhar. Ao sair, prometeu me levar ao nosso sítio, para eu descansar. Combinamos que ele me pegaria em casa às 15 h. Nada. Às 17 h, meu filho Luiz Cláudio chegou em casa chor ando. Pensei que fosse pelo Manoel, mas ele disse: “Mãe, o pai morreu enquanto dirigia pra cá”. Desabei. Era tragédia demais pra mim. 

Foram os piores meses da minha vida. Eu mal podia sair de casa por causa da lembrança constante do Luiz. Minha nora me via chorando pelos cantos e resolveu me ajudar. Seis meses depois, ela me disse que ele não merecia todo o meu choro. O Luiz tinha morrido em um quarto de motel ao lado de uma colega de trabalho, a Clarice. 

De início, não acreditei, mas meus filhos me confirmaram a história toda. Fiquei chocada. E revoltada. Por que ele não me contou antes de morrer? Me senti humilhada. A revelação das circunstâncias da morte dele me deixou ainda pior. 

Para me ajudar a vencer a depressão, meus filhos compraram uma passagem para Uberaba (MG). Queriam que eu me encontrasse com um famoso médium da cidade, o Carlos Bacelli, discípulo de Chico Xavier e adepto das cartas psicografadas. Eles tinham a esperança de que alguma mensagem do além pudesse aliviar minha dor. 

Fui a Uberaba com meu filho mais velho. Combinei com ele que pediria para fazer contato apenas com meu irmão Manoel. Luiz Cláudio pediria pelo pai. Participamos de sessões separadas, pois eu não queria saber nada do Luiz. Durante a minha sessão, o médium chamou meu nome. Havia uma mensagem pra mim de alguém que queria falar sobre um segredo que eu tinha descoberto. Ao longo da leitura, o médium mencionou quatro “acidentes de percurso” na trajetória dessa alma em vida: aos 24, aos 32, aos 46 e aos 55 anos, idade do Luiz quando faleceu. Ao final, o médium pronunciou o nome do meu marido. Chorei de emoção. 

Comprovei as traições 

Aquilo só atiçou minha vontade de descobrir quais foram aqueles “acidentes de percurso”. Perguntei aos familiares dele sobre os detalhes revelados pela carta. Assim, descobri que, quando éramos noivos, Luiz se envolveu com uma prima dele. 

Para descobrir o acidente de percurso dos 32 anos, lembrei de uma conversa que meu marido teve comigo naquele período. Ele me contou que tinha recebido uma proposta indecorosa para ficar com a filha do dono da empresa e, assim, crescer na profissão. Luiz me dizia que tinha recusado a oferta e que não queria mais trabalhar lá. Eu o apoiei, claro. Após a carta, descobri que era tudo mentira. Procurei um ex-colega dele, que me revelou: o Luiz saía com uma colega de trabalho que ameaçou contar toda a traição pra mim. Por isso, teve de pedir demissão. 

No novo emprego, ele arranjou outra mulher, a Clarice. Ela frequentava minha casa e eu a considerava uma amiga. Certo dia, após a revelação da carta, encontrei uma conhecida na rua. Eu estava obcecada em comprovar o “acidente de percurso” cometido por ele aos 46 anos. Como essa conhecida morava no mesmo bairro da Clarice, perguntei se ela sabia de alguma traição do Luiz. 

Ela me disse que era tia da Clarice e contou que eles tiveram um relacionamento que durou nove anos. Fui tirar satisfação na casa dela. A Clarice confirmou tudo e disse que já estava sendo castigada por aquele erro. Ela tinha leucemia e acabou morrendo meses depois. 

Luiz queria meu perdão 

Enquanto isso, meu envolvimento com o espiritismo aumentava. A mensagem da carta psicografada se provou verdadeira. Pra superar a depressão, passei a fazer trabalho voluntário em um centro espírita onde faziam sessões de psicofonia (quando o espírito se comunica por meio da voz do médium). 

Numa dessas sessões, a alma do meu marido incorporou em uma médium. Percebi a presença dele porque ela apontou o dedo pra mim. Sua voz ficou diferente, mais masculina. Falava sobre saudade e perdão. Pela médium, Luiz me pediu desculpas pelos “acidentes de percurso”. Queria que eu superasse a dor causada pelas traições e que seguisse minha vida. Assim, ele poderia se livrar, no plano espiritual, da culpa por ter me causado tanto sofrimento. 

Decidi perdoá-lo. Eu precisava retomar o controle da minha vida e quis ajudá-lo a superar essa culpa. Parei de especular sobre as traições dele. Me abri para novas amizades e desafios. Conheci um novo amor, com quem tive ótimos momentos. Por causa da minha fé no espiritismo, vou realizar meu desejo de partir dessa vida com o coração sem mágoas. - MARINA GIMENES DA SILVA, 65 anos, aposentada, Sorocaba, SP

Espiritismo foi tema de novela


A novela Escrito nas Estrelas, exibida pelo Globo em 2010, tinha como trama central o conflito entre Ricardo (Humberto Martins), seu filho Daniel (Jayme Matarazzo) e Viviane (Nathalia Dill), por quem o jovem se apaixonou antes de morrer. Viviane foi escolhida para engravidar com o sêmen congelado de Daniel, mas ela se apaixona pelo pai dele, Ricardo. A paixão é recíproca e, no plano espiritual, Daniel sofre com o envolvimento dos dois. Quem o ajuda é Francisca (Cássia Kiss), sua mãe, que trabalhará o espírito do filho para cultivar a compreensão e o perdão.

22/02/2016 - 11:49

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