"Criei bikes especiais pra me aproximar do meu filho!"

Por causa da paralisia cerebral, o Luiz ficava o tempo todo dentro de casa e era distante do pai

Reportagem: Gabriela Bernardes

Agora tenho a companhia do Luiz o tempo todo | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Agora tenho a companhia do Luiz o tempo todo | Crédito: Arquivo Pessoal
Era um sábado à noite e eu estava assistindo a um filme na TV com minha esposa. A história era de um atleta que criou uma bicicleta adaptada para levar seu filho com paralisia cerebral nas corridas. Fiquei emocionado e me identifiquei com a trama, pois meu menino, o Luiz, de 27 anos, sofre do mesmo problema – ele não fala nem anda. 

Então, tive a ideia de fazer o que o pai fez no filme. É que a relação com meu filho era um pouco difícil: o Luiz ficava nervoso perto de mim e, por passar o dia todo dentro de casa, se irritava com facilidade. Montar uma bike especial para passearmos juntos poderia ser a chance que faltava para nos aproximar!

Tomamos um capote com a primeira bicicleta 

Sempre fui muito bom com trabalhos manuais. Nas folgas do meu trabalho como motorista de caminhão, pego restos de materiais de construção e sucatas para transformar em utilidades domésticas. Já fiz até um estofado adaptado para acomodar melhor o Luiz em frente à TV. Por isso, construir uma bicicleta adaptada não seria nenhum bicho de sete cabeças pra mim. 

No primeiro modelo que criei, em novembro de 2015, adaptei um banco na parte da frente de uma bicicleta de carga. Para equilibrar melhor o peso, coloquei um bujão de gás na parte traseira. 

Quando o Luiz viu a bike finalizada, ficou supercurioso. Com a ajuda da minha esposa, coloquei nosso garoto no assento especial e encaixei na bicicleta. Depois, subi e comecei a pedalar. No primeiro passeio, meu filho não conseguia ficar parado de tanta ansiedade. Eu perguntava: “Tá feliz, filho?”. Ele respondia todo animado com sons que significam a palavra “sim”. Eufórico, o Luizinho ria e até ergueu um pouco a mão para acenar para sua mãe. 

Era uma alegria e tanto, mas, após um mês de passeios, a roda dianteira travou e a bicicleta capotou – nada de grave aconteceu, só ficamos com alguns arranhões.

Mas não pense que desisti: resolvi criar outra versão com peças usadas e sucata. O quintal de casa virou uma oficina! Demorei 40 dias na nova criação. Coloquei duas rodas dianteiras e duas traseiras para distribuir melhor o peso e ficar mais seguro. Acoplei a poltrona da cadeira de rodas na frente. Meu garoto adorou! 

Criei uma cadeira de rodas de corrida! 

Desde então, passeamos todos os dias por volta das 10 h. É tanta alegria que nem preciso falar que é hora de pedalarmos para o Luiz. Quando está chegando o momento, ele já abre um sorriso enorme. Seus olhos brilham e ficam me acompanhando, agitados. Meu filho observa tudo com atenção: a movimentação dos carros, das pessoas... 

Em um dos passeios, um homem nos parou e perguntou se eu não gostaria de participar de uma corrida de rua aqui da cidade, com o Luiz. Gostei da ideia. Como meu filho não pode andar, decidi fazer uma “cadeira de rodas de corrida”. Em apenas dois dias, criei um modelo com duas rodas na frente e uma atrás com um ferro para eu empurrar a cadeira enquanto corro. 

Acabamos nem participando do evento, pois o homem não retornou o contato, mas o Luizinho adorou o novo presente. Então, com a cadeira de corrida, passamos a percorrer 1,5 km todos os dias num trajeto para caminhada. Meu filho fica numa animação só! 

Aquele garoto que passava o dia todo dentro de casa, sentado no sofá ou deitado na cama, se tornou um rapaz mais alegre e entusiasmado. Agora ele vê outras pessoas, passeia e ainda pode escolher com qual bike quer andar: a de corrida ou a de passeio! 

Agora tenho a companhia do Luiz o tempo todo 

Por termos um tempo só para nós dois todos os dias, nossa relação melhorou tanto que, mesmo chegando tarde do trabalho, encontro o Luiz me esperando em casa – coisa que ele não fazia antes. Agora ele sempre quer fazer as coisas comigo! Também passamos a assistir jogos de futebol na TV e torcer juntos. É muito gostoso ter a companhia do meu filho nesses momentos! 

Isso me faz pensar nessas coincidências da vida. Graças a um filme que assisti por acaso, me inspirei para criar algo que trouxe felicidade para meu filho e nos deixou muito mais unidos. Isso não tem preço. - LUIZ GONZAGA DOS SANTOS, 57 anos, motorista, São José dos Campos, SP

O filme que inspirou o Luiz

Baseado em uma história real, o filme Meu Pai, Meu Herói, de 2014, narra a história de Paul, um atleta de triatlo, e de Julie, seu filho adolescente, que tem paralisia cerebral. Quando descobre que o menino viverá o resto da vida em uma cadeira de rodas, o protagonista desiste do esporte para melhorar sua relação com o filho. Ao ver que um paraplégico conseguiu completar uma competição com a ajuda da família, o menino propõe ao pai que os dois disputem juntos uma das provas mais difíceis do circuito mundial.

Os três modelos de bicicletas adaptadas que criei para o meu filhão: 

29/04/2016 - 10:26

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